«A Liga Romena pode abrir-me portas para chegar a países e ligas ainda melhores» – Entrevista Bola na Rede a Diogo Ramalho

De Barcelos ao futebol romeno, Diogo Ramalho está a viver a sua primeira experiência fora de portas. Entre as memórias da sua formação, com Francisco Trincão e Francisco Moura, e a afirmação em clubes de Segunda Liga e Liga 3 ao lado de Paulinho e Hélder Barbosa, o médio português falou em exclusivo ao Bola na Rede sobre a sua temporada no Farul, da Roménia e sobre o seu futuro.

«Acho que nem em Portugal estive numa academia tão boa como esta, porque é realmente muito boa e tem muito investimento».

Diogo Ramalho
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Diogo Ramalho
Fonte: Arquivo Pessoal Diogo Ramalho

Bola na Rede: Diogo, olá, como foi a adaptação ao futebol romeno, visto que é a primeira vez que estás a jogar fora de Portugal e como surgiu esta oportunidade de te juntares ao Farul?

Diogo Ramalho: A adaptação foi melhor do que eu esperava, tinha só uma pequena questão sobre a barreira linguística, mas depois consegui ultrapassá-la em pouco tempo. A nível futebolístico, sinto que aqui os jogos são mais físicos na Roméni. Eles começam a pré-época um pouco mais cedo e obrigam-nos a ter uma preparação física um pouco maior do que tinha em Portugal. A oportunidade surgiu através do meu empresário, eles apresentaram-me a proposta do Farul, as pessoas gostaram e o próprio dono do clube, o Hagi, gostou e graças a deus tudo se concretizou.

Bola na Rede: Barcelos e Constanta [onde joga o Farul] são realidades diferentes. O que mais te surpreendeu na tua chegada, tanto na vida quotidiana como na organização do clube?

Diogo Ramalho: Constanta é uma cidade diferente, tem a praia aqui ao lado. Eu também não conhecia a Roménia antes de vir para cá e quando cheguei fiquei bastante surpreendido, porque é uma cidade bem desenvolvida, tem boas infraestruturas, principalmente no clube que tem uma das maiores academias que já vi. Acho que nem em Portugal estive numa academia tão boa como esta, porque é realmente muito boa e tem muito investimento, é tudo feito de última geração e tratam-nos extremamente bem.

Bola na Rede: Na temporada passada viveste a melhor época em termos de números, no Sporting da Covilhã, com oito golos. Este ano levas 31 jogos e um golo. Como avalias a tua afirmação até agora no Farul?

Diogo Ramalho: O ano passado tinha um pouco mais de liberdade em campo, conseguia aparecer em zonas mais ofensivas, jogava a número 8 ou a número 10 e tinha mais essa liberdade. Este ano fui intercalando mais entre a posição de 8 e 6, a maioria das vezes até joguei a 6. O campeonato é um pouco mais exigente e é um pouco mais difícil manter os números da época passada [risos], mas também estou no meu primeiro ano e espero que na próxima época consiga elevar esses números.

Bola na Rede: Como foi a sensação de marcar um golo importante contra o Dinamo Bucareste passado 5 minutos de entrar em campo? Foi esse o momento em que sentiu que estava verdadeiramente adaptado?

Diogo Ramalho: Foi uma sensação incrível. O estádio estava com um ambiente incrível. Salvo erro, estávamos a jogar na Arena Nacional, que é onde joga a seleção romena, um estádio extremamente bonito. Estávamos a perder por 1-0 e o mister disse-me «Entra, eu confio em ti, faz aquilo que tens feito até agora», e graças a Deus consegui e foi uma explosão de alegria muito grande. Em relação à segunda questão, eu acho que me adaptei bastante rápido, confesso que quando cheguei estava com algumas duvidas nos primeiros treinos, porque via que a equipa tinha muita qualidade, bastantes jogadores da seleção romena e que ia ser difícil para mim, porque aqui a intensidade é mais alta, mas depois consoante fomos fazendo os jogos de pré-época, os jogos correram bem, ganhei logo o lugar de inicio, depois passou também para o campeonato e acho que logo nos primeiros jogos da época, consegui-me adaptar à nova realidade.

«O Trincão sempre foi um jogador diferenciado, via-se a fome que ele tinha, quando errava, ficava chateado consigo próprio».

Diogo Ramalho
Diogo Ramalho
Fonte: Arquivo Pessoal Diogo Ramalho

Bola na Rede: Pegando agora na questão do plantel ser maioritariamente composto por romenos, começaste a época com o André Seruca e o Fabinho, mas eles acabaram por sair e neste momento és o único português no Farul. Foi difícil lidar com a saída deles, ou já te sentes em casa no clube?

Diogo Ramalho: Sim, respondendo à segunda pergunta, já me sinto em casa, já compreendo bastante bem a língua romena, também o facto de conseguir falar francês, espanhol e inglês, porque provém do latim, assim como a língua romena, ajudou-me muito. Em relação ao Fabinho, foi das pessoas que mais me ajudou quando cheguei ao Farul, porque ele já conhecia a realidade do país e do clube, depois acabou por não ter tanto espaço na equipa e foi emprestado e aconteceu o mesmo com o André Seruca. No que toca à nossa relação fico triste porque eram duas pessoas que eu gostava de ter ao meu lado, mas fico feliz porque foram para outros projetos e estão a ter mais minutos.

Bola na Rede: Passando agora à sua formação, passaste pelo Braga, onde jogaste com o Francisco Trincão. Já se percebia na altura que ele ia chegar ao nível de hoje? Que memórias guardas desse tempo no Minho?

Diogo Ramalho: Guardo muitas memórias, fiz bastantes amizades nessa época, se calhar a amizade que ainda levo nos dias de hoje é o Francisco Moura, também joguei com o Trincão e acho que já se via algo diferentes nos dois, até porque o clube já tinha um investimento diferente para eles, acreditavam muito neles. O Trincão sempre foi um jogador diferenciado, via-se a fome que ele tinha, quando errava, ficava chateado consigo próprio, queria sempre fazer melhor e é como é hoje, pega na bola vai para cima sem medo.

Bola na Rede: Neste seu percurso em Portugal, qual sente que foi o jogador que mais o tenha marcado ou ensinado, talvez Paulinho no Gil Vicente…?

Diogo Ramalho: Sim, também apanhei o Paulinho no Gil Vicente, na época eu era júnior e tinha sido convocado para a Segunda Liga e cheguei a privar um pouco com ele. Nessa altura o Paulinho já era um jogador diferenciado, mas para mim o jogador que me marcou mais foi o Helder Barbosa. Joguei com ele no Varzim e marcou-me por toda a personalidade que ele tinha, de já ter jogado onde jogou, FC Porto, Braga, nas competições que jogou e pelos métodos de trabalho dele. O Helder já chegou numa fase em fim de carreira e mesmo assim era um jogador que jogava todos os jogos no Varzim, mas eu olhava para ele, jogando ou não jogando, tinha sempre a mesma fome, o mesmo profissionalismo.

«gosto de sair da minha zona de conforto, porque acho que é aí que vem a maturidade como jogador e mais adversidades que nos permitem crescer».

Diogo Ramalho
Diogo Ramalho e Helder Barbosa
Fonte: Arquivo Pessoal Diogo Ramalho

Bola na Rede: Olhando para o seu currículo, vemos que passou por vários clubes históricos em Portugal, quase sempre por uma só época. Esta mudança constante foi uma escolha sua para procurar novos desafios ou sente que o futebol português, por vezes, não dá o tempo necessário para um jogador se afirmar e chegar patamares como a Primeira Liga?

