cab reportagem bola na rede

De repente, vi-me dentro do “mundo da bola”, rodeado de “homens da bola”, a falar de “bola”. No Centro de Congressos de Santarém, as conversas tinham um único tema, o mesmo propósito: o futebol, pois claro. Entre os melhores treinadores de futebol nacional, e figuras de proa do desporto-rei, que marcaram presença no Fórum Nacional de Treinadores de Futebol, estava o Bola na Rede, aproveitando a oportunidade de se mostrar à elite do futebol português.

Num Fórum onde se abordaram as mais diversas componentes do futebol, distribuídas por palestras ao longo de dois dias de evento, vou destacar uma em particular, neste texto. Não sei se foi pela temática, ou pelos intervenientes, mas gostei especialmente de ouvir as experiências de treinadores portugueses no estrangeiro. As histórias, os insólitos, os conselhos, a vida do treinador português nos quatro cantos do mundo e sobretudo o selo de qualidade que lhes é reconhecido.

Falaram Domingos Paciência, Jaime Pacheco e Henrique Calisto. Cada um com as suas particularidades, todos tocaram em pontos-chave do que é estar em ambientes completamente distintos do português e dos métodos aos quais se tiveram, como que obrigatoriamente, de habituar.

Sentado na plateia, deliciava-me a ouvir, em uníssono,  que o treinador português sabe muito de futebol, às vezes até demais. Que tem qualidade, conhecimentos tácticos acima da média e métodos de trabalho ao nível dos melhores. Porque indiscutivelmente se criam treinadores de excelência em Portugal e nesse aspecto somos muitos bem vistos lá fora.  Da Ásia à América Central, o treinador português está representado em inúmeros campeonatos mundiais e isso manifesta a consideração que o mundo do futebol tem pelo treinador nacional.

Na maioria dos casos, os treinadores portugueses têm realizado óptimas prestações no estrangeiro e isso deve-se não só à qualidade dos seus métodos, mas também à enorme capacidade de integração e à coragem e determinação que os técnicos demostram. As dificuldades de aculturação são por demais evidentes em países cujos valores sociais e religiosos são o oposto dos nossos. Os desafios e as exigências que se colocam são factores que podem ameaçar o sucesso de qualquer projecto, mas para que isso não aconteça é preciso haver coragem para abraçar novas oportunidades.

De tantos conselhos que se distribuíram às dezenas de treinadores espalhados pela plateia, estes foram talvez os pontos mais focados por treinadores que já viveram as mais inacreditáveis situações nos mais recônditos países mundiais, mas que abarcaram na aventura de uma vida melhor e que hoje afirmam convictamente que tomaram a melhor decisão. A coragem de avançar, o risco a correr, sobretudo nos tempos extremamente difíceis, a nível financeiro, que o futebol português vive.

Engane-se quem pense que, em geral,  o treinador em Portugal é bem pago. Ou pertence a uma elite de pessoas cuja palavra crise é mais uma vocábulo no dicionário. Não é assim que funciona aqui no nosso “Portugalinho”,  mas o mundo abre portas que possibilitam outras oportunidades ao treinador português e é perfeitamente compreensível que este as aproveite. Se puder fazê-lo, pois que o faça. Que avance, que arrisque. A qualidade já lá está, é juntar a determinação e o sucesso vem rastejando atrás. Como a cobra que Henrique Calisto teve de comer no Vietname. Comeu, calou, esteve lá dez anos e adorou.

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