Olhar tático ao FC Porto x Tondela: A mobilidade de Rony Lopes, o papel dos extremos e os ajustes de Francesco Farioli e Gonçalo Feio

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O FC Porto deu um passo muito importante na conquista do título ao vencer o Tondela por 2-0 no Estádio do Dragão. Os azuis e brancos entraram em campo depois do dérbi, já a saber da derrota do Sporting frente ao Benfica e cientes de que um triunfo frente à equipa beirã poderia colocar os dragões na rota do título.

No encontro referente à 30.ª jornada da Primeira Liga, esperava-se um Tondela personalizado, tendo em conta as ideias de jogo de Gonçalo Feio que foram implementadas nos últimos dois jogos frente ao Vitória SC e ao Gil Vicente. Com a equipa beirã numa situação difícil e a precisar de pontos, o técnico português implementou vários apontamentos táticos para contrariar a equipa de Francesco Farioli, que tiveram efeito, principalmente na primeira parte.

Em relação à organização defensiva, o Tondela pressionou alto na saída de bola do FC Porto, sendo que os dois extremos tondelenses tinham a função de pressionar de fora para dentro para obrigar o central do FC Porto do seu lado a jogar com o pé não dominante, mas também o próprio Diogo Costa – tendo em conta a sua capacidade no jogo com bola e ser um elemento importante na construção. Essa pressão surgiu por parte de Yan Maranhão a Jakub Kiwior e de Ouattara a Jan Bednarek, com Rodrigo Conceição a ter a função de pressionar o lateral esquerdo Zaidu.

Oskar Porto
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Ainda em relação à organização defensiva, quando o FC Porto passava essa primeira fase de construção ou recuperava a bola, o Tondela já adotava um bloco médio/baixo em 5-2-3, para não ficar exposto à profundidade dos extremos Oskar Pietuszewski e Pepê. Ainda assim, o FC Porto foi tendo espaço para iniciar alguns ataques rápidos na primeira parte, no momento em que a equipa do Tondela estava balanceada na frente, mas faltou uma melhor definição dos lances na frente de ataque.

Com bola, o Tondela também apresentou dinâmicas, sobretudo no papel encarregue a Rony Lopes, que tinha uma dupla função. Se, sem bola, era o jogador mais centrado da linha de 3 na primeira fase de pressão, quando a equipa tinha bola descia no terreno para ser uma espécie de terceiro médio. Com esta dinâmica e com o Tondela a ter muita gente baixa no terreno para construir (guarda-redes + os 5 defesas + os 2 médios), obrigava vários jogadores do FC Porto a estarem mais altos para pressionar, tendo em conta a identidade da equipa. Assim sendo, com Rony Lopes a baixar, acabava por ser mais um elemento para ajudar na primeira fase de construção da equipa, mas também tinha o papel de atrair a marcação de Alan Varela.

Com essa atração, o objetivo do Tondela passaria por distanciar a linha média/defensiva da ofensiva e colocar os dois extremos da equipa, Ouattara e Yan Maranhão, como jogadores mais adiantados para possíveis transições. Nesse sentido, e com a equipa do FC Porto alta no terreno, na primeira parte Jan Bednarek e Jakub Kiwior ficaram em igualdade numérica com os dois extremos (2×2), onde os tondelenses foram criando algum perigo no ataque ao espaço. Surgiu daí um lance perigoso que deu o amarelo a Kiwior na primeira parte.

Francesco Farioli FC Porto
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Outra das dinâmicas interessantes, pela mobilidade e imprevisibilidade que podia oferecer (apesar da dificuldade diante de um FC Porto a jogar no Estádio do Dragão), foram as movimentações de Rodrigo Conceição. No momento de organização ofensiva, o ala do Tondela poderia surgir como elemento surpresa para atacar a última linha do FC Porto. Com Rony Lopes a baixar, o FC Porto perdia a referência, mas mantinha-se confortável, tendo em conta a posição muito baixa que o jogador assumia em determinados momentos do jogo (muito distante das zonas mais ofensivas). Deste modo, seria importante usar estas movimentações interiores de Rodrigo Conceição, com diagonais, não só para dar largura a Ouattara, mas também para servir como opção válida no ataque ao espaço.

O FC Porto foi-se ajustando ao longo da primeira parte, tendo também algumas oportunidades de perigo, onde, ao contrário dos últimos jogos, se evidenciou mais Pepê, através de combinações no lado direito, do que propriamente a irreverência de Oskar Pietuszewski. Ainda assim, ambos tiveram espaço para criar oportunidades e, tendo em conta um corredor central muito congestionado, teria mesmo de ser pelos corredores laterais que a equipa do FC Porto poderia criar mais perigo.

