Roberto Martínez refletiu sobre a convocatória para os jogos de preparação para o Mundial 2026.
Após anunciar a última convocatória da Seleção Nacional antes do Mundial 2026, Roberto Martínez refletiu sobre as suas escolhas. Portugal vai realizar dois encontros de preparação em Atlanta, frente ao México, às 2h do dia 29 de março, e diante dos EUA, às 00h de 1 de abril.
O selecionador nacional começou por lamentar a morte de Silvino e falar sobre o estágio do final de março:
«Antes de mais, gostaria de lamentar a perda de uma figura do futebol português. Deixo aqui os meus sentimentos à família e amigos do Silvino. Este estágio é a última oportunidade para experimentar, o último estágio antes da convocatória do Mundial. Temos dois jogos interessantes, adversários diferentes, da CONCACAF. Vamos trabalhar muito o protocolo, a mudança de horário, a altitude… É o mais importante trabalhar. Para assim podermos dar o que os jogadores, individualmente, precisam para chegar ao Mundial nas melhores condições. Temos o Nelson Semedo, outros jogadores que medicamente não estão aptos. É um estágio para um gestão física e oportunidade. Temos jogadores novos, que podem trazer qualquer coisa diferente, e agora temos uma oportunidade para criar a melhor equipa para o Mundial».
De seguida, justificou as escolhas de Mateus Fernandes e Ricardo Horta, afastando também as conversas sobre a continuidade no cargo:
«O que o Mateus está a fazer é incrível. Todos sabemos o seu percurso, mas o que fez no espaço dos sub-21 é muito importante para nós agora. Poder experimentar o que ele pode fazer. A sua energia, polivalência… Merece a chamada. O Ricardo Horta é um jogador que acompanhei e que conhecemos bem. É um jogador inteligente, experiente, com uma decisão no último terço muito importante. E está num grande momento de forma. Vi o seu último jogo. Marcar dois golos, ser importante… O papel que tem dentro do clube merece a chamada. Em relação ao contrato… Já respondi e não há mais nada a acrescentar. Mas não gosto que tenham dúvidas e vou repetir: estamos alinhados na Federação e o foco é o Mundial. Não é uma questão de querer ou não querer, não é um tema em cima da mesa. Agora estamos focados no Mundial e vamos dar tudo por isso. O Mundial não pode esperar, a situação do selecionador pode».
Abordou ainda a convocação de Rodrigo Mora e os perfis de avançados, sem Cristiano Ronaldo:
«Tenho um sorriso porque falar do Rodrigo Mora é uma felicidade. É um jogador diferente, com uma qualidade muito especial em espaços curtos. Tem um exame médico hoje e estamos à espera das notícias. É um jogador que conhecemos bem, já fez parte da equipa que ganhou a Liga das Nações. Adorei o seu dia-a-dia, o que traz à Seleção. Mas também o que fez nos sub-21. Foi um período importante, o descer aos sub-21, reagir a uma época difícil onde cresceu muito. A maturidade é um ponto forte agora e acho que merece. Na segunda-feira saberemos se o Rodrigo está ou não apto. O Gonçalo Guedes tem um perfil polivalente, importante para nós. É um jogador com nove golos esta época, num momento muito muito bom. É um avançado diferenciador, um jogador que, para nós, é muito interessante. Já disse que para o Mundial a posição de ponta-de-lança pertence ao Cristiano e ao Gonçalo Ramos, e estamos à procura de um avançado com um perfil diferente. E ele está num momento em que merece a chamada. Estamos muito entusiasmados com o que poderá trazer à Seleção nestes particulares».
Explicou o porquê de ter deixado outros avançados fora da convocatória:
«É uma questão de perfil. O Pablo ainda não tem os documentos para ser chamado, mas os restantes jogadores acompanhámos de muito perto e é uma questão de espaço. O Diogo Jota era um avançado muito importante e polivalente para nós, e precisamos de um avançado que possa substituir isso. Respeitamos muito o Paulinho e acompanhamos o que está a fazer, mas tem um perfil semelhante ao do Gonçalo Ramos e do Cristiano. Precisamos de priorizar outras valências e, nesta convocatória, é por isso que o Gonçalo Guedes e o Gonçalo Ramos são os dois avançados».