Diogo Ramalho: Nunca tive problema com isso, porque gosto de sair da minha zona de conforto, porque acho que é aí que vem a maturidade como jogador e mais adversidades que nos permitem crescer, mas também percebo que seja difícil para esses clubes darem contratos de mais anos aos jogadores, porque por norma o que oferecem nessas divisões, é contratos de um ano, dois anos no máximo e no meu caso sempre me ofereceram contratos de um ano e essa foi a razão pela qual mudei sempre.

Bola na Rede: Qual o clube que mais o marcou em Portugal?

Diogo Ramalho: A nível individual, sem dúvida o Sporting da Covilhã, pela questão dos números, pela questão da confiança que as pessoas depositavam em mim, de chegar ao clube e no primeiro ano ser capitão. O facto de também ter mudado de cidade, ter vivido lá e ter sido muito acarinhado e bem recebido, por isso, acredito que tenha sido o Sporting da Covilhã.

«Sinceramente, eu gostava de continuar fora de Portugal».

Diogo Ramalho
Diogo Ramalho
Fonte: Arquivo Pessoal Diogo Ramalho

Bola na Rede: Em relação à sua passagem pelo Leça, foi treinado por Luís Pinto, como vê o trabalho do técnico e a que patamares achas que ele pode chegar ?

Diogo Ramalho: Não vou pôr patamares, porque acho que o mister pode chegar ao topo, até onde quiser. Já quando tive oportunidade de trabalhar com ele no Leça, dava para ver que tinha uma ambição e um foco, que era fora do normal. Tinha métodos de trabalho incríveis e via-se que não estava contente no nível onde estava. Fico feliz por estar a conseguir subir tantos degraus na carreira. É um treinador jovem com muita ambição e merece tudo o que está a alcançar.

Bola na Rede: Voltando ao Farul, acabaram a 1.º fase em 11.º no campeonato e agora estão na fase de manutenção. Qual é o objetivo principal tanto do grupo como a nível pessoal para este final de época?

Diogo Ramalho: Uma equipa como o Farul deve sempre lutar pelos lugares cimeiros, já antes o tentámos na fase anterior, queríamos ter ficado nos seis primeiros. Agora vamos tentar lutar pelo topo da fase de manutenção, até porque pode dar acesso a competições europeias, neste caso à Conference League. Sabemos que não é fácil, o campeonato é muito competitivo, estamos a pensar jogo a jogo para conseguirmos o nosso objetivo.

Bola na Rede: Diogo, aos 26 anos, sente que este é apenas o primeiro passo na Europa ou o objetivo passa por um eventual regresso a Portugal?

Diogo Ramalho: Sinceramente, eu gostava de continuar fora de Portugal, porque agora que vim para a Roménia, abri a minha mentalidade de outra forma, já consigo ver mais coisas, que se calhar não conseguia ver quando estava no meu país, por isso gostaria de continuar a fazer a minha carreira fora de Portugal.

Bola na Rede: Diogo, para fecharmos, com esta experiência internacional no currículo e depois de tantos desafios em Portugal, qual é o grande sonho que ainda tens por realizar no futebol? E que mensagem deixas para um jovem que esteja agora no Campeonato de Portugal ou na Liga 3 e que, tal como tu, sonha com um palco europeu?

Diogo Ramalho: A minha ambição é poder chegar a países e ligas ainda melhores porque acho que o facto de ter vindo para a primeira liga romena, pode-me abrir portas para isso. Pensei que fosse impossível estar aqui hoje, vindo de uma Liga 3, por isso acredito que não há impossíveis. Era um passo que para mim era impensável e acredito que isto é só o começo. A mensagem que eu tenho para os jovens que ainda estão no Campeonato de Portugal e tenho o meu irmão em casa que também está no Campeonato de Portugal, a trilhar o seu caminho que é parecido com o meu, é que não desistam porque os campeonatos portugueses são muito bem vistos tanto fora do país como dentro e estão sempre a um passo de estarem perto de uma nova oportunidade, basta não desistirem porque assim é certo que não chegam lá, agora se tentarem, pode ser que dê certo.

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