O Benfica apresentou-se em Turim com uma nova cara e uma coragem, mas regressa a Lisboa com a dura lição de que o controlo não ganha jogos se for acompanhado de péssimas abordagens nas zonas de decisão, pior. José Mourinho surpreendeu ao manter o onze que venceu o Rio Ave, lançando uma equipa virada para a frente que, durante largos períodos, olhou a Juventus nos olhos. No entanto, a história do jogo provou que a este nível não basta ter boas intenções ou dominar as estatísticas, é preciso matar quando se pode.
A primeira parte foi um exercício de ilusão que prometeu muito mais do que acabou por entregar. Apesar de uns 15 minutos iniciais de algum sufoco, onde Kenan Yildiz fez o que quis de Amar Dedic e explorou as debilidades do corredor direito com incursões perigosas para o meio, o Benfica conseguiu estabilizar e instalar o seu jogo no meio-campo adversário.
A equipa mostrou uma capacidade de saída de pressão muito superior ao habitual, com Fredrik Aursnes a funcionar como o verdadeiro treinador em campo, pautando os ritmos e orientando os colegas mesmo sem bola. Contudo, este domínio territorial revelou-se inconsequente no último terço. Faltou clarividência a jogadores como Andreas Schjelderup e Gianluca Prestianni, que, apesar do esforço visível e da disponibilidade física, pecaram sistematicamente na tomada de decisão, enrolando lances prometedores longe da baliza ou definindo mal o último passe quando a Juventus parecia vulnerável.
O nulo ao intervalo aceitava-se, mas deixava a sensação amarga de que o Benfica, com menos cerimónias, poderia estar na frente.
O jogo decidiu-se verdadeiramente no duelo dos bancos e na agressividade, ou na falta dela, nas áreas. Enquanto Luciano Spalletti leu as necessidades da sua equipa ao intervalo, retirando Fabio Miretti para lançar o português Francisco Conceição e fechar a largura, libertando McKennie para zonas interiores, José Mourinho manteve a estrutura e a equipa pagou caro por isso. O golo inaugural, aos 55 minutos, nasce de um erro de Tomás Araújo, o defesa central, que tem qualidade técnica inegável, tentou mais uma vez antecipar um lance que pedia contenção, falhou o timing de entrada sobre Khéphren Thuram e abriu o espaço para o 1-0. Foi um momento de ingenuidade que se tem repetido, lembrando o lance similar sofrido contra o Braga, e que a este nível de exigência é fatal. Pouco depois, a passividade coletiva à entrada da área permitiu uma triangulação simples entre Jonathan David e McKennie para o 2-0, num lance onde o meio-campo encarnado recuperou a passo e a defesa foi demasiado macia, permitindo ao médio finalizar com tempo e espaço.
A reação do banco encarnado ao descalabro foi tardia e, pior, errática. A perder por dois golos, José Mourinho optou por retirar a criatividade de Georgiy Sudakov e Andreas Schjelderup para lançar opções que pouco acrescentaram, voltando a insistir na adaptação de Franjo Ivanovic ao corredor esquerdo, uma teimosia tática que continua a não dar frutos e a deixar o jogador desconfortável. O momento que melhor resume a noite (e talvez a época do Benfica) surgiu aos 81 minutos. Vangelis Pavlidis, que já tinha feito uma exibição penosa e desligada do jogo, escorregou no momento da marcação de uma grande penalidade, desperdiçando a soberana ocasião para relançar a partida. Aquele escorregão não foi apenas azar ou relvado, foi o espelho de um avançado psicologicamente destroçado, sem confiança, e de uma equipa onde tudo o que pode correr mal, corre mesmo.
O Benfica sai de Turim com mais posse de bola e mais remates que a Juventus, tendo até criado mais expectativas de golo do que o adversário, mas com uma derrota que torna a continuidade na Champions League uma miragem. Com apenas seis pontos e a depender de uma conjugação improvável de resultados de terceiros (além da obrigação de vencer o Real Madrid), os portugueses ficam agora agarradas à matemática e a milagres para tentarem um lugar no play-off. Foi um jogo decidido pela eficácia italiana e pelos erros infantis, provando que personalidade com bola é bonito, mas é a agressividade nas áreas que paga as contas.

