«Gostava de treinar em Portugal, mas sou um treinador do mundo, não olho a países» – Entrevista Bola na Rede a David Patrício

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David Patrício falou em exclusivo com o Bola na Rede sobre a sua experiência internacional, futebol feminino e o futuro em Portugal.

Bola na Rede: David Patrício, obrigado pelo tempo. Passou por vários clubes de Lisboa, pelo Estoril, mas a sua carreira passa maioritariamente pelo futebol asiático. Sentiu que esse é que teria de ser o caminho para crescer enquanto treinador?

David Patrício: A verdade é que, durante os 15 anos em que trabalhei na formação em Portugal, passei por vários clubes. Passei por clubes históricos, como o Clube Futebol Benfica ou o Palmense, mas tive a oportunidade de iniciar logo a minha carreira no Sport Lisboa e Benfica. Fiz o meu processo formativo, estive lá durante três anos, numa escola também de treinadores de excelência. Depois, ainda cá, tive a possibilidade de, no emblemático Sintrense, estrear-me como treinador principal de séniores, na antiga 3.ª Divisão Nacional. Portanto, aqui em Portugal foi um período de preparação longo, um período a partir pedra, a crescer, com momentos de aprendizagem muito importantes. Depois, o início na carreira profissional foi no Estoril e, neste momento, já levo oito anos disto. A questão de ir para o estrangeiro não foi tanto sentir que precisava de sair. Ou seja, gosto muito do nosso país e, estando fora, como já estive na China e na Arábia Saudita, tens aquela sensação de que, cada vez mais, o teu país é espetacular. Esse é o meu sentimento. Até agora ainda não se proporcionou a possibilidade de trabalhar cá como treinador principal, mas a ida para a China foi algo que me ajudou a crescer muito, tanto do ponto de vista profissional como pessoal. A Arábia Saudita também, mas a China foi um período mais prolongado, onde tive a oportunidade de crescer e de consolidar a minha componente técnica enquanto treinador. Foi na China que tive a oportunidade de passar por várias fases, desde treinador-adjunto, acumulando funções com um coordenador técnico – que foi assim que comecei – até ser promovido a treinador principal numa equipa que acabava de subir à Superliga Chinesa e garantir a manutenção nesse ano. Foi algo fantástico e muito enriquecedor. A verdade é que a possibilidade de começar como treinador principal surgiu na China, mas foi algo que aconteceu por mero acaso. Não procurei ir para a China para conseguir fazê-lo. Enquanto estive cá em Portugal, na formação e mesmo na experiência que tive em séniores, o meu foco foi sempre ser treinador principal. Passei por algumas experiências como treinador-adjunto porque entendi que eram importantes e que se proporcionaram ao longo do trajeto, também para ganhar outras perspetivas e acrescentar coisas à ideia que fui construindo.

Bola na Rede: Quais são as maiores diferenças entre o futebol português e os contextos internacionais em que trabalhou?

David Patrício: Se estivermos a falar da parte técnico-tática, na China tive desafios enormes. Estamos a falar de treinadores de topo, que passaram pelas principais ligas europeias e de jogadores como o Óscar ou o Fellaini. Portanto, do ponto de vista técnico-tático e estratégico, foi muito bom, foi muito desafiante. Foi algo levado ao extremo e que me ajudou a crescer imenso. Da mesma forma que aconteceu agora na Arábia Saudita. Mesmo sendo uma primeira liga, estamos a falar de ligas emergentes. Estamos a falar de investimentos que não são novidade para ninguém, mas também com jogadores e treinadores de topo. As diferenças estão mais na parte organizativa, mais na maturação em termos de cultura de futebol. Por exemplo, a China é um país que já estava mais à frente do que a Arábia Saudita, porque entrei já numa fase em que tinham feito um investimento muito grande e já havia muito interesse pelo futebol, sempre com estádios cheios. Eu cheguei a um clube na segunda liga chinesa que tinha acabado de subir, com o objetivo de se manter, e à minha chegada tínhamos 12 mil espectadores no estádio. Depois, chegar à Superliga… claro, clubes grandes com 30, 40 mil pessoas no estádio. O meu clube, que acabava de subir, teve uma média de 15, 16 mil espectadores e chegámos a ter 22 mil. Portanto, nesse aspeto, a forma como o povo chinês vivia o futebol é algo um pouco diferente de Portugal, porque aqui acompanhamos a Primeira Liga, os estádios das grandes equipas estão normalmente muito cheios, mas depois as equipas da segunda metade da tabela ou da Segunda Liga não têm tanta gente. Do ponto de vista do jogo em si, há alguns desafios, porque aqui temos uma cultura de futebol, os jogadores gostam de ver futebol, têm interesse, especialmente na minha geração. Nas novas gerações isso já é um pouco diferente, os jogadores não têm tanto esse vínculo de ver futebol fora do treino e do jogo. Na China, em algumas situações, os jogadores viam aquilo como trabalho. Ou seja, o futebol para eles era trabalho. E então estimulá-los a criar ambientes coletivos, dar-lhes esse espírito de equipa e um ambiente familiar dentro da equipa – que para mim é tão importante -, sendo uma equipa mais modesta, foi algo desafiante. Em Portugal o futebol é cultura. Lá estavam ainda a começar. Do ponto de vista dos adeptos, havia interesse, mas aqui em Portugal qualquer pessoa fala de futebol. É um tema muito presente, toda a gente quer comentar, o homem do talho, o homem do pão, como costumo dizer. Lá na China, ganhasses ou perdesses, reconhecendo que a equipa deu tudo, no final tinhas sempre multidões para te receber, para te apoiar e dar esse carinho. Em relação aos países, tanto a China como a Arábia Saudita têm dimensões continentais. Na China cheguei a viajar mais de sete horas para ir fazer um jogo. Comparando-os, a China é mais desenvolvida em termos tecnológicos, com mais facilidades para viajar – comboios de alta velocidade, muitos aeroportos – o que minimiza um pouco o impacto. Na Arábia Saudita temos um país em desenvolvimento, com muito potencial, mas que ainda não tem infraestruturas tão preparadas. Em relação ao jogo e aos jogadores, a grande diferença entre os jogadores sauditas e os chineses, no meu entendimento, é que o jogador saudita ainda está naquele estado mais «puro». São jogadores que jogam de forma mais espontânea, como os miúdos na rua que agarram numa bola e começam a jogar. O que vi foi uma grande abertura por parte dos jogadores para adquirir processos e tomar decisões. Essa é uma grande diferença: a tomada de decisão entre uns e outros. Esse lado mais «instintivo» facilita, e consegues levá-los por outros caminhos mais rapidamente. Na China, por uma questão cultural – estamos a falar de um país com 1,4 mil milhões de pessoas, com muitas regras – há alguma dificuldade na tