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Após a derrota frente ao Uruguai no primeiro jogo que disputou no Mundial de Sub-20, poucos seguramente esperavam que a selecção da Sérvia conseguisse ir além da fase de grupos e muito menos que fosse capaz de chegar à final e de se sagrar a nova campeã mundial da categoria.  Os Orlici (Jovens Águias) derrotaram a sempre favorita equipa brasileira por 2-1, após prolongamento, na final, que teve lugar no North Harbour Stadium na madrugada de Sábado e que agitou a manhã da capital sérvia (Belgrado), onde, após o apito final do árbitro, as pessoas saíram para as ruas em exibições de grande alegria e júbilo, enquanto entoavam as palavras Srbija je prvak sveta (“A Sérvia é campeã do Mundo”).

No final da partida, o timoneiro sérvio e talvez o grande responsável por este fantástico triunfo, Veljko Paunovic, dedicou a vitória ao seu pai, que faleceu recentemente, mas não esqueceu todo um país que se uniu em torno da jovem selecção e que, de acordo com o antigo médio do Atlético Madrid, necessita deste tipo de conquistas para assim construir e reconstruir uma nova sociedade, ao mesmo tempo que relança novamente o seu futebol nas luzes da ribalta. Apesar de ser ainda bastante jovem, Paunovic é um treinador que não se encaixa nas tendências que proliferam no chamado “futebol moderno”, já que transporta para a realidade actual muitos dos esquemas de jogo e formas de gestão de equipas que eram utilizados nos países que integravam o antigo bloco de leste. Aos 37 anos de idade, Paunovic demonstra já um conhecimento profundo da modalidade e a forma como montou, jogo após jogo, diferentes esquemas táticos, tentando adaptar a equipa ao adversário que estava a enfrentar, diz muito sobre a cultura tática deste jovem treinador.

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Paunovic foi o “cérebro” da vitória sérvia
Fonte: espnfc.com

Muito à semelhança daquilo que Valeriy Lobanovskyi fazia enquanto treinador da antiga URSS e do Dynamo Kiev, Paunovic, apesar de contar com jogadores de elevado nível de qualidade, procurou sempre valorizar a equipa como um todo, deixando o individual para segundo plano. Esta abordagem, por vezes difícil de implementar, resultou na perfeição numa equipa sérvia que jogou sempre com “muito coração” e com uma vontade férrea durante todo o torneio, tendo sido premiada por isso no final. O capitão de equipa, Predrag Rajkovic, que conquistou o prémio de melhor guarda-redes do torneio, confirmou isso mesmo quando lhe perguntaram, no final da partida com o Brasil, qual tinha sido a chave do sucesso da sua  selecção neste Mundial, afirmando que a Sérvia era “uma equipa com um só coração”. Estas palavras dizem muito sobre o trabalho de casa feito por Veljko Paunovic; contudo, tal sucesso não seria de todo exequível se o treinador sérvio não tivesse nas suas fileiras excelentes executantes da modalidade.

Um dos segredos da selecção sérvia está na baliza e dá pelo nome de Predrag Rajkovic. Aos 19 anos de idade, o número 1 da Sérvia é já também o dono da baliza do Estrela Vermelha (FK Crvena zvezda) e foi considerado o melhor guarda-redes a actuar na liga sérvia na época que terminou recentemente.  Em 28 jogos da Superliga, Rajkovic conseguiu terminar 16 deles sem sofrer qualquer golo e, avaliadas as exibições deste Mundial, não demorará muito até despertar o interesse dos gigantes do futebol europeu.

Para além de Rajkovic, faziam parte da defesa sérvia jogadores de inegável qualidade, como por exemplo Nemanja Antonov, um defesa esquerdo poderoso e com elevado sentido de jogo, que faz parte dos quadros do OFK Beograd. Ainda no sector defensivo há também que realçar outro homem do OFK Beograd: Milan Gajic, que se destaca pela sua versatilidade e capacidade de trabalho, que lhe permitem também jogar no sector intermédio, como pivot à frente da defesa, ou ainda como lateral ou médio ala pelo corredor direito. Para além de uma defesa sólida, que apenas consentiu quatro golos durante todo o torneio (algo verdadeiramente notável se considerarmos que todos os jogos dos sérvios na fase eliminatória foram a prolongamento), um dos maiores segredos por detrás do sucesso da selecção sérvia reside no meio-campo. Este é composto por jogadores como Andrija Zivkovic, o jovem capitão do FK Partizan, que dispensa apresentações; Sergej Milinkovic-Savic, um poderoso médio de ataque e de transporte de bola formado nas famosas escolas do FK Vojvodina e que tem dado muito boa conta de si ao serviço do Genk; e o virtuoso Nemanja Maksimovic, um médio valoroso, produto das escolas Estrela Vermelha (FK Crvena zvezda), actualmente ao serviço do FC Astana, que assistiu Mandic para o primeiro golo da final frente ao Brasil e que demonstrou um sangue frio tremendo, pois, quando ficou diante de Jean no minuto 118 do prolongamento, com uma trivela só ao alcance dos melhores, colocou a bola no fundo das redes.

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Zivkovic foi uma das revelações do torneio
Fonte: uefa.com

Embora não seja muito prolífica em termos de golos marcados, da linha avançada da Sérvia fazem também parte dois jogadores, Mandic e Saponjic, que merecem a nossa atenção. O primeiro, Stanisa Mandic, jogador do modesto FK Cukaricki, é um avançado extremamente móvel que pode jogar sozinho lá na frente ou aparecer como uma espécie de trequartista nas costas do ponta de lança. Por seu turno, Ivan Saponjic, que com apenas 17 anos tem já um papel extremamente relevante ao serviço do FK Partizan, é um jovem com um talento imenso, que apontou 4 golos em 14 jogos da Superliga sérvia esta temporada.

Apesar de contar sempre com jogadores de inegável qualidade, apenas em raras ocasiões as selecções jovens e a selecção A da Sérvia tiveram momentos de especial glória após o desmembramento da outrora poderosa Jugoslávia, que foi não poucas vezes apelidada de Brasil da Europa, em virtude da excelência do futebol que praticava. Veljko Paunovic, que é muito mais do que um mero treinador que se limita a passar tácticas  para dentro do terreno de jogo, foi capaz de contrariar a história recente, transportando a selecção de Sub-20 da Sérvia para um outro patamar, mas, mais do que isso, foi capaz de passar para os jogadores um mensagem de paixão, de unidade, de jogar com o coração, mensagem essa que o antigo médio do Atlético Madrid gostaria que fosse extensível ao seu país, que muito tem sofrido no último quarto de século.

                              Foto de Capa: mg.esportes.com.br

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