Paulo Sousa, o Control-Freak

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A expressão “control freak” (alguém determinado em fazer as coisas acontecer de forma exactamente igual àquela por ele pretendida e que tenta manipular os outros a fazer coisas da forma que lhe convém – tradução livre do Cambridge Advanced Learner’s Dictionary) é usada, sobretudo nos países de língua inglesa, para depreciar pessoas teimosas, infléxiveis. “É assim porque tem de ser assim, e vai ser assim”, queixa-se quem tenta atingir um ego ainda mais insuflado com tão frustrada “investida”. É um desabafo de quem tentou sugerir que se desviasse do plano inicialmente traçado por essa pessoa, mas que, por teimosia, não aconteceu. Porque um “control freak” tem sempre razão, e as coisas só correm bem porque ele as delineou assim.

Esse tipo de personalidade está associada, em casos mais graves, a pessoas com transtornos obsessivos compulsivos (TOC), que se caracteriza pela micro-gestão de todos os aspectos da vida, tudo tem de estar sob controlo, e tem de ser verificado repetidamente. Desde o degradé da cor das meias, dispostas numa segunda gaveta de uma cómoda específica à maneira como lava às mãos até ao processo de trabalho que usam (seja a servir cafés ou a gerir pessoas).

Qualquer perturbação nesta “ordem” pode causar uma sensação de pânico, de caos. Por não se saber lidar com a mudança, pela falta de adaptação a um mundo onde o que existe fora do controlo, constitui uma ameaça à sua sobrevivência.

Às vezes identificamo-nos com este tipo de pessoas por sermos mais teimosos que os nossos amigos ou porque simplesmente amamos futebol e há, me muitos treinadores, a obsessão pelo controlo e pela teimosia. Irrita, mesmo que corra bem, a escolha de um esquema táctico ou do tempo de espera que demora a aposta naquela jovem revelação que tanto queremos ver em acção. Mas os treinadores não orientam os gostos do público, orientam a sua equipa rumo à concretização de objectivos, que não serão atingidos senão houver, em cada encontro, o controlo do jogo.

Há mestres desta disciplina espalhados pelo mundo fora, mas poucos singram. Felizmente, para o futebol português, Paulo Sousa é um deles. A forma como a sua Fiorentina neutralizou o Inter, no último domingo, é disso exemplo, impondo a primeira derrota da época a uma equipa motivadíssima (tinha 5 vitórias em 5 jogos, até ontem), no seu próprio reduto… e logo por expressivos 4-1.

Jogadores viola festejam um dos quatro golos com que golearam o Inter Fonte: Facebook da Liga Europa
Jogadores viola festejam um dos quatro golos com que golearam o Inter
Fonte: Facebook da Liga Europa

É certo que o início do jogo foi bastante feliz – três golos e uma expulsão contrária aos 30 minutos, mas o que fica do jogo é muito mais que um resultado feliz, é um domínio absoluto da Fiorentina sobre a equipa com maior ímpeto  na Serie A, completamente amarrada na teia táctica que Sousa lhe impôs, com um Badelj omnipresente a auxiliar na pressão de Ilicic e Blaszczykowski à saída do meio campo do Inter e Vecino, ainda que com menos intensidade e preponderância, no lado contrário a fazer o mesmo, mas contando com um ala-esquerdo que vai se vai revelando como um dos mais completos do futebol actual (Alonso) que não largava o “osso” (bola)  quando ele lhe passava pelo “nariz” (as suas zonas do terreno), nunca comprometendo o seu posicionamento, avançando sempre que possível, contando com a protecção de centrais eficazes (Roncaglia, Rodríguez e Astori) a resolver os poucos problemas que lhes chegavam.

Sim, porque a pressão viola, inviabilizando linhas de passe ao seu adversário, garantia muita posse  (65/35 para os viola, num jogo em que se esperava que houvesse mais do lado de quem procurava inverter o rumo dos acontecimentos desde o minuto três) e permitiu o domínio territorial que se verificou ao longo do encontro. O ataque, esse não era descurado, e explorava-se as saídas rápidas dos explosivos Borja Valero, Ilicic e Kalinic (homem-golo, fez um hat-trick no Giuseppe Meazza) que quase sempre criavam mossa à defensiva nerazurra. Assim montou Paulo Sousa a sua Fiorentina, em Milão depois de já ter “secado” o Milan, em Firenze,  e ter vencido 3 dos outros 4 jogos da Serie A.

Não acredito que o antigo jogador da selecção nacional tenha as meias por degradé de cores ou que lave as mãos durante exactamente um minuto, mas, certamente, não abriu mão de usar e abusar do treino posicional e de se certificar de que dentro da cabeça de cada jogador de campo estão as noções de compensação posicional e ocupação do espaço… quando em posse e sem ela.

O Inter, que ia reinando o início de época na Serie A, já está destronado, e é a Fiorentina a nova rainha do Calcio, ocupando o trono para o qual se caminhou através de um mapa táctico, cujos caminhos todos os jogadores viola já sabem de cor. O seu líder, qual “control freak”, fez questão disso.

Foto de capa: ViolaChannel.tv

Pedro Machado
Pedro Machado
Enquanto a França se sagrava campeã do mundo de futebol em casa, o pequeno Pedro já devorava as letras dos jornais desportivos nacionais, começando a nascer dentro dele duas paixões, o futebol e a escrita, que ainda não cessaram de crescer.                                                                                                                                                 O Pedro não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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