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A ECA (European Clubs Association) e a UEFA estão coligadas com o propósito de tornar o elenco de clubes milionários cada vez mais exclusivo, a partir de uma proposta que promete revolucionar o modelo competitivo da Champions League a partir de 2024.

Este novo modelo competitivo assenta nos mesmos princípios que a projetada Super Liga Europeia. A Super Liga Europeia foi concetualizada por Stephen Ross, quem projetou e criou a International Champions Cup (torneio de pré-época), onde apenas 24 equipas participariam, provindas das principais cinco principais ligas europeias: Espanha, Itália, França, Alemanha e Inglaterra. A organização e a administração da Super Liga Europeia sairiam do raio de ação e de tutela da UEFA. Não existiriam promoções ou descidas, coeficientes para distribuir lugares de acesso a competições europeias pelas competições nacionais e o mais importante, o Financial Fair-Play não seria problema. Tratar-se-ia de uma Liga restrita, onde se conglomerariam as maiores fatias de rendimentos provenientes da exploração do futebol.

No âmbito jurídico, a possibilidade de vários clubes desvincularem-se das respetivas federações nacionais e das associações internacionais é exequível, até porque não seria uma situação inédita no desporto. Todavia, os clubes estariam, presumivelmente, restritos à participação nas competições organizadas pela federação que tutelasse a Super Liga Europeia. Qual seria a retaliação possível da UEFA e da FIFA? Juridicamente, nenhuma. Caso existisse uma guerra entre os tubarões europeus e a UEFA e a FIFA, o principal prejudicado seria sempre o futebol.

Não posso indicar uma única razão pela qual esta aberração falhou. A batalha e o transtorno prolongado com instituições desportivas, a rejeição veemente da Federação Inglesa (a qual tem maior influência no círculo do poder das principais ligas europeias) e a imprevisível reação dos adeptos a esta rutura do futebol convencional talvez sejam os motivos da repressão ou do adiamento da criação da Super Liga Europeia. A ECA delineou este projeto em conjunto com Ross. Como esta ideia soou ao mesmo tempo absurda e pavorosa, por ser de facto possível, a UEFA resignou-se mediante a seguinte premissa: se não os podes vencer, junta-te a eles.

No seguimento da queda da Super Liga Europeia, eis a proposta da ECA para o novo modelo competitivo da Champions League, alicerçada no mesmo princípio: o polarismo.

Esta proposta pretende eliminar a convencional forma de acesso à competição, através da performance nos campeonatos nacionais de clubes e do coeficiente obtido pelos desempenhos em anos anteriores por equipas de um mesmo país nas competições organizadas pela UEFA. A proposta não é consensual, a organização da competição ainda é incerta e é alvo de discussões, as quais deverão ser sanadas ao longo do mês de junho pela ECA, com a expetativa de lograr consenso entre os variados stakeholders do futebol europeu.

Andrea Agnelli, Presidente da Juventus e da ECA, enviou uma carta de intenções a todos os clubes associados sobre a mencionada proposta com o intuito de lograr consenso. Na carta, pode ler-se as seguintes alíneas:

a) Criação de uma “Pyramidal Pan European League System” com continuidade e com oportunidades para crescimento exponencial (para quem está na competição);

b) Mais jogos europeus e com maior qualidade desportiva são aliciantes para todos os agentes desportivos, sobretudo os adeptos;

c) Aumento de mobilidade e dinamismo mediante a aprovação de um novo modelo da Champions que garanta promoções e descidas;

d) Aberta a todos os clubes (“keeping the dream alive”);

e) Manutenção da simbiose com os campeonatos nacionais (ninguém sabe de que forma);

Este modelo não implica qualquer alteração quanto ao número atual de clubes participantes (32). Contudo, diminuirá os 8 grupos atuais para apenas 4 grupos, com um aumento de 6 jogos para 14 jogos por grupo. Em cada grupo irão descer 2 equipas (2 x 4 = 8), enquanto as remanescentes 24 equipas qualificar-se-ão para a competição a decorrer na época desportiva seguinte. Ou seja, no final de contas existirão apenas 8 lugares para as restantes equipas europeias pelejarem.

Caminhamos para uma Champions de ‘milionários’, tornando ainda maior o fosso entre estes e os demais?
Fonte: UEFA

 

As implicações para os calendários nacionais de uma adicional carga de 8 jogos europeus, obrigaria à sua reformulação e a que alguns dos jogos da hipotética Champions fossem disputados no fim-de-semana (momento normalmente reservado para as competições nacionais). Perante a impossibilidade de se “esticar” a época desportiva, Andrea Agnelli sugeriu que todas as ligas europeias limitassem a participação para 18 equipas e pediu à UEFA e à FIFA a cooperação necessária para que fosse reduzido o tempo de interrupção dos campeonatos nacionais em detrimento das competições internacionais.

Andrea Agnelli não recebeu apoio da maioria das federações nacionais, tendo sido a inglesa a que mais veementemente protestou. A federação inglesa referiu que não apoia a proposta de remodelação da ECA porquanto afrontaria contra a competitividade do seu campeonato e infligiria danos irreversíveis na forma como os adeptos sentem o jogo. De facto, a federação inglesa é quem tem o maior interesse em preservar o status quo pois, gere e distribui a riqueza por e para todos, conservando a sã competição e o superior interesse dos adeptos. Uma forma de ser e estar que deveria servir de exemplo para todas as restantes federações europeias.

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