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Porém, nem todos os campeonatos europeus distinguem-se pela competitividade, mobilidade ou pela distribuição de riqueza. Tomemos como exemplo a Série A, a Bundesliga e da Ligue 1. De há uns anos para cá, somos testemunhas da hegemonia da Juventus (8 campeonatos consecutivos) e do Bayern (6 campeonatos consecutivos). Somos também testemunhas da hegemonia que assola o campeonato francês, graças aos investimentos desmesurados tanto do Mónaco como do P.S.G. que dividem entre si, desde 2012, o título de campeões nacionais. Consegue-se entender o porquê do argumento utilizado por Andrea Agnelli quanto à maior competitividade europeia e a um maior espetáculo desportivo caso a proposta de remodelação do modelo competitivo da Champions vingue. Afinal, se são sempre os mesmos a ganhar a nível nacional, por que não juntá-los a nível europeu?

É óbvio o porquê da objeção da federação inglesa em aceitar a proposta de remodelação. As competições inglesas promovem o verdadeiro espetáculo desportivo, alicerçado na distribuição de riqueza por forma a balancear as disparidades financeiras e desportivas entre todos os clubes. Não podemos aceitar a utopia de que todos os clubes possam lutar em igualdade ou com as mesmas armas, por diversas razões de índole social e financeira. No entanto, as federações nacionais são responsáveis por manter a competição saudável e íntegra, sem nunca permitir a dissolução dos sentimentos fervorosos dos adeptos.

Na teoria, a pirâmide de poder do futebol é composta, sucessivamente: pelos clubes, pelas associações distritais, pelas federações nacionais, pelas federações internacionais (e.g. UEFA, CONCACAF, etc.) e em última instância, a FIFA. No presente, a hierarquia do poder no futebol é confusa e difere de país para país.

A ECA não se integra em nenhuma das referidas categorias. Na teoria, deveria tratar-se de uma associação de caráter consultivo e nunca de poder decisório. Na prática, já pudemos observar que já tornou o futebol europeu como seu refém. Esta associação, na teoria, deve representar e lutar pelos melhores interesses dos clubes europeus. Na prática, só os grandes clubes europeus é que são presenteados com dita representação.

A criação deste monstro (ECA) deve-se à inércia das federações e da UEFA. São reféns da vontade dos maiores clubes europeus porque não souberam dotar os campeonatos nacionais das condições mínimas e essenciais para que houvesse uma sã competição e por forma a que fossem geradas e distribuídas maiores receitas. Agora, mediante a ganância de alguns, sentem-se obrigados a defender um argumento que na prática nunca prosseguiram. O futebol mundial é o palco de uma batalha pelo poder, com máxima desconsideração pela beleza do desporto-rei, como tem sido apanágio.

O desejo insaciável de hegemonia de alguns clubes europeus não é saudável nem tampouco é sinónimo de desenvolvimento financeiro e desportivo sustentável para o futebol. É Ceferin, presidente da UEFA culpado? Não, apesar de ter a sua quota-parte. A bomba não foi criada ontem. A dualidade de critério no tratamento de diferentes casos, seja sobre o Financial Fair Play ou sobre qualquer outra alegada violação de regulamentos aplicáveis, está estável e promete continuar. Basta recordar que há pouco tempo, o P.S.G. não foi multado com graves sanções desportivas e financeiras porque a CFCB (organismo responsável pelo Financial Fair Play) não cumpriu um prazo. Coincidência? Acho que não.

Na mesa da discussão sobre o novo modelo competitivo da prova milionária, sentam-se os sujeitos do costume. Os grandes clubes europeus não podem simultaneamente decidir o seu futuro e o dos outros, sem que haja uma consulta prévia extensa e esclarecedora. Se esta proposta for de facto avante, os problemas financeiros surgirão com muito maior ímpeto nos clubes ditos pequenos. Como tal, a necessidade de obter liquidez fará com que os clubes ludibriem as regras, convivendo com os “demónios” desportivos, desde o match-fixing até aos TPO’s e TPI’s.

As competições nacionais são o motor desportivo e económico do futebol. A adoção de um novo modelo da competição milionária terá consequências nefastas quanto à sustentabilidade da “plebe” clubística. Há uma desconsideração total pelo impacto económico e social que o futebol tem em cada país europeu e por todos os clubes, independentemente da sua magnitude. A multiculturalidade, a identidade clubística local/regional e a imprevisibilidade são características inatas do futebol, as quais serão irremediavelmente afetadas pela vontade desenfreada de uns em concentrar em si os proveitos financeiros.

 

Foto de Capa: Bola na Rede

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