O impacto das lesões no resto da temporada do FC Porto

- Advertisement -

O impacto das lesões começa a assumir contornos decisivos no Dragão e ameaça condicionar de forma séria o que resta da temporada do FC Porto. Prova disso é o facto de num espaço de poucos meses, a equipa ter perdido dois avançados para o mesmo cenário clínico: rotura do ligamento cruzado anterior.

Recorde-se que Luuk de Jong “caiu” em dezembro, numa recaída depois de já ter enfrentado problemas físicos na mesma época, e ficou praticamente riscado até ao final da campanha. Mais recentemente, foi a vez de Samu Aghehowa sofrer idêntica lesão, agravando um quadro que já era delicado e reduzindo drasticamente as opções para o setor ofensivo. No entanto, a sucessão de contratempos não se limitou ao ataque. De notar que, logo em setembro, Nehuén Pérez sofreu uma rotura do tendão de Aquiles, ausência prolongada que abalou o eixo defensivo e obrigou o clube a mexer-se no mercado de inverno.

Deste modo, em janeiro, chegaram Thiago Silva para reforçar o centro da defesa e Terem Moffi para o ataque, assim como Seko Fofana e Oskar Pietuszewski, numa tentativa clara de colmatar as lacunas abertas pelas lesões graves e pela falta de profundidade em algumas posições/funções.

Francesco Farioli
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

De facto, para lá dos casos mais “bicudos”, a temporada tem sido marcada por uma frequência assinalável de problemas físicos na equipa orientada por Francesco Farioli, sobretudo lesões musculares. Aliás, a lista de indisponíveis ao longo da época impressiona: Diogo Costa, Alberto Costa, Bednarek, Francisco Moura, Alan Varela, Pablo Rosario, Gabri Veiga, William Gomes e Borja Sainz passaram, em momentos distintos, com maior ou menor gravidade, pelo boletim clínico. Como referido, umas lesões mais graves, outras de menor duração, mas todas reveladoras de uma campanha marcada por instabilidade física. Posto isto, a dimensão do problema é inegável e poderá pesar, de forma determinante, nas ambições portistas até ao último jogo.

É verdade que o arranque foi demolidor, com pressão alta constante, marcações homem a homem e uma intensidade sufocante que empolgou adeptos e colocou o FC Porto num patamar exibicional elevado. Contudo, a exigência desse modelo, aliada à sucessão de jogos, acabou por expor os limites físicos do plantel, até porque manter aquela disponibilidade brutal ao longo de toda a época revelou-se, naturalmente, inviável.

Importa recordar que os dragões disputaram o Mundial de Clubes em julho, encurtando o período de recuperação e prolongando o desgaste, ainda que parte desse grupo já não integre o plantel atual.

Ora, falando dos casos atuais, a verdade é que a ausência de Samu Aghehowa se projeta muito para lá de uma simples troca no onze. No plano desportivo, representa um golpe profundo nas ambições do FC Porto para a reta final da temporada.

FC Porto Nice Samu Aghehowa
Fonte: Diogo Cardoso/Bola na Rede

O avançado era, nesta altura, a referência maior do ataque portista, não apenas pelos números, mas pela influência estrutural no modelo de jogo. A sua disponibilidade física permitia sustentar a pressão alta, atacar a profundidade com critério e oferecer constantes linhas de apoio em construção. Era um ponta de lança que desgastava defesas, fixava centrais e criava espaço para as incursões dos médios e extremos. Os indicadores estatísticos confirmam essa centralidade: 20 golos em 32 jogos, 13 deles no campeonato, além de uma assistência. Era o melhor marcador da equipa e o jogador mais determinante no último terço.

Para lá da finalização, notava-se uma evolução clara no capítulo associativo, com melhorias na receção orientada, na capacidade de jogar de costas para a baliza e na ligação entre setores, aspetos particularmente valorizados no modelo exigente de Francesco Farioli, pelo que a sua lesão não retira apenas golos. Retira dinâmica, intensidade e uma parte significativa da identidade competitiva que a equipa vinha construindo.

