O privilégio dos mortais

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Estão anunciados os finalistas da corrida à Bola de Ouro 2015. De quatro, escolheram-se três, sendo que dois deles já tinham entrada garantida. Cristiano Ronaldo e Messi quase que têm lugar cativo na “shortlist” final, a qual integram desde 2007 (com excepção de 2010, onde Ronaldo não figurou) a esta parte.

O troféu atribuído ao melhor jogador do mundo está, há muito, “viciado” pelo talento inato destes dois génios e pela sua capacidade de trabalho e de se reinventarem, de se tornarem, dia após dia, melhores e imprevisíveis para os seus adversários. Tornando a tarefa de os parar uma missão hercúlea, mesmo que estes “fenómenos” sejam estudados ao pormenor.

A única dúvida prende-se com o terceiro elemento desta lista. Torres (!!!!), Xavi, Iniesta ou Ribery tiveram o privilégio de partilhar o pódio com estes “deuses da bola”, mas o terceiro lugar foi, invariavelmente (com excepção de 2010) o seu destino. E este ano, sobrava a duvida: Suarez ou Neymar? Teríamos sempre uma novidade. Acabou por recair no brasileiro, mas o vencedor parece encontrado à partida, não devendo fugir à dupla habitual.

São tempos diferentes dos de outrora, estes que vivemos, relativamente à atribuição do futebolista nº 1. Antes de Messi e Cristiano Ronaldo, havia uma certa “elite” de futebolistas que integravam o lote de sérios candidatos à conquista desse desígnio, mas o número era, sempre, muito maior, mesmo quando houve jogadores a receber o prémio (no caso, o “FIFA World Player”) em anos consecutivos como aconteceu com Ronaldo (1996 e 1997) e Ronaldinho (2004 e 2005). A discussão era grande, e o pódio variava com frequência. Durante este período (1996-2005), por exemplo, houve cinco vencedores diferentes (Ronaldo, Zidane, Rivaldo, Figo e Ronaldinho), nem sempre consensuais com os resultados da “Ballon D’Or”, e registou-se a entrada de 14 (!) jogadores diferentes (para além dos referidos vencedores, também David Beckham, Raúl, Oliver Kahn, Thierry Henry, Shevchenko, Davor Suker, Dennis Bergkamp, Gabriel Batistuta, Lampard e Eto’o chegaram ao pódio).

Neymar junta-se ao companheiro Messi e a Cristiano Ronaldo na disputa pela “Bola de Ouro” Fonte: FC Barcelona
Neymar junta-se ao companheiro Messi e a Cristiano Ronaldo na disputa pela “Bola de Ouro”
Fonte: FC Barcelona

Era uma altura diferente, porventura mais aliciante do ponto de vista da adivinhação e… da fantasia. Nas escolas, os miúdos escolhiam o seu jogador favorito, aquele que eles “queriam ser” e jogavam imitando os seus movimentos. Tínhamos um jogo sem “personagens” repetidas. Hoje em dia, só vemos mini-Ronaldos e mini-Messis espalhados pelos recreios. No trabalho e nos cafés, apostava-se num favorito e havia sempre muita gente a sair derrotada pela quantidade de futebolistas a apostar.

Era bom, sim, do ponto de vista do convívio, mas o futebol praticado não tinha o nível de hoje em dia. Cristiano Ronaldo e Leonel Messi vieram dar-nos o privilégio de assistirmos a coisas que os nossos antepassados não tiveram oportunidade de testemunhar. Hoje em dia, temos dois dos melhores de sempre a disputar o mais alto galardão atribuído a um futebolista. É uma luta de titãs, um ombrear entre dois “deuses” pelo título de melhor de sempre.

No fundo, um privilégio para nós, comuns mortais e adeptos de futebol.

Pedro Machado
Pedro Machado
Enquanto a França se sagrava campeã do mundo de futebol em casa, o pequeno Pedro já devorava as letras dos jornais desportivos nacionais, começando a nascer dentro dele duas paixões, o futebol e a escrita, que ainda não cessaram de crescer.                                                                                                                                                 O Pedro não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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