Há regressos que são apenas jogos. E há regressos que são histórias. O de Viktor Gyokeres a Alvalade é claramente o segundo. Durante duas épocas, o avançado sueco não foi apenas mais um jogador do Sporting, foi o rosto de uma equipa, o símbolo de uma ideia, a garantia de golos e de momentos decisivos. Números monstruosos (97 golos em 102 jogos), impacto imediato, numa relação quase inevitável com o golo.
Gyokeres não passou por Alvalade. Marcou Alvalade. Conseguiu colocar em ponto de ebulição por diversas vezes as hostes leoninas, inclusive repetindo o gesto simbólico e único com que celebra os seus golos, como se fosse uma espécie de super-herói.
E é precisamente por isso que o seu regresso não pode ser visto como apenas mais um jogo. A saída para o Arsenal não foi totalmente linear, e as “formas” com que saiu da equipa verde e branca, são tão discutíveis quanto questionáveis.


É inadmissível que se tenha recusado a apresentar-se no início dos trabalhos de pré-época da equipa leonina (por maiores promessas que Frederico Varandas lhe houvesse feito anteriormente), e imagens suas enquanto desfrutava das suas férias em Maiorca, não caíram nada bem junto dos adeptos do Sporting.
No futebol como na vida, passa-se de bestial a besta, e de herói a vilão num ápice. Sim, era legítimo que Gyokeres quisesse abraçar um novo projecto e ir para uma equipa com outras ambições, mas a maneira como o fez deixou muito a desejar, e por isso é mais do que expectável que lhe seja reservada uma receção hostil num estádio em que dantes o seu nome e a sua presença eram motivos de um ruído ensurdecedor e entusiasta.
Entre expectativas elevadas, adaptação exigente a um contexto competitivo muito mais feroz nos ingleses do Arsenal, o sueco encontrou um cenário bem diferente daquele que dominava em Portugal.
Os números, inevitavelmente, desceram. O impacto, também. E com isso vieram as críticas. Num clube onde o rendimento é medido ao detalhe e a paciência é curta (a equipa londrina não ganha a Premier League há mais de 20 anos e despendeu mais de 60 milhões de euros na contratação do avançado sueco), Gyokeres deixou de ser o avançado imparável para passar a ser mais um nome num sistema que nem sempre o potenciou.
Mas o futebol, como sempre, tem memória curta, e momentos que mudam tudo. E Gyokeres chega a Alvalade num desses momentos. Herói recente da seleção sueca, com quatro golos decisivos nos play-offs de apuramento para o Mundial, volta a Portugal num pico de forma individual que contrasta com a fase coletiva do Arsenal.
Um Arsenal que perdeu gás. Dominado pelo Manchester City na final da Taça da Liga. Eliminado pelo Southampton FC (sendo que o golo da equipa inglesa foi da autoria de Gyökeres), uma equipa da Championship, nos quartos-de-final da FA Cup. A equipa de Arteta chega com dúvidas. Gyökeres chega com confiança.
Do outro lado está um Sporting que, entretanto, seguiu em frente. E fê-lo à sua maneira. A reviravolta contra o FK Bodø/Glim na eliminatória anterior, depois de um 3-0 sofrido na Noruega, diz muito mais do que apenas o resultado. Diz caráter, diz crença, diz que a equipa que já não depende de um único nome.
E entretanto, surgiu outro nome que também decidiu derrubar a porta de uma maneira categórica e sem pedir licença: Luis Suárez.
O avançado colombiano chegou sem o peso de substituir Gyokeres. Mas rapidamente fez esquecer a ausência. Uma época de estreia de enorme nível (mais de 30 golos entre todas as competições), presença constante na área, capacidade de decisão e, sobretudo, a sensação de que o Sporting voltou a encontrar um avançado capaz de definir jogos.
E é aqui que o jogo ganha outra dimensão. Já não é apenas o regresso de Gyokeres. É um duelo. Gyokeres vs Suárez. Passado vs presente. Memória vs realidade.
De um lado, um avançado que deixou marca profunda, mas que ainda procura afirmar-se num contexto mais complexo. Do outro, um jogador que chegou depois, e que, em poucos meses, construiu o seu próprio espaço.
Há uma ironia silenciosa neste jogo. Gyokeres regressa como figura central de um passado recente… mas pode encontrar um Sporting que já não precisa dele. E talvez seja isso que torna este regresso tão interessante.
Porque, no futebol, o tempo não pára. No fim, o jogo vai decidir muito mais do que um resultado. Vai dizer-nos onde está Gyokeres hoje. Vai confirmar o momento de Suárez. E, acima de tudo, vai mostrar se o passado ainda pesa… ou se o presente já tomou conta de tudo.

