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– Carreira como treinador –

BnR: Ser treinador era uma coisa que sempre esteve nos teus planos?

AM: Sim.

BnR: Como surgiu o primeiro convite para treinares uma equipa?

AM: O primeiro convite foi no Lourosa. Depois de acabar a minha carreira como jogador fui a Inglaterra. Estive no Tottenham e noutros clubes, a ver condições de trabalho, a maneira de eles treinarem, a mentalidade era diferente e há sempre coisas para aprender. Quando vim desse estágio, o Neves de Sousa entrevistou-me e foi aí que eu disse que queria ser treinador de futebol. As coisas andaram e depois apareceu a oportunidade do Lourosa. O António Teixeira, tinha sido meu diretor no Leixões, e telefonou-me a dizer que o Lourosa estava interessado nos meus serviços a sete jornadas do fim porque estavam sem treinador. Como faltavam sete jogos, o Lourosa ainda podia chegar ao segundo lugar e subir de divisão.

BnR: E como corre essa primeira experiência?

AM: Sete jogos, sete vitórias. Começo a minha carreira de treinador contra o União de Lamas, que acabou por subir de divisão nesse ano. Nesse jogo, a senhora da rouparia dizia-me “Se você ganhar ao Lamas, é o herói aqui de Lourosa”, porque eles têm uma grande rivalidade. Ganhámos 4-1, foi um início de carreira fantástica e eu agradeço ao Teixeira por me ter telefonado às duas da manhã a fazer o convite.

BnR: Conquistaste a 2ª Divisão em 1998/99 com o Gil Vicente. Qual foi a receita do sucesso dessa época?

AM: Começo sempre pelo Presidente, que deu as melhores condições a todos os profissionais. Sem uma estrutura em que não falta nada aos jogadores e aos treinadores, não há sucesso. Depois foi a escolha dos jogadores. Eu tinha já a experiência daqueles dois anos e meio no Lourosa e depois no Santa Clara, que me permitiram construir uma equipa fortíssima. Contruí uma equipa nesse ano com jogadores já com muita experiência.

BnR: Quem eram os jogadores?

AM: O Dinis, o Wilson, o Rui Ferreira, que esteve na formação do Benfica.

BnR: Qual era o objetivo no início de época?

AM: O Gil Vicente não era uma equipa para subir, era para fazer um bom campeonato mas quando se trabalha bem, a metodologia de treino é boa, há condições de trabalho, há um presidente que não falta com nada, os ordenados em dia… Construí ali um grupo de jogadores de grande qualidade individual e coletiva. O coletivo funcionava em pleno porque os jogadores vinham de baixo e queriam, de facto, ganhar. Nós fomos campeões contra um orçamento do Belenenses de loucos, sei lá, um milhão ou dois milhões.

BnR: No ano seguinte a equipa disputa a 1ª Divisão e consegue um honroso quinto lugar, a melhor classificação de sempre do clube. Quem eram os craques desse plantel?

AM: Eram grandes jogadores. O Petit, fui buscá-lo ao Esposende que ele andava perdido. Aliás, ele foi dispensado pelo Boavista, ninguém o queria e depois no ano seguinte foram buscá-lo e a seguir é que foi para o Benfica. Aliás, o Benfica podia ter aproveitado nesse ano e tê-lo contratado, se calhar pagavam menos do que pagaram ao Boavista. Havia uma cláusula de valor baixo e o Vale e Azevedo não quis. Mais jogadores, o Matias, Auri, Bessa, Fangueiro, Ricardo Nascimento, que fez a melhor época de sempre comigo, Guga…

BnR: Que jogou no Vitória de Guimarães?

AM: Exato, mas que era para ter vindo para o Benfica. O Guga estava com o empresário no Hotel Altis e o Vieira, que na altura era diretor de futebol, passou por ele e não o cumprimentou. Estava lá o Pimenta Machado, que me tinha ligado a ver se podia falar com o Guga e convencê-lo a ir para o Vitória, mas eu disse-lhe que não podia intervir na decisão do jogador. O Guga, como o Vieira passou e se calhar não o viu, não cumprimentou, subiu as escadas, foi reunir com o Pimenta Machado e fechou o acordo. Lembrei-me de mais dois dessa equipa, o Tavares, que era um ponta-de-lança fantástico, e o Carlitos, que acaba por vir para o Benfica também.

BnR: Andando um bocadinho para a frente, também treinaste a Naval e deixaste a tua marca.

AM: Sim, eliminamos o Sporting na Taça e só caímos nas meias-finais contra o Porto. Era o Sporting com o Ronaldo, Barbosa, Jardel…

Álvaro Magalhães conquistou a Taça de Portugal em 2004 com José Antonio Camacho
Fonte: Álvaro Magalhães

BnR: Foste treinador-adjunto do Benfica nas épocas 2003/2004 e 2004/2005, muito importantes na história do clube porque puseram fim à seca de títulos. Como era o José Antonio Camacho?

AM: Era extraordinário. O treinador, quando tem uma pessoa nova, procura sempre conhecê-la. Deu-se bem comigo mas sempre com alguma reserva, muitas vezes ia ele e o Pepe conversar só os dois e eu não me metia. O Pepe Carcelén, grande homem de quem gosto muito, veio ter comigo e disse-me que o Camacho me estava a estudar. Depois quando me conheceu não me largava, sempre que tinha dúvidas vinha ter comigo. Aliás, o Pepe dizia sempre “Fala com o Álvaro, ele conhece o futebol português e os jogadores melhor do que nós”. Sempre me deu confiança e a prova provada é que penso que fui o único que foi a casa dele, um jantar com o Pepe Carcelén e a sua família, mais uns amigos, é sinal de confiança.

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