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Antes de mais, e antes que continuem a ler este texto, quero deixar uma ideia assente: não sou adepto de Jorge Jesus e venho defendendo a sua saída do comando técnico do Benfica há anos. No entanto, e como qualquer adepto de futebol com olhos na cara, sei também ver quando se cometem injustiças. É muito fácil criticar quem está no topo. E ainda mais fácil é criticar quem tenta voltar a provar que ainda tem qualidade. Jesus enquadra-se no perfil desta segunda ideia. Teve uma massa inteira de adeptos a seus pés e perdeu tudo. Com sucessivos erros de gestão (não só da sua parte, atenção!) levou a que todos se virassem contra ele e que agora torçam pelo fim prematuro do seu tempo à frente do Benfica. Assim sendo, toda e qualquer atitude do atual treinador dos encarnados pode ser facilmente condenada ou criticada. E, de facto, grande parte das críticas que são feitas a Jesus são legítimas e corretas. O problema é que o povo português, por norma, gosta de exacerbar todo o tipo de problemas. Vamos do 8 ao 80. E o mais recente tópico de discussão prende-se com a suposta falta de aposta de Jesus em jogadores das camadas jovens do Benfica.

O tempo de André Gomes vai chegar / Fonte: O Jogo Online
O tempo de André Gomes vai chegar
Fonte: O Jogo

É um debate recorrente e que, sinceramente, a mim já me cansa. Neste caso, estamos aqui a falar sobre um assunto que nem deve merecer discussão se cada um de nós se colocar no papel de Jesus. Antes de mais, convém relembrar que o treinador do Benfica não pode arriscar. Já falhou (e muito) e agora tem de ter o máximo de atenção possível na abordagem a cada jogo. E, diga-se o que se disser, a aposta em jovens jogadores requer risco e paciência. E essas são duas palavras impensáveis para o estado atual do universo benfiquista. Não é, de todo, possível integrar o absurdo número de jogadores que vou ouvindo falar no plantel encarnado, de um momento para o outro.

É importante ver que a conjuntura atual do Benfica não permite que entrem assim jogadores na equipa principal, sem qualquer preparação. Digam-me, os entendidos, onde é que André Gomes poderia ter oportunidades até há uns tempos atrás? Sairia Matic do onze? Enzo? Rúben Amorim? Ou o recém-contratado Fejsa? Pois, seria complicado. A mesma questão para Ivan Cavaleiro, que iria concorrer com Salvio, Markovic ou Gaitán. Não é fácil e o Benfica investiu muito este ano para conseguir ganhar algo. Notou-se que houve um esforço para manter a grande maioria dos jogadores e era natural que a integração dos jovens teria de ser feita com muita calma, ainda para mais agora.

""Benfica não quer queimar os jovens", por Rúben Amorim na última flash interview / Fonte: Revista Futebolista
“Benfica não quer queimar os jovens”, por Rúben Amorim na última flash interview
Fonte: Revista Futebolista

Na minha opinião, em relação a este assunto, Jesus já fez muito este ano. Teve a ousadia para apostar em Oblak em detrimento de Artur (sim, não é português, mas é jovem e há 5 anos que pertence ao Benfica), deu rodagem a Ivan Cavaleiro (preferindo mantê-lo no plantel em vez de Ola John), deixou agora sair Matic e, parece-me, vai começar a dar mais minutos a André Gomes e já promoveu a estreia oficial a mais quatro miúdos da equipa B: João Cancelo, Hélder Costa, Lindelöf e Bernardo Silva. Acho que o trabalho a nível de camadas jovens está a ser feito. Não pode ser feito repentinamente. E são raros os casos em que tal situação acontece. Vimos o Barcelona há uns anos a fazê-lo de forma convicta e a ter resultados. Mas por poucas vezes essa situação acontece. Em Portugal, por exemplo, o Porto não investe. De todo. E o Sporting só agora decidiu enveredar seriamente por esse caminho. Não por opção, mas porque a grave situação finceira do clube assim o pediu. Este ano, com Bruno de Carvalho, é que foi definido que a aposta seria quase exclusiva em jogadores da cantera. Mas sempre aproveitando os recursos e os erros do passado. Isto porque, olhando para o onze leonino, apenas William Carvalho pegou de estaca no onze. Todos os outros necessitaram de tempo. E alguns deles até estiveram quase a ser afastados do plantel. Peço um breve exercício de memória para nos lembrarmos de Rui Patrício, Adrien ou André Martins há uns anos atrás. Erraram, foram criticados e quase que perderam o rumo. Felizmente para eles, este ano, o Sporting partiu para o campeonato com menos pressão do que o habitual, fruto da terrível época passada. E isso acabou por beneficiar todos os novos jogadores, que puderam entrar na equipa despreocupados e sem a pressão inicial da massa adepta e comunicação social.

No entanto, a história é diferente para o outro lado da Segunda Circular. O Benfica vem de épocas em que nada ganhou e muito investiu. E este ano voltou a fazê-lo. E os jogadores que o Benfica tem no onze inicial, nesta altura, são praticamente intocáveis. Jesus, tendo em conta a conjuntura atual, tem sabido lidar bem com esta questão. Vai, pouco a pouco, lançando os miúdos talentosos que tem à sua disposição e vai-lhes dando rodagem. Agora, não sejamos hipócritas. Nesta altura, Jorge Jesus pouco mais podia ter feito. Não só pelo risco que tal situação acarreta, como pela qualidade que possui no seu onze inicial. O tempo de André Gomes, Ivan Cavaleiro ou Bernardo Silva há-de chegar. Não convém é apressar processos e evoluções.

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