Futebol de formação | Presente e futuro?

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Há várias formas de estar no futebol, tal como acontece na vida, porque ao contrário do que muitas vezes se tenta passar, esta modalidade não deixa de fazer parte do mundo em que todos vivemos.

Acredito que, em tudo, a chave reside no equilíbrio e, por ser assim, urge a reflexão para que, de forma ponderada, possamos delinear metas e percorrer um caminho que faça sentido no nosso propósito de vida. Julgo que este propósito poderá ser dividido em duas dimensões, que embora estejam ligadas, devem ser diferenciadas, já que não são sinónimas: a de realizar o que queremos para nós e, por consequência, a segunda, isto é, a de deixar um legado, não por vaidade, mas sim com o intuito de ser solidário para com o mundo, justificando a oportunidade que nos foi dada de viver.

Numa sociedade que, cada vez mais, é direcionada para o resultado, desvalorizando o que nos conduz até ao mesmo, é com naturalidade que podemos constatar que, várias vezes, são ignoradas etapas em diversos processos ou, se consideradas, é pouco habitual ser-lhes dado o devido valor.

Ainda que, no futebol, vivamos um momento tremendamente positivo no que à produção de talento diz respeito, continuo a achar que a opinião pública, de um modo geral, persiste em olhar pouco para os primeiros passos que são dados na prática da modalidade. Contudo, pior ainda, é quem tem essa função e não a realiza de forma atenta e rigorosa.

Fonte: SL Benfica

Digamos que o futebol de formação é, em Portugal, encarado de forma menos correta na grande maioria dos clubes, começando pelos responsáveis por esses departamentos, estendendo esta crítica a toda a estrutura, quando a há, e não esquecendo a mentalidade desportiva menos correta que, por vezes, muitos encarregados de educação incutem nas crianças, sendo os jovens atletas os grandes lesados de todo este contexto.

Tal como a construção de uma casa não partirá do telhado, o mesmo deve acontecer com o futebol: dar ênfase à base, gerando assim uma estrutura mais consistente sobre a qual assentará um telhado.

Se, para muitos, isto é uma proposta irrealista, é pertinente afirmar que o investimento na formação será, seguramente, a aposta numa equipa principal de futuro, embora para tal tenha de existir a paciência e a consciência para entender que, numa primeira fase, o foco terá de estar no processo.

É um processo de exigência extrema, pelo que exige muito, de clube, estrutura, famílias e, claro, do próprio atleta, não seguindo esta enumeração uma ordem lógica com base em algum critério.

Quando abordo a exigência para um clube, penso na inteligência e competência que têm de existir para se munirem com as pessoas certas, para pensar e colocar em prática uma estratégia que deve considerar uma série de fatores e, por aqui, já podemos perceber que não é tarefa fácil, tendo sempre no nosso horizonte o facto de que esta realidade não é idealizada para o percurso de muitos.

Ao abordar a tipologia de pessoas que poderão integrar um departamento de futebol de formação e formar uma estrutura, importa referir que ainda existem várias instituições que não estão (ou são pouco) organizadas, o que terá impacto no grau de especialização daqueles que são recrutados para cargos de chefia. Porém, podemos afirmar ainda que, mesmo que estejamos perante indivíduos capacitados para determinados trabalhos, muitos encaram este espaço como um “trampolim” para outros voos e, permitam-me, não vejo na ambição algo de errado (pelo contrário), mas o futebol de formação não é superior ou inferior ao sénior, ou seja, são, somente, espaços diferentes que exigem características distintas. Ainda assim, é factual a diferenciação remuneratória entre essas estruturas, o que tem influência, certamente, na perspetiva que temos de que há uma realidade que é superior à outra.

Futebol de Formação
Fonte: AD Limianos

Nas famílias está, claramente, outro dos pilares da formação de um atleta que está, indubitavelmente, interligada a um parâmetro que é imperativo ser considerado no futebol moderno: o psicológico.

Confesso-vos que, pelos vários campos onde tenho passado, já assisti a exemplares inspiradores e, pelo contrário, a outros que me incomodaram sobremaneira, colocando em causa qualquer tipo de ética.

Ainda sobre o suporte familiar, há um fator preponderante e que, diariamente, tem impacto positivo e negativo no processo evolutivo dos miúdos: vivemos na época em que um dos melhores jogadores da história é português, Cristiano Ronaldo, o que dá acesso privilegiado a mensagens positivas e ao desenvolvimento, por vezes, de expectativas irreais. Perante tudo isto, os adultos responsáveis pela educação de qualquer criança/jovem assumem total protagonismo na função de os equilibrar a nível emocional porque, como sabemos, nem todos têm qualidades para jogar nas equipas da formação, muitos não chegarão ao futebol sénior e, mesmo os que chegam, quase nenhum atingirá a excelência, não falando, obviamente, do nível do internacional português, porque esse, como se sabe, não está ao alcance de qualquer um.

Por último, mas tão ou mais importante que os restantes esteios do futebol de formação: o atleta. Para eles, este tem de ser um espaço de liberdade, diversão, mas também de compromisso e dedicação, culminando naquilo que este espaço deve ser: aprendizagem.

Não podemos esquecer que o futebol de formação é isso mesmo: formação. Formação de quê? De atletas, naturalmente, mas também de homens e mulheres e, para tal, têm de existir clubes que encarem este departamento com o maior rigor, que invistam nele, que atraiam os melhores recursos humanos, que os desenvolvam, que os coloquem com o foco certo, que consciencializem as famílias para o momento em que o atleta se encontra no seu processo evolutivo, que nunca permitam aos adultos esquecer que lidam com crianças e jovens e, claro, que permitam aos mais novos serem felizes a fazerem aquilo que os diverte, que estimulem o sonho, mas nunca esquecendo o poder educacional que têm e devem exercer.

Sei que, em Portugal, há quem trabalhe muito bem, mas também existem realidades em que, claramente, pode ser feito mais, muito mais, e para que tal aconteça, todos temos de contribuir, dentro do que nos compete e do que pretendemos.

O futebol de formação é presente pelo que podemos e devemos fazer por um atleta e é futuro pelos resultados que isso nos poderá dar, tendo sempre em mente que os resultados não se resumem, apenas, ao valor de um indivíduo dentro das quatro linhas, mas também fora delas.

 

Artigo da opinião de Orlando Esteves.

Redação BnR
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