A saída de Luís Pinto e o grande problema do Vitória SC

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O despedimento de Luís Pinto do comando do Vitória SC foi uma das notícias mais surpreendentes nas últimas semanas, dentro do futebol português. O técnico chegou ao D. Afonso Henriques no começo da temporada e parecia ter o seu lugar completamente seguro, pelo menos até ao final da época.

O emblema de Guimarães nos últimos anos tem sido um autêntico ‘cemitério de treinadores’, com António Miguel Cardoso (mais uma época a mudar de equipa técnica antes do término da mesma) a ser um presidente com mão firme, esperando resultados imediatos, colocando a sua mira no curto prazo. Ainda assim, não se esperava que tomasse tal decisão. Luís Pinto (45% de vitórias) conquistou uma Taça da Liga pelo Vitória SC, um dos três troféus que os minhotos venceram no futebol profissional, juntando-se a um restrito grupo de treinadores com palmarés na instituição: Geninho e Rui Vitória.

A decisão da estrutura, caso não apresente uma outra justificação, deve-se aos últimos resultados, o que reflete a sua falta de paciência. O Vitória SC conta com um registo abaixo do esperado depois da vitória na Taça da Liga: cinco derrotas, um empate e duas vitórias. A machadada final deu-se na viagem aos Açores, que resultou numa derrota por 2-0 frente a um Santa Clara longe de viver o seu melhor momento. Os vimaranenses estão a realizar uma campanha tímida na Primeira Liga, contando com 32 pontos, ocupando a nona posição, longe dos lugares de acesso às competições europeias. Todavia, a missão de Luís Pinto não era propriamente fácil. Ainda que o Vitória SC seja constantemente apontado a uma disputa pelo top 5, a estrutura não facilitou os planos ao treinador, vendendo os principais ativos da equipa principal, algo que já foi esmiuçado noutro artigo.

Noah Saviolo Vitória SC
Fonte: Paulo Ladeira/Bola na Rede

Luís Pinto viu-se a trabalhar com um plantel bastante distinto do que começou a pré-temporada, olhando para a formação como a grande solução para a falta de qualidade (e quantidade) por demais evidente. Os conquistadores têm no desenvolvimento de jovens uma das suas bandeiras, com a constante promoção de promessas aos A’s. Porém, tal como já aconteceu em outras ocasiões, não existia uma base de experiência no Vitória SC que pudesse acolher tanto jovem atleta. Não estaria certamente nos planos do técnico português que Diogo Sousa se transformasse num médio fundamental ou que Oumar Camara ou Noah Saviolo passassem a ser os avançados (a par de Nélson Oliveira) com mais minutos de jogo.

O Vitória SC conta com um plantel cheio de potencial, mas só isso, falta algo essencial, já que o extra já têm. Não é uma equipa de luxo, com muitos nomes que conseguem produzir no imediato, capazes de lutar com o Braga pelo posto de quatro classificado. Os vimaranenses estão um patamar abaixo e isso reflete-se na classificação. Gil Vicente, Famalicão, Moreirense e Estoril Praia, os quatro emblemas que estão entre os grandes rivais do Minho na tabela, têm projetos focados na continuidade e na estabilidade, que não viveram uma revolução como a que os conquistadores se viram envolvidos.

Ainda assim, Luís Pinto logrou produzir resultados, com a conquista da Taça da Liga a ser o seu Magnum Opus. Ao olharmos para o conjunto de Guimarães, vemos um claro projeto que deveria ser a longo prazo, com o técnico a conseguir retirar resultados no campeonato numa das próximas edições da Primeira Liga, com 2025/26 a ser uma espécie de ano de transição, com as jovens promessas a trabalharem para serem a tal base do plantel, que António Miguel Cardoso não conseguiu dar à sua equipa técnica.

