– Glória nacional: do FC Porto à Seleção –

“O Euro 1996 foi uma oportunidade que passou ao lado”

BnR: No FC Porto assumes-te, finalmente, como um jogador de topo e nas três épocas de azul-e-branco conquistas sempre dois troféus por temporada. No total somam-se três Campeonatos, duas Supertaças e uma Taça de Portugal. O que é que aquele FC Porto tinha que os demais não tinham?

Fernando Mendes: Uma organização acima da média e tínhamos uma equipa excelente! Quando cheguei já lá estavam o Aloísio, o Jorge Costa, o Paulinho Santos, o Rui Barros, o Jardel… Era extraordinário saberes que estás a jogar e que vais conseguir conquistar algo. Isto não apanhei em mais nenhum clube. E depois toda a envolvência que há à volta daquele símbolo, os próprios adeptos… Felizmente só os apanhei uma vez de mau humor: quando perdemos para a Taça de Portugal, em casa, com o Torreense. Aquela estrutura não te deixa faltar nada e quando lá estás preocupas-te apenas em jogar futebol, porque fora de campo está tudo tratado. Se as pessoas são boas contigo, tens de morrer por aquela gente.

BnR: Há aquela queda da tua filha, perto do campo do Ramaldense…

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Fernando Mendes: Era disso que te falava! A miúda mais nova caiu e eu não soube de nada. Estava em estágio e só me disseram quando acabou o jogo: “Houve este problema, mas fica descansado, porque tratámos de tudo”. A minha ex-mulher ligou ao Reinaldo Teles e levaram-na ao hospital, fizeram radiografias e passado uma hora já estava em casa. Ficas agradecido para o resto da vida.

BnR: É também no Porto que registas a patente dos livres diretos em teu nome.

Fernando Mendes: Nos outros clubes, tirando o Belenenses, não me deixavam bater. Tive a felicidade de nos dois primeiros livres que marquei, terem dado golo. Foi no Bessa, ganhámos 2-0. No primeiro golo, pedi ao Rui Jorge para me deixar bater; passados cinco minutos, livre outra vez, e o Rui Jorge deu-me a bola, quando ainda havia o Zahovic, o Barroso… Depois ainda fiz mais uns quatro ou cinco seguidos, tive uma eficácia quase de 100%.

BnR: Esperavas ter estado no Euro 2000?

Fernando Mendes: No Euro 2000 não, porque já tinha 33 anos. No Euro 1996, sim. Quando fui para o Porto esperava. Foi no final daquela época do Belenenses e fui pré-convocado. Curiosamente, era o António Oliveira o selecionador e quinze dias depois estava a treinar-me. Fiquei um pouco desiludido, porque acho que merecia, mas também estava lá o Paulinho Santos, o Dimas… Foi uma oportunidade que passou ao lado.

BnR: Corrige-me se estiver enganado: estreias-te pela seleção a 29 de outubro de 1988, no Estádio Nacional, frente à Suécia, e logo a titular. O hino português tem outro encanto desde o relvado?

Fernando Mendes: Isso foi logo depois do Mundial do México. Estreei-me quando aqueles jogadores deixaram de ir à seleção. Em relação à tua pergunta, é uma sensação diferente, porque estás a representar a tua nação – embora já tivesse tido essa experiência nas camadas jovens. De todo o modo, ainda para mais naquele momento delicado [pós-“caso Paula”], em que estavam todos com os olhos postos em nós, a responsabilidade de vestir aquela camisola era gigante e ouvir o hino dali não tem comparação com ouvir das bancadas.