Uns choram, outros sonham | Diário do Mundial #19

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O futebol tem um lado cruel, uma face que nos demonstra que, quanto maior for a pressão, mais intensa será a emoção e, neste momento, o Mundial demonstra-nos que, de um lado, estão os que estão quase a “tocar o céu” e, do outro, alguns que caem com estrondo pela desilusão que surge na sequência da ilusão que foi gerada.

Hoje, enquanto portugueses, vivemos emoções fortes, experimentando esse lado mais duro, a tristeza que se instalou depois de uma vitória empolgante frente a Marrocos, a confiança que existia nos nossos que também surgia numa convicção forte de que tínhamos todas as condições para ultrapassar a seleção marroquina e, por fim, no muito provável “canto do cisne” para o jogador mais marcante da história do futebol português, Cristiano Ronaldo.

Portugal está fora do Mundial, mas segue Marrocos que está a fazer uma campanha memorável, tendo vencido um grupo no qual constava a também semifinalista, Croácia, a Bélgica, eliminou a seleção espanhola nos “oitavos” e, por fim, também bateu a seleção das “quinas”. Perante tal percurso, seria, no mínimo, injusto falar em acaso ou apenas sorte.

No último jogo do dia, mais um clássico, desta feita entre Inglaterra e França, que sorriu aos gauleses que, deste modo, continuam a almejar a segunda vitória consecutiva na competição, ficando uma palavra de apreço para a seleção inglesa que teve um percurso muito positivo, tendo sido este jogo uma boa demonstração de que, apesar da eliminação, a seleção de Gareth Southgate é, à data, uma das mais fortes do mundo.

 

O JOGO DO DIA

Portugal e Marrocos entravam para este jogo num momento de enorme confiança, já que os portugueses “despacharam”, com impacto, a Suíça e a seleção marroquina eliminou uma das boas candidatas à conquista da competição, a Espanha.

Com o favoritismo a ser atribuído à equipa orientada por Fernando Santos, facto que não preocupava os marroquinos que, até então, tinham sido felizes em contextos semelhantes, o jogo acabou por ser uma batalha tática em que a nossa seleção teve, quase sempre, a bola e, do outro lado, um adversário que somente se preocupava com a reação, apostando numa organização defensiva muito forte e, sempre que possível, em transições ofensivas rápidas, mas com pouco risco, integrando poucos jogadores nesse momento.

Embora fique a ideia de que Portugal dominou a partida pelos números elevados de posse bola e pela presença constante no meio-campo adversário, a verdade é que também ficaram expostas algumas dificuldades para criar momentos de finalização, existindo, neste aspeto, muito mérito na forma como Marrocos dava pouco espaço e, muito importante, pela pressão que existia.

Na primeira parte, independentemente da ideia que possamos ter em relação à superioridade na nossa seleção, a verdade é que Marrocos teve mais remates enquadrados, tendo, inclusive, chegado à vantagem que foi mantida até final.

Se, com um empate no marcador, o investimento no rigor defensivo já era elevado, com a vantagem, essa postura foi ainda mais clara ao longo dos segundos quarenta e cinco minutos, apesar de, com a obrigatoriedade de Portugal correr mais riscos, também ter existido mais espaço para Marrocos explorar, sobretudo através das já referidas rápidas transições ofensivas que foram sendo cada vez mais perigosas pelo foco ofensivo que a seleção portuguesa teve de ir aumentando à medida que se aproximava o final da partida.

Em resumo, estiveram em campo duas equipas muito capazes, tendo uma delas adotado uma estratégia que tem resultado ao longo do Campeonato do Mundo e que, hoje, voltou a garantir sucesso e, do outro lado, Portugal que, ao longo dos noventa minutos, apenas conseguiu, pontualmente, romper a sólida muralha marroquina, ainda que sem sucesso.

Portugal é mais forte individualmente, mas não soube explorar essa qualidade para neutralizar a força coletiva de Marrocos.

 

A FIGURA DO DIA

Doeu, a quase todos os portugueses e, certamente, a muitos dos adeptos de futebol, ver Cristiano Ronaldo sair em lágrimas um jogador que tanto deu à sua seleção e às equipas onde tem jogado ao longo das últimas duas décadas.

É, logo à partida, doloroso ver que uma das figuras tão marcantes desta modalidade está a caminhar para o fim da sua carreira e que, muitas vezes, já não é capaz de imprimir aquilo que, em tempos, foi capaz.

Nesta mescla tão polémica de gratidão pelo passado e avaliação do presente, fica a imagem de um jogador e, principalmente, de um homem que sonhou, venceu, perdeu, sorriu e chorou. É humano, apesar de, muitas vezes, terem duvidado disso.

 

O FORA DE JOGO DO DIA

Após a vitória no Euro 2016, e não desmerecendo, mas retirando da equação a Liga das Nações, que, naturalmente, não tem a dimensão das principais competições de seleções, Portugal, com um conjunto de gerações que é, para muitos, um dos melhores da nossa história, não conseguiu ultrapassar os quartos de final de um Mundial ou Campeonato da Europa, tendo sido eliminada por seleções que, em teoria, estariam ao alcance da equipa portuguesa.

Conscientes de que futebol não é uma ciência exata e a qualidade individual não vence por decreto, a verdade é que o percurso da seleção portuguesa nos últimos anos é dececionante, analisando objetivamente os resultados reais e comparando-os com os potenciais.

 

A CURIOSIDADE DO DIA

Dia histórico para Marrocos e, consequentemente, para o futebol africano: pela primeira vez na história, uma seleção de África chega às meias-finais de um Mundial e, é importante realçar, com um mérito tremendo, não existindo, sequer, a possibilidade de avançar com o argumento de que foi feliz com o sorteio.

Aconteça o que acontecer, a história está escrita neste Mundial, com Marrocos a surgir em letras douradas.

 

RESULTADOS

QUARTOS DE FINAL

Marrocos 1-0 Portugal

Inglaterra 1-2 França

 

Artigo com a opinião de Orlando Esteves, comentador BnR TV.
Alexandre Candeias
Alexandre Candeiashttp://www.bolanarede.pt
Apaixonado por futebol desde sempre, tem o hábito de escrever sobre o desporto rei desde os tempos da escola primária, onde o tema das composições de Português nunca fugia da bola.

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