Isto já nem é Ténis! | Wimbledon

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Depois de se ter falado, em março último, pela primeira vez da hipótese de tenistas oriundos da Rússia e da Bielorrússia poderem falhar o torneio de Wimbledon, devido ao conflito bélico vivido, seria dois meses depois que essa hedionda decisão era mesmo replicada pelo All England Club. Aproveitando o ensejo de nos encontrarmos a cerca de 15 dias do começo da prova, refletirei sobre as razões pelas quais considero este impedimento ridículo, desnecessário e despropositado .

QUANDO O DESPORTO É USADO COMO “ARMA” POLÍTICA, O RESULTADO ESTÁ À VISTA!

Foi com o eclodir de um conflito, iminente já há vários anos, que também o desporto, e o Ténis em particular começaram a ser, em minha opinião, injustamente e infundadamente, vítimas colaterais de um conflito onde não existem bons nem maus.

A primeira medida a refletir-se nos principais circuitos da modalidade da bola amarela foi a proibição, tanto ao nível do WTA Tour, quanto do ATP Tour, de os jogadores/as não poderem atuar sob a bandeira dos regimes liderados por Vladimir Putin e Aleksandr Lukashenko. Desde então, sempre que os mesmos entram em court, atuam como tenistas neutrais, isto é, sem qualquer bandeira à frente do seu nome.

Se esta medida já seria, por si só algo, porventura, demasiadamente pesado para quem nada tem que ver com os respetivos regimes, pois muitos deles/as nem habitam atualmente nos seus países de origem, a gota de água deu-se quando se decidiu bani-los com a premissa de que, deste modo, estariam a promover uma maior segurança para si e restantes familiares. Algo resultante de longas conversações entre o governo  britânico e os responsáveis pelo Grand Slam londrino. Como é fácil constatar, considero totalmente desadequada esta severa posição, uma vez que nomes grados da modalidade, como Andrey Rublev, Danil Medvedev‎, Arina Sabalenka ou Vitoria Azarenka, se manifestaram por diversas vezes contra o conflito, pedindo o fim da guerra cada vez que emergiam vitoriosos/as ao assinarem  nas lentes das câmaras  mensagens onde revelavam a sua preocupação, apelando para que tudo acabasse bem. Percebendo-se, logo aí, que não são, como é lógico, a favor dos regimes ditatoriais que vigoram nos referidos países.

Convém ainda acrescentar que a medida alastrou semanas mais tarde às restantes provas jogadas em solo britânico, o que significa que todos estes atletas, cinco que figuram entre o Top 100 ATP e mais de uma dezena que constam das 100 primeiras posições da tabela WTA, não terão outro remédio que não seja suspender a competição nesse período, uma vez que, enquanto decorre um Major, não existem outros eventos .

Outra questão que merece reflexão, e não defendendo qualquer das partes, será entender o motivo pelo qual os atletas ucranianos não sofreram igual tratamento.

NÃO ATRIBUIR PONTOS, TIRA EMOÇÃO E NÃO AMENIZA A SITUAÇÃO…

Após a concretização das já referidas medidas, chegou-se à conclusão que, e de modo a tentar igualar as circunstâncias, o Grand Slam britânico optou por não atribuir pontos para o ranking, algo que não só tira muita emoção ao torneio, como acaba, ironicamente, por beneficiar um tenista de um dos países visados. No caso, Danil Medvedev‎ que, assim, regressará ao topo do ténis mundial, dado que Novak Djokovic não poderá defender os 2000 pontos alusivos ao triunfo conseguido no ano anterior. Mais uma vez, uma decisão que creio que não beneficia nem a cobertura mediática da prova, nem os principais magos do desporto que, assim, e dado não existir atribuição de  pontos, podem e devem prescindir de viajar até Wimbledon, tendo maior descanso depois do desgaste acumulado em Roland Garros.

Em suma, tudo isto é algo meramente político, que acaba por afetar todos menos os alvos pretendidos, fazendo com que alguém totalmente contra a atual situação de conflito bélico se veja arredado de fazer o que mais gosta, apenas por ter nascido no local errado. Não estaremos perante mais uma situação de discriminação? A pretérita ocasião em que se verificou uma situação deste tipo foi quando, em plena II Guerra Mundial, tenistas germânicos e nipónicos se viram igualmente impedidos de praticar este desporto.

Atitudes destas podem levar a uma perda de entusiasmo por parte dos fãs. Num futuro próximo, desejo que a política e o desporto se respeitem mutuamente.

Foto de Capa: Wimbledon

Diogo Rodrigues
Diogo Rodrigueshttp://www.bolanarede.pt
O Diogo é licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade Lusófona do Porto. É desde cedo que descobre a sua vocação para opinar e relatar tudo o que se relaciona com o mundo do desporto. Foram muitas horas a ouvir as emissões desportivas na rádio e serões em família a comentar os últimos acontecimentos/eventos desportivos. Sonha poder um dia realizar comentário desportivo e ser uma lufada de ar fresco no jornalismo. Proatividade, curiosidade e espírito crítico são caraterísticas que o definem pessoal e profissionalmente.

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