Oumar Camara no Vitória SC
Fonte: Paulo Ladeira/Bola na Rede

Esta direção do Vitória SC procura resultados para o ‘hoje’, não criando condições para tal. António Miguel Cardoso vai para o nono técnico desde que assumiu a presidência do histórico (Pepa, Moreno, Paulo Turra, Álvaro Pacheco, Rui Borges, Daniel Sousa, Luís Freire e Luís Pinto) e a tendência é seguir esta onda de despedimentos, o que faz inclusivamente que o clube deixe de ser atraente para alguns técnicos. A ‘chicotada psicológica’ por norma traz efeitos positivos, mas apenas e só nos primeiros tempos, caso não sejam dadas as melhores condições às equipas técnicas. Ainda que a decisão de mudar de deixar sair Luís Pinto já tivesse sido tomada, não seria melhor concretizá-la em maio, de maneira a que o seu sucessor pudesse preparar a temporada com calma?

O próximo treinador deverá ser Gil Lameiras, que está a brilhar na equipa B do Vitória SC, colocando o escalão secundário na órbita de um regresso à Segunda Liga. Não será esta promoção um ‘presente envenenado’? O técnico de 32 anos estava perto de entrar na história, ao mesmo tempo que se desenvolvia com tempo e longe dos holofotes, conseguindo que alguns jogadores fossem promovidos por Luís Pinto. Ao ser colocado na equipa principal, pode ter dado um salto para o qual não estava preparado, correndo o sério risco de estagnar e até mesmo entrar na lista de despedimentos provocados por esta estrutura, numa fase em que tinha o seu lugar seguro nos B’s. O próprio Vitória SC B pode sair a perder com esta mudança de técnico. Se o futuro timoneiro não se entrosar bem ou provocar alterações relativamente importantes, poderá levar a que o plantel deixe de render o que estava a mostrar até ao momento, falhando uma promoção que seria fundamental para o crescimento da instituição.

Luís Pinto sai do D. Afonso Henriques com uma reputação sólida e mais um troféu no palmarés. Cada vez mais se normaliza o despedimento de treinadores no Vitória SC, o que faz com que o luso não perca mercado e certamente tenha abordagens num futuro recente. Ainda que não seja um nome ainda com o nível para ser associado a Benfica, Sporting ou FC Porto, caberia em qualquer projeto da Primeira Liga, podendo mesmo ter as portas abertas para equipas interessantes no estrangeiro, longe de mercados secundários. É um dos treinadores da moda, com um discurso sedutor e convincente. Luís Pinto é claramente um homem de projeto, que gosta de impor as suas ideias e com resultados no seu histórico. Apesar do seu despedimento, continua a ser o homem ideal para o Vitória SC, por muito que a direção não o veja da mesma forma.

Tony Strata Vitória SC
Fonte: Paulo Ladeira/Bola na Rede

Os adeptos tampouco reagiram bem a uma saída inesperada, de um técnico que lhes trouxe a alegria de encher as ruas da cidade de Guimarães para celebrar a conquista de um troféu praticamente 13 anos depois da vitória na final da Taça de Portugal. Não se espera uma boa receção à direção no próximo encontro no D. Afonso Henriques, recinto capaz de criar o melhor dos ambientes, mas também o mais infernal.

O Vitória SC tem tudo para afirmar-se como um clube capaz de lutar pelo acesso às competições europeias todos os anos, com todas as possibilidades de se destacar nas provas continentais. O despedimento de Luís Pinto é o reflexo da grande falha da estrutura nos últimos anos: a falta de paciência, associada a uma visão exclusiva ao curto prazo, quando os vimaranenses têm todas as capacidades de ir mais além do que isso. António Miguel Cardoso tem nas suas mãos uma instituição como poucas em Portugal, mas insiste no top 5, quando a equipa não tem condições para tal em 2025/26. Resta saber se tal teimosia não lhe vai causar a manutenção no cargo, provocando o próprio mais uma revolução no D. Afonso Henriques.

Diogo Sousa no Vitória SC
Fonte: Paulo Ladeira/Bola na Rede

Ricardo João Lopes
Ricardo João Lopeshttp://www.bolanarede.pt
O Ricardo João Lopes realizou a sua formação na área da História, mas é um apaixonado pelo desporto (especialmente pelo futebol) desde criança, procurando estar sempre a par da atualidade.

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