Além disso, o impacto estende-se, também, possivelmente, ao plano financeiro. Samu afirmava-se como um dos ativos mais valorizados do plantel e, à medida que a época avançava, cresciam os rumores de interesse proveniente de Inglaterra, com valores apontados que se aproximariam de montantes muito elevados para a realidade nacional. Desta forma, uma segunda metade de temporada ao mesmo ritmo poderia inflacionar ainda mais a cotação do avançado, tornando provável uma transferência de verão capaz de gerar encaixe expressivo. A lesão, inevitavelmente, introduz um fator de incerteza nesse cenário e pode adiar (ou, pelo menos, condicionar) uma operação que se adivinhava estratégica para as contas do clube.

Assim sendo, em termos de profundidade ofensiva, o panorama torna-se curto. Com Luuk de Jong já afastado desde dezembro, também por rotura do ligamento cruzado anterior, numa recaída depois de ter enfrentado problemas físicos na mesma temporada, e com Samu agora fora das opções, restam apenas Deniz Gul e Terem Moffi como pontas de lança disponíveis.

Falando destes dois, Deniz Gul, embora tenha características interessantes que podem ser exploradas, ainda não parece ter “andamento” para este nível, sobretudo para ser titular de uma equipa que ambiciona vencer o campeonato e chegar longe nas provas europeias, ao passo que Moffi é uma incógnita, visto que, apesar de ter entrado como suplente utilizado no último jogo, frente ao Nacional, na Madeira, para jogar apenas cerca de 17 minutos, não é titular desde o dia 30 de novembro de 2025 (na altura, ainda como jogador do Nice).

Deste modo, a margem de erro diminui drasticamente, sobretudo num período em que os jogos se acumulam e a exigência competitiva se intensifica. Cada eventual indisponibilidade adicional poderá obrigar a adaptações improvisadas, como, por exemplo, a possibilidade de Rodrigo Mora, à semelhança do que fez, no início de outubro, frente ao Estrela Vermelha, para a Liga Europa, assumir uma função de “falso 9”, podendo, assim, coabitar com a presença de Gabri Veiga em campo, algo que não tem sido muito explorado por Francesco Farioli.

Kiwior e Bednarek FC Porto x Benfica
Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede

No setor defensivo, a situação apresenta contornos distintos, ainda que igualmente relevantes. Nehuén Pérez começou a época em bom plano, formando dupla consistente com Bednarek, mesmo numa fase em que o clube já negociava a chegada de Jakub Kiwior. A rotura do tendão de Aquiles, sofrida em setembro, interrompeu essa afirmação e forçou a administração liderada por André Villas-Boas a agir no mercado de inverno, com a contratação de Thiago Silva para reforçar o eixo.

Kiwior, entretanto, já treina condicionado e deverá regressar em breve à plena disponibilidade. Além de Bednarek e Thiago Silva, existe ainda Dominik Prpic como alternativa, embora muito menos utilizado. Nos corredores, o cenário é mais estável. Martim Fernandes deverá recuperar nas próximas semanas da fascite plantar, e Alberto Costa tem assegurado rotação frequente e fiável.

É verdade que o calendário atual, cada vez mais congestionado, torna quase inevitável a ocorrência de lesões. Ainda assim, preocupa a persistência das musculares, tradicionalmente mais difíceis de gerir e propensas a recaídas. Lá está, o FC Porto disputou o Mundial de Clubes em julho, encurtando o período de recuperação, e parece que pagou (ou está a pagar), em parte, essa fatura física nos meses seguintes. Neste contexto, pelo lado positivo, ganha particular relevância o facto de os dragões terem terminado entre os oito primeiros da fase regular da Liga Europa, evitando dois jogos adicionais de play-off de acesso aos oitavos de final. Menos duas partidas significam menos desgaste numa fase crucial da temporada.

Também a eliminação caseira frente ao Vitória SC, por 1-3, nos quartos de final da Taça da Liga, em dezembro, acabou por proporcionar um período de trabalho alternativo. Enquanto os rivais disputavam a ‘final four’, a equipa azul e branca realizou um “mini estágio” no Algarve, focado na integração dos reforços de inverno, inicialmente Thiago Silva e Oskar Pietuszewski, mais tarde acompanhados por Terem Moffi e Seko Fofana. Perante este cenário, impõe-se recentrar prioridades. Desde o arranque da época que o campeonato foi definido como objetivo primordial e, face às circunstâncias atuais, essa linha estratégica terá de ser novamente sublinhada.

