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Ricardo Horta tem estado nas bocas do Mundo. Recentemente, foi nomeado para a lista do Sindicado de Jogadores Profissionais de Futebol para Melhor Jogador do mês de Março da Liga ZON Sagres. O internacional português, que marcou presença no Europeu Sub-19, na Lituânia, tem sido escolha habitual de José Couceiro e já soma seis golos nesta temporada pelo Vitória de Setúbal. Apesar do sucesso actual do avançado sadino, o caminho que traçou nem sempre foi rectilíneo. Mas, já dizia o provérbio, “a verdade e o azeite vêm sempre ao de cima”.

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Golo frente ao Paços de Ferreira
Fonte: Facebook – Ricardo Horta Fãs

Durante sete anos, vestiu e defendeu a camisola encarnada de águia ao peito. Porém, depois de uma época nos Juvenis A, foi dispensado. Quando fui dispensado do Benfica fiquei muito triste, mas mantive uma atitude optimista. Sabia que a vida não acabava ali e, no dia seguinte, procurei um clube para continuar a fazer aquilo de que mais gostava – jogar futebol. Nunca pensei, nem por um segundo, em desistir do meu sonho e pude contar com o apoio da minha família, em especial do meu irmão, que nesse momento também jogava no Benfica, e dos meus amigos. Até alguns treinadores que acharam que eu não tinha condições para continuar no clube me apoiaram. A dispensa tornou-me ainda mais forte psicologicamente e incentivou-me a trabalhar ainda mais”, sublinha.

O jovem jogador de 19 anos confessou que se sentia mais próximo de realizar o sonho de ser jogador de futebol profissional quando jogava no Benfica mas, ao mesmo tempo, desabafa que é também mais difícil porque se trata de  um clube onde estão concentrados os melhores jogadores, onde é preciso alcançar a excelência para fazer parte do lote de jogadores que vingam na equipa principal.

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O primeiro ano de Ricardo Horta no Benfica
Fotografia gentilmente cedida pelo entrevistado

Na época seguinte, chegou ao Vitória de Setúbal como júnior de primeiro ano. Refere que encontrou uma realidade completamente diferente e adianta: tive como único objectivo jogar o melhor possível para poder evoluir, mas só no final da época é que me afirmei como titular.”

Recorda sem amargura o seu primeiro jogo contra o Benfica. Nunca senti vontade de me vingar. Quando joguei contra eles pela primeira vez, estava muito motivado para mostrar que tinha valor para estar do outro lado, e queria provar aos dirigentes que tinham tomado uma má decisão ao me terem dispensado, conta.

Relembra o segundo ano de júnior, que diz ter sido o seu melhor, pois teve a oportunidade de marcar 22 golos num campeonato bastante competitivo. No Vitória, foram-me dadas oportunidades que não tinha tido e que me permitiram provar todo o meu valor; foi assim que assinei o meu primeiro contrato profissional. Chegar à primeira equipa do Vitória, ainda júnior, foi muito bom, deu-me mais maturidade para a transição formação/séniores, que avalio como sendo muito difícil para todos os jovens, remata. Agora, ao jogar na equipa profissional do Vitória, tenho a consciência de que todo o esforço que investi no meu percurso, lembrando-me dos bons e dos maus momentos, está a ser recompensado e estou extremamente feliz. Só tenho a agradecer aos dirigentes do Vitória de Setúbal, que apostaram em mim e que reconheceram o meu trabalho, acrescenta.

 

Agora, ao olhar para trás, com menos emoção e mais racionalidade, que factores achas que motivaram a tua dispensa?

O Benfica, sendo um clube de elite e um dos melhores clubes de formação na Europa, destina-se aos melhores jogadores e aos que dão mais garantias de futuro a um nível profissional. No meu caso, penso que a dispensa se deveu ao facto de ser um jogador baixo, franzino e com pouca massa muscular. Estas características iriam influenciar muito a minha utilização na época seguinte, como júnior de primeiro ano.

Que conselhos dás aos jovens atletas que passam pela mesma situação?

Nunca desistam dos vossos sonhos e nunca deixem de lutar e de trabalhar para os atingir! Não se deixem ir abaixo com uma dispensa ou empréstimo de um clube grande. Se continuarem sempre focados no vosso sonho, ele vai concretizar-se, independentemente de ser num clube com maior ou menor visibilidade desportiva. Sabemos que para ser jogador profissional é preciso ter alguma sorte, mas essa sorte é fruto de muito esforço e suor e, muitas vezes, temos de abdicar de coisas que fazem parte do processo normal da nossa juventude, mas acreditem que vale a pena. Nunca desistam dos vossos sonhos por maior que seja o obstáculo, é esse o meu conselho final.

Que leitura fazes do campeonato português?

A Liga Portuguesa é um campeonato muito competitivo, apesar de não o parecer. Mas o que é certo é que todas as equipas disputam os jogos como se fossem finais. Todos sabemos que o foco principal são os três grandes, pois são as equipas que dão mais visibilidade à Liga a nível internacional. Mas, na minha opinião, temos um campeonato com surpresas em termos de resultados desportivos, conseguimos assistir a jogos com uma qualidade de futebol muito boa e, por vezes, com os teóricos “perdedores” a ganhar aos favoritos. Falando um pouco no nosso caso específico, o Vitória é um clube com bastante história no futebol português e que já alcançou grandes feitos a nível nacional. Neste momento, não temos os mesmos objectivos que os três grandes, e até mesmo que o Braga ou o Estoril, mas procuramos sempre alcançar a melhor posição possível para dignificarmos ao máximo o clube.

Quais são os maiores desafios que um jovem jogador português atravessa actualmente?

Penso que os jovens portugueses, em alguns clubes, sofrem do síndrome de “estrangeirismo”. Efectivamente, há clubes que preferem apostar em jovens de outros países, contratando-os aos 16/17 anos, para um plano de longo prazo, ao invés de acreditarem nos jogadores da nacionalidade portuguesa. Mas, com o passar dos anos, creio que esta política tende a desaparecer e espero sinceramente que os clubes apostem na formação portuguesa. Portugal é um país onde há muita qualidade e isso nota-se nas selecções nacionais, que têm sido sempre muito fortes. A aposta na juventude não deve ser só ao nível do futebol de formação, tem de se estender ao futebol sénior. Não pode haver medo de lançar os jovens talentos, pois isso só valoriza os jogadores, os clubes e, num futuro próximo, a qualidade do futebol português, que, apesar de já ser muita, pode ainda ser melhorada com essa aposta no produto nacional.

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Horta continua a brilhar no Estádio do Bonfim
Fonte: Facebook de Ricardo Horta

Ricardo conhece o sabor da reconquista, aquele que faz parecer qualquer conquista pequena; soube agarrar o sonho que parecia cair e elevou-o, fortalecendo o seu crescimento como profissional e, sobretudo, como pessoa.

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