Roberto Martínez falou ainda sobre a tensão política e militar das últimas semanas, deixando também uma mensagem aos jogadores que não foram incluídos:
«Em relação à segunda pergunta, precisamos de estar focados no que podemos controlar e trabalhar. É uma situação instável para todos nós, mas o futebol ajuda a trazer felicidade. Vamos tentar preparar os jogos e dar felicidade ao nosso povo. Quem não está convocado pode sonhar. A porta da Seleção está sempre aberta. É difícil se um jogador não estiver no espaço da Seleção depois dos jogos de março poder entrar, mas podem. A equipa técnica trabalha sempre a esperar o inesperado. Tudo pode acontecer. Agora estamos com um bom número de jogadores que já estiveram no convívio da Liga das Nações, na fase de apuramento para o Mundial, e há uma competitividade importante que dá para escolher bem a lista. Mas fechar a porta no futebol é impossível».
Descreveu a importância de um estágio nos Estados Unidos antes do Mundial 2026, apesar das queixas que os clubes possam ter:
«Não é só agora, é uma situação onde o compromisso e a exigência do futebol são difíceis de gerir. Eu treinei na Premier League e não gostava quando os jogadores iam à seleção. É uma realidade. Mas enquanto selecionador, sei que o momento mais importante para um jogador é vestir a camisola do país e poder estar no Mundial. A nossa responsabilidade é preparar o Mundial. A questão das viagens, das trocas de horários, de treinar na altitude, dos protocolos de tempestades. Março é o período perfeito para podermos poupar tempo em junho. E os clubes também acham que é importante dar descanso aos jogadores, haver o ‘poder’ de parar a época e depois relançar a preparação. As conversas com clubes e treinadores são positivas. É uma situação difícil, mas todos temos a responsabilidade de ajudar o jogador. Os jogadores adoram jogar pelo clube, mas jogar pela Seleção é um orgulho. Já jogámos na Arménia, na Hungria… São coisas que fazem parte da vida do jogador internacional. Estamos entusiasmados com tudo o que vamos viver e jogar no Estádio Azteca, na altitude, os treinos, os dias depois do jogo do México… Será muito importante para a preparação. Fico muito satisfeito pelo esforço que fizemos enquanto Federação, de ter dois particulares em países onde o Mundial vai acontecer».
Relativamente às ausências de Cristiano Ronaldo e Bernardo Silva, o selecionador garantiu que o capitão estará em condições para o Mundial:
«Não, não está em risco. É uma lesão leve, muscular e que nós achamos que pode voltar em uma ou duas semanas. Tudo aquilo que o Cristiano fez fisicamente durante esta época mostra que está num momento ótimo. Em relação ao Bernardo Silva, é uma decisão técnica baseada na informação médica baseada pelo clube do jogador. E aproveitar para experimentar com jogadores novos. Já disse que este estágio é para isso, a altura para experimentar e poder chamar à Seleção jogadores que também merecem. Mas para isso precisamos do espaço dos jogadores que falou…».
Voltou a reforçar a gestão física que terá de ser feita durante o estágio:
«O nosso processo é muito rigoroso. Agora temos o estágio de março e é preciso gerir o aspeto físico e médico dos jogadores. O Rúben Dias, o Nelson Semedo… São dois jogadores importantes e que não estão aptos. Mas é uma oportunidade. O difícil para o jogador é ser chamado, o fácil é mostrar o que pode fazer no espaço da Seleção, utilizar essa experiência em dois jogos particulares muito importantes para termos mais informação. E, claro, tentar utilizar o máximo de substituições. Estamos à procura de uma resposta da FIFA, mas acho que poderemos fazer mais de seis substituições. Isso faz parte de criar a competitividade para os jogadores e poder tomar decisões para construir a melhor equipa para ir ao Mundial».
Sobre a logística da deslocação para o México, referiu:
«Acho que há muito barulho e muitas instituições gostam de utilizar o futebol para as suas agendas. No Azteca há jogo, não há dúvida. Estamos a preparar o jogo com três dias de treino ao nível do mar. A ideia é treinar a equipa, adaptar à mudança horária a nível do mar e chegar à altitude no dia do jogo. É um aspeto científico e temos três dias de trabalho no México antes do jogo. Depois temos a oportunidade de ir a Atlanta. É um estádio fechado com as mesmas condições de relva e temperatura do que vamos defrontar nos dois primeiros jogos, em Houston. A nossa preparação é muito focada na adaptação do corpo, poder ter um bom desempenho em altitude e, depois, tudo aquilo que seja jogar num estádio fechado com uma relva como em Houston. Também os protocolos de ‘cooling breaks’ estarão introduzidos e tudo isso faz parte do foco e objetivos dentro do estágio. Não há plano B, não precisamos de plano B e está tudo bem tratado».
Reforçou a importância dos jovens na Seleção:
«Os jogadores jovens são muito importantes, mas não agora. Já a chegada do Pedro Neto foi uma surpresa, do João Neves, a estreia do Gonçalo Inácio… Os jogadores jovens são muito importantes. O equilíbrio com os mais experientes é também muito importante. O papel dos jovens está na ligação com aquilo que os mais experientes fazem no balneário. Os nossos jogadores mais experientes são importante para abrir as portas aos jovens e é por isso que já temos alguns muito importantes. Também trabalhamos com os sub-21 como primeiro passo. O talento jovem é muito importante para a Seleção».
Questionado sobre a falta de lateral-esquerdo e ponta-de-lança de raiz, o selecionador respondeu:
«O importante é ter um grupo de jogadores com polivalência. A posição de lateral-esquerdo é uma posição que um jogador com pé direito consegue fazê-lo. O Nuno Mendes é lateral-esquerdo e o João Cancelo está a jogar lá numa das melhores equipas do mundo. Para nós, as duas posições estão bem preenchidas com Diogo Dalot, Matheus Nunes, João Cancelo e Nuno Mendes. Não é uma questão de ter jogadores com uma posição no seu clube que seja de um ou outro nome. Temos 20 posições na Seleção e trabalhámos nisso. O sistema tática é diferente com bola e sem bola e tem mais a ver com o jogador do que com a posição. Mas esta é uma reflexão que já fizemos em novembro. O que acontece num torneio… Há situações em que os jogadores precisam de ser polivalentes e precisamos de ter todas as posições cobertas».
Elencou as diferenças do México e EUA relativamente aos adversários habituais de Portugal e falou sobre a escolha de Samu Costa:
«Adversários muito diferentes. Não são europeus. Treinadores que trabalharam muito na Europa, mas diferentes. A CONCACAF é uma competição diferente. Os Estados Unidos venceram o Uruguai num desempenho fantástico, um jogo posicional, com cinco atacantes. Têm capacidades físicas muito importantes. Jogos que, para nós, vão ser bons para trabalhar um adversário com uma pressão alta e transição rápida. México é forte em casa. Para nós, poder jogar em altitude, contra uma equipa que conhece as condições, tem um apoio incrível… São jogos em que podemos construir e criar muita informação para o Mundial. Samu Costa? É um jogador que já conhecemos. A sua impressão foi muito boa. Mas acho que mudou. Queremos utilizar uma nova posição e no clube desempenha uma função muito dinâmica. E tem a ver com a energia. A exigência deste Mundial vai ser a energia do dia-a-dia. É um Mundial muito complexo e acho que a energia dele pode ser muito importante. São jogadores muito novos. Ele, o Rodrigo Mora, o Mateus Fernandes… Podem ser muito importantes».
Em resposta ao Bola na Rede, explicou o que pretende explorar taticamente nos dois encontros de preparação:
«É uma boa oportunidade para defrontar equipas que têm muita personalidade, que gostam de situações de um contra um em todo o campo. Podemos experimentar muito a nossa saída, a construção. A pressão de México e Estados Unidos é ao homem, com muita intensidade. Aspetos que podemos experimentar bem. Taticamente não vou revelar mais porque seria muito fácil para o adversário, mas são aspetos que equipas da CONCACAF podem apresentar durante o jogo».
Por fim, falou sobre a exclusão de Raphael Guerreiro:
«Há situações em que precisamos de respeitar os jogadores. Os jogadores têm momentos nas suas carreiras que a Seleção precisa de ouvir. Pediu para ficar de fora na Liga das Nações e, portanto, é um jogador que não está nas nossas listas”».