A Liga Europa continua a ser uma montra relevante e o FC Porto surge naturalmente entre os principais candidatos à conquista, mas a gestão de esforço poderá obrigar a encarar a prova com pragmatismo acrescido. Alcançar uns quartos de final ou até umas meias-finais dificilmente poderá ser visto como um fracasso, sobretudo num cenário de limitações físicas evidentes, mesmo sabendo que os prémios monetários estão longe dos patamares da Liga dos Campeões.

Já na Taça de Portugal, o enquadramento é distinto. Permanecem por disputar dois jogos, dois clássicos, frente ao Sporting, nas meias-finais, que, pelo peso histórico e emocional que carregam, assumem sempre relevância máxima, independentemente do estado físico do plantel. São jogos que mobilizam tudo o que envolve o clube e que podem redefinir estados de espírito. Acresce que, numa eventual presença na final, o adversário sairia do duelo entre Torreense e AD Fafe, formações de escalões inferiores — Segunda Liga e Liga 3, respetivamente —, o que reforça a perceção de oportunidade.

Logo, no meio de uma época marcada por contratempos físicos, o foco terá de ser claro, isto é, proteger recursos, ser competitivo onde é decisivo e não perder de vista aquilo que, desde o primeiro dia, foi assumido como prioridade absoluta. No fundo, a questão que se impõe é simples: conseguirá o FC Porto manter-se igualmente competitivo até ao fim sem novas baixas significativas? Num clube que entra em cada jogo e em cada competição para vencer, qualquer ausência prolongada (para além das atuais) pode abrir um vazio difícil de colmatar. E quando esse vazio envolve, entre outros, o melhor marcador e um dos principais ativos financeiros, o impacto transcende o relvado e passa a tocar todas as dimensões do projeto desportivo.

Raul Saraiva
Raul Saraiva
O Raúl tem 19 anos e está a tirar a Licenciatura em Ciências da Comunicação. Pretende seguir Jornalismo, de preferência desportivo. Acredita que se aprende diariamente e que, por isso, o desporto pode ser melhor.

Subscreve!

Artigos Populares

UFC Fight Night: o Mau e o Fofinho

UFC Fight Night, 21 de fevereiro de 2026, 1h00: Antevisão: Sean Strickland e Anthony Hernandéz lutam pela chance de desafiar Chimaev.

A Batalha Eterna | Braga x Vitória SC

Continua a eterna batalha entre guerreiros e conquistadores, desta vez com palco na cidade de Braga. Pouco mais de um mês depois, joga-se novamente o domínio pela região do Minho, que marca vantagem tangencial para a equipa de Guimarães, após a vitória na final da Taça da Liga.

Teste exigente do leão na perseguição ao líder | Moreirense x Sporting

Não é muito habitual acontecer, mas nesta jornada Sporting e Benfica entram em campo ao mesmo tempo para disputarem a 23.ª jornada do campeonato.

Águia pressionada e Ave em aflição: Obrigação e sobrevivência cruzam-se na Luz | Benfica x AVS SAD

O Benfica continua a ser a única equipa invencível na Liga Portuguesa, está a apenas três pontos do segundo classificado (Sporting), ainda vai jogar dois clássicos com os dois rivais.

PUB

Mais Artigos Populares

Tondela ganha na casa do Estrela da Amadora e volta aos triunfos na Primeira Liga

O Tondela vence fora de casa o Estrela da Amadora por 2-0 na jornada 23 da Primeira Liga e regressa aos triunfos.

Sporting: Há grande novidade na convocatória para o jogo frente ao Moreirense

Fotis Ioannidis está integrado na comitiva do Sporting e volta assim à convocatória. Leões enfrentam este sábado o Moreirense.

Sassuolo vence Hellas Verona em jogo que houve expulsão de jogador que passou pelo Braga e pelo Vitória SC

O Sassuolo venceu em casa o Hellas Verona por 3-0 na jornada 26 da Serie A. Al-Musrati foi expulso na partida.