Quatro anos depois, novamente na 30.ª jornada da Primeira Liga, o Benfica voltou a ser feliz em Alvalade. Tal como em 2022, o Sporting fica praticamente fora da luta pelo título e as águias precisarão de um cenário perfeito para chegar a um segundo lugar que, desta feita, vale Champions League. Numa altura em que todos falam de justiça no resultado, procurando perceber se a vitória encarnada e a derrota leonina entram nos preâmbulos da lei do futebol como correspondendo aos desfechos da qualidade exibicional no retângulo, a verdadeira justiça andará algures pelo meio. Tanto Benfica como Sporting poderiam facilmente ter ganho e, se o jogo terminasse aos 90, teriam empatado. Quando assim é, mais do que pensar no resultado, é preciso olhar para o jogo na ávida procura pelos porquês.
Se no lado leonino não houve surpresas, nem sequer novidades, nas escolhas de Rui Borges, que replicou o onze que, a meio da semana, se bateu no Emirates, uma alteração efetuada por José Mourinho deu a tónica da postura do Benfica para o jogo. A entrada de Franjo Ivanovic para o lugar de Vangelis Pavlidis garantia às águias maior capacidade para jogar longe da baliza adversária e explorar a profundidade. Também a alteração no meio-campo, com a aposta em três médios declarados, permitia às águias maior controlo do espaço interior, aquele onde mais o Sporting se destaca face aos demais e que traduz as principais valências do Sporting em organização ofensiva.


Quando o Benfica procurou subir linhas e pressionar mais alto, houve encaixes individuais bem claros. Com algumas exceções, compreendendo todas as circunstâncias e imprevisibilidades que o futebol tem, havia um encaixe bastante claro dos médios encarnados nos médios leoninos. Leandro Barreiro procurava controlar a entrada da bola em Morten Hjulmand, defendendo à frente do dinamarquês e reduzindo uma das opções de passe para os centrais leoninos; a maior distância, Richard Ríos procurava dividir-se entre o espaço entrelinhas, evitando aparecimentos de Pedro Gonçalves por dentro, e a marcação a Hidemasa Morita; Fredrik Aursnes, aí com um acompanhamento mais declarado, pegava em Francisco Trincão para impedir as associações do internacional português com os colegas.
Em bloco baixo, como o Benfica acabou por, inevitavelmente, passar mais tempo, o posicionamento dos médios era diferente, como José Mourinho, de resto, explicou no final do jogo. Richard Ríos e Fredrik Aursnes procuravam defender perto dos defesas do Benfica e, muitas vezes, entre os próprios defesas. O objetivo era controlar os movimentos de Pedro Gonçalves, Francisco Trincão e, eventualmente, dos médios (nomeadamente Hidemasa Morita) à profundidade, evitando situações de inferioridade numérica na área. Controlar as dinâmicas do Sporting entrelinhas e em corredor central foi o principal foco do Benfica que tinha também Leandro Barreiro, mais avançado, a procurar cortar linhas de passe e evitar que o Sporting acercasse em demasia a área encarnada.


Num cômputo geral, o Benfica fez um jogo muito competente. Não há, na exibição encarnada, nenhum jogador que tenha feito um mau jogo ou que tenha comprometido a equipa. Houve exibições mais impactantes – Anatoliy Trubin pelo penálti, Fredrik Aursnes pela forma como cumpriu o seu papel, Andreas Schjelderup pelo golo e pela capacidade de oferecer saídas – mas a equipa raramente destoou. Há também um mérito na forma como José Mourinho operou a tripla troca no ataque, percebendo o espaço que, inevitavelmente, surgiria depois do empate.
A profundidade no plantel encarnado numa fase sem onda de lesões explica que, num jogo desta envergadura, José Mourinho tenha conseguido lançar Rafa Silva, Dodi Lukebakio e Vangelis Pavlidis num contexto onde conseguiram impacto fácil. A mudança do perfil do ponta de lança permitiu às encarnadas mudar a ameaça: se antes era Ivanovic a atacar o espaço, enquadrado pelos extremos, a ordem inverteu-se e passaram a ser os jogadores do corredor a ameaçar após enquadrados pelo ponta de lança. Rafa Silva marcou um golo, Dodi Lukebakio deu outro a marcar e teve uma entrada impositiva.


Não é o jogador mais consistente nas suas ações, mas tem um perfil que, em certos cenários, pode ser valioso para os encarnados. É fácil olhar para o belga e pensar no menor compromisso defensivo ou na quantidade de lances que, com outra definição, poderiam ter melhor resolução. Ainda assim, a capacidade de puxar para si o protagonismo, de encarar adversários no 1×1 e de, no contexto certo, provocar desconforto sobre os defesas, oferece mais-valias nos cenários certos, como o dérbi de Alvalade mostrou.
Quanto ao Sporting, também poderia facilmente ter saído do Dérbi com três pontos. Bastaria António Silva não ter sido perspicaz o suficiente para colocar Rafael Nel em fora de jogo e a reviravolta teria sido consumada. Ainda assim, a maior diferença face aos encarnados, passou pelo jogo abaixo de alguns dos protagonistas. Eduardo Quaresma, desta feita, não conseguiu ser determinante defensivamente, tendo sido o norueguês a assumir maior protagonismo e ofensivamente não foi capaz de trazer grandes mais-valias suportando Geny Catamo. Também Luis Suárez, numa fase de menor fulgor físico e protagonismo, não conseguiu dar suporte a vários lances e fez um jogo de menor sequência técnica.


Ainda assim, há melhorias claras do Sporting da primeira para a segunda parte. Se na primeira, fazer a bola chegar a Geny Catamo e esperar do moçambicano algum tipo de definição, foi a principal arma dos leões, que ficaram também condicionados emocionalmente com a dureza do penálti falhado e do golo sofrido, a segunda etapa trouxe maior variabilidade ao jogo leonino, desde logo pelo crescimento do corredor esquerdo.
Pedro Gonçalves, sem fazer um jogo deslumbrante – e com uma eficácia distante dos seus jogos áureos – foi capaz de oferecer maior ameaça ao jogo, Maxi Araújo chegou à linha de fundo por mais vezes e, principalmente, Hidemasa Morita ofereceu maior chegada ao jogo do Sporting. Ao crescimento dos leões, refletido na perfeição no golo do empate, ajudou a entrada de Zeno Debast e Georgios Vagiannidis, aumentando a ameaça exterior. Juntar Debast e Gonçalo Inácio diante de um bloco baixo é uma mais-valia competitiva que poucas equipas em Portugal têm à sua disposição para desmontar defesas adversárias.


O maior trunfo do Sporting estava nas costas de Amar Dedic. Se em Geny Catamo há uma certa autossuficiência e consciência de que o moçambicano conseguirá, quase sempre, ganhar um cruzamento ou um remate a partir da direita para dentro, a verdade é que não pode ser coincidência que o espaço no segundo poste, quer nas costas de Amar Dedic, quer entre o bósnio e Tomás Araújo, tenha sido o mais explorado pelo Sporting. Quando José Mourinho admitiu ter pensado em lançar Alexander Bah para funcionar como defesa direito e libertar Amar Dedic para o encaixe com Maxi Araújo, reduzindo as situações de inferioridade na área na resposta a cruzamentos.
O golo do Sporting resulta, precisamente, da capacidade de explorar este espaço, com Hidemasa Morita a aparecer nas costas de Amar Dedic para atacar a bola de cabeça. Será fácil bater no bósnio que, naturalmente, não é um lateral de perfil defensivo, mas a tendência é clara e a insuficiência é, acima de tudo coletiva. Num jogo de futebol, é impossível estar em todos os lados da mesma forma e com a mesma precisão. Cabe aos treinadores fazer escolhas e, desta feita, foi José Mourinho a sorrir. Se a luta pelo título está muito perto de estar definida, a luta pelo segundo lugar voltou a ficar perfeitamente reaberta.


BnR na Conferência de Imprensa
Bola na Rede: O Benfica geralmente aposta numa marcação zonal. Hoje reforça o meio-campo com o Barreiro, o Aursnes e o Ríos com referências posicionais muito claras, embora nem sempre a perseguir os jogadores do Sporting. O que pretendia com a aposta neste meio-campo e estrategicamente, para lidar com os médios e o Trincão no Sporting?
José Mourinho: Há duas coisas distintas, uma é a pressão alta e a outra é baixar o bloco. Com bloco baixo, o que queríamos fazer com o Ríos e o Aursnes era controlar o jogo entrelinhas quando aparece o Pote e o Trincão, mas também acompanhar os movimentos em profundidade que o Sporting faz melhor do que ninguém. O Sporting tem 4,5,6 jogadores que atacam a profundidade e eu queria que os nossos médios controlassem esses movimentos profundos. Para o fazer, precisava de um outro médio que, quando o bloco baixava e esses jogadores saiam na profundidade, me fechasse a zona central de maneira a que, quando o bloco estivesse baixo, estivéssemos sempre compactos. O Rafa e o Sudakov são dois “dezes” – desculpa lá a bacurada – que não o fazem por natureza. Fazem pressão na frente, mas não controlam o que está por trás. O Barreiro faz. Foi assim, a jogar naquela posição, que foi crescendo no início da minha chegada e sabia que o ia fazer muito bem. Mesmo empatado, não quis mexer na organização, mas sim nos três da frente. Acho que é aí que conseguimos virar o domínio do Sporting, ao inverter o papel do atacante. Em vez de ser um atacante para atacar profundidade, é um atacante de baixar e dois alas. Correu bem, podia ter corrido mal, mas correu bem.
Infelizmente, não nos foi concedida a possibilidade de colocar uma questão a Rui Borges.