Os dragões dispuseram da melhor oportunidade da primeira parte com a grande penalidade de Alan Varela, que acabou defendida por Bernardo, levando o jogo a zeros para o intervalo. Na segunda parte, Francesco Farioli fez duas substituições ao intervalo, onde tirou Kiwior e Rodrigo Mora, colocando Pablo Rosário e Gabri Veiga. A realidade é que o efeito dessas substituições não demorou muito a notar-se. O FC Porto precisava de médios interiores com maior capacidade de pisar a área e chegar a zonas de finalização, seja para aparecerem em possíveis cruzamentos ou com movimentos de trás para a frente. Dessa forma, Gabri Veiga correspondeu e acabou por inaugurar o marcador ao minuto 47, depois de um bom trabalho de Deniz Gul.

Golo Gabri Veiga FC Porto
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Outra das boas dinâmicas foi a entrada de Pablo Rosário para central, que acabou por ver o jogo de frente e dar o critério necessário ao FC Porto para progredir entre setores através do passe vertical. Pelo preço que custou e pela utilidade que oferece em várias posições, o jogador da República Dominicana tem de entrar na montra das melhores contratações dos dragões nesta temporada.

Outro ajuste tático bem pensado por Francesco Farioli prendeu-se com a igualdade numérica entre os centrais do FC Porto e os dois extremos do Tondela. Para evitar possíveis situações de exposição, Alberto Costa baixou mais no terreno e passou também a vigiar os movimentos do extremo esquerdo, Ouattara, permitindo ao FC Porto ganhar vantagem numérica nesse momento (3×2). Com maior capacidade no último terço ofensivo na segunda parte, os dragões dilataram a vantagem ao minuto 66’, com Victor Froholdt a aparecer mais subido para fazer o segundo golo do jogo, dissipando as dúvidas no resultado.

O FC Porto chegou aos 79 pontos na Primeira Liga e deu um passo fulcral na conquista do título de campeão nacional, após uma exibição em que a equipa nunca se mostrou nervosa. Esse é mais um aspeto a valorizar no trabalho de Francesco Farioli, sobretudo ao nível da componente mental dos jogadores.

Já o Tondela merece destaque pela coragem de Gonçalo Feio, que referiu na conferência de imprensa que queria uma equipa protagonista, algo que se verificou em alguns momentos no Estádio do Dragão. Apesar da posição delicada na Primeira Liga, acredito que a equipa beirã tenha tomado uma excelente decisão ao contratar o técnico, claramente um treinador moderno, com ideias e uma filosofia de jogo interessante. Resta perceber o caminho para a próxima temporada de ambas as partes, independentemente do destino do Tondela, seja na Primeira ou na Segunda Liga.

Rodrigo Lima

Gonçalo Feio Tondela
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

BnR na Conferência de Imprensa

Bola na Rede: O Tondela apresentou-se com um falso avançado e com os dois extremos mais adiantados para atacar a profundidade. Pergunto-lhe como tentou ajustar a equipa para travar essas transições, tendo em conta que, por vezes, Jan Bednarek e Jakub Kiwior ficavam numa situação de 2×2 com os dois extremos do Tondela?

Francesco Farioli: Análise correta, como sempre (risos). O Tondela veio cá jogar com um plano muito claro, que passava por colocar dois jogadores muito rápidos contra os nossos dois centrais. Sobretudo na primeira parte, chegámos um pouco atrasados e o Tondela acabou por criar algumas oportunidades, ou um momentum que lhes ajudou a criar algum perigo. Nessa fase, acho que o plano foi muito bem preparado pelo treinador adversário, mas depois começámos a trabalhar melhor com bola, sobretudo na segunda parte. Tivemos uma maior progressão e uma maior rapidez com bola para jogar mais no meio-campo adversário, com maior controlo e clareza na forma como queríamos progredir no relvado. Os 90 minutos foram muito positivos. Acho que foi uma boa batalha tática e demorou um pouco para desbloquear o jogo, mas conseguimos fazê-lo no início da segunda parte.

Bola na Rede: A equipa mostrou-se muito personalizada sobretudo na primeira parte, com e sem bola. Pergunto-lhe o que pretendeu com o papel de Rony Lopes a baixar quando a equipa tinha bola? E por outro lado, que funções desempenharam os extremos, nomeadamente o Yan Maranhão e Ouatarra, no momento em que a equipa ganhava bola, mas também no processo defensivo.

Gonçalo Feio: Pergunta complexa, vou tentar ser rápido. Hoje optámos por um sistema com três centrais puros. Não é a primeira vez que defendemos com três centrais, até porque no último jogo, no momento defensivo, estivemos com três centrais. Mas, pelas características do jogo, no momento com bola, o facto de construirmos com uma linha de 5 + guarda-redes sobre a pressão do Porto obrigava muita gente do Porto a vir pressionar a nossa primeira linha, porque a maneira que eles pressionam é muito ligada ao duelo e ao homem a homem. A partir daí, com os nossos médios baixos nas costas da primeira linha deles, sabíamos que íamos atrair dois médios deles e ficávamos com 3×3 na primeira linha baixa de pressão, porque sabíamos que o momento dominante do jogo do Porto, sem bola, ia ser a pressão alta. O FC Porto não ia baixar o bloco para defender, porque é a identidade da equipa. Aí, utilizando nas costas dos dois médios, o Rony com liberdade para dar linhas de passe, podiam acontecer duas coisas: ou passávamos a ter superioridade por dentro ou, na primeira linha, ficávamos num 2×2 — os nossos extremos, com velocidade e rutura, contra os dois homens que eles deixavam mais baixos, que dependia do momento. Às vezes eram os dois centrais, outras vezes ficava um dos laterais e os dois centrais, e aí a superioridade estava por dentro. Num desses lances, chamámos a equipa do Porto a vir pressionar alto e conseguimos transportar a bola com qualidade. Daí veio aquele lance que, com uma melhor decisão, poderia ter dado uma ocasião de golo — o lance que deu o amarelo ao Kiwior. Em relação ao papel defensivo dos extremos, acho que foi por aí que sofremos um pouco na primeira parte. A nossa segunda linha de 4 ou 5 jogadores — porque às vezes o Rony fazia parte — poderia ter fechado um pouco melhor os espaços interiores. O facto de não o termos feito tão bem na primeira parte resultou, especialmente do lado esquerdo, porque tanto o Bryan como o Rodrigo tinham de estar muito por dentro, pois sentiam que a bola poderia entrar naquele espaço facilmente. Chegávamos atrasados às zonas laterais porque não podíamos bascular, já que estavam demasiado focados nessas referências. Tentámos corrigir na segunda parte. Infelizmente, o FC Porto usou o Deniz Gul muito melhor e os dois golos surgem daí. São dois golos diferentes, mas que doem, porque tínhamos o bloco baixo e, no primeiro golo, deveríamos ter fechado muito melhor o espaço interior. Um dos jogadores que poderia ter feito isso foi o extremo, para a bola não entrar entre linhas. Depois, somos uma equipa e um golo nunca vem de um erro individual, é sempre uma ação coletiva. Poderíamos ter feito coisas melhores, seja não deixar rodar, seja na cobertura por dentro, seja no acompanhar do movimento para o Gabri não aparecer ali sozinho. Não o fizemos e acabámos por sofrer. No segundo golo, foi o Porto a encontrar novamente o Deniz e aí acho que os extremos já não estão tão envolvidos, porque o lateral era o que saltava ao homem de fora. Deveríamos ter fechado essa linha de passe, para o posicionamento dos médios ser mais diagonal, e poderíamos ter reagido um pouco melhor. Também tivemos o momento defensivo em pressão, onde os extremos iam mais por dentro. Era muito importante não deixar o Kiwior abrir-se para o pé esquerdo, porque é um playmaker. Era muito importante o trabalho do extremo direito. Queríamos forçar o Diogo Costa também a decidir rápido com o pé esquerdo, queríamos que tivesse dificuldades, apesar de ser também um playmaker na baliza. Depois, tivemos algumas dificuldades nas referências, não de pressão, mas de empurrar o bloco do Porto — tanto na primeira parte como na segunda, mas por motivos diferentes. Na segunda parte, o Alberto baixou muito mais, o que fez com que o nosso extremo tivesse muitas dúvidas em pressionar o Bednarek ou o Thiago Silva. Era um espaço muito grande para o nosso lateral chegar, estruturalmente. Apesar de tudo, houve bons momentos da nossa parte, com e sem bola, e um crescimento que esta equipa tem vindo a ter, tanto a nível de confiança como de processos. Jogámos contra uma equipa muito forte, causaram-nos problemas, mas também nos fizeram crescer.

Rodrigo Lima
Rodrigo Limahttp://www.bolanarede.pt
Rodrigo é licenciado em Ciências da Comunicação e está a frequentar o mestrado em Gestão do Desporto. Trabalha na área do jornalismo desportivo, com particular interesse pela análise de futebol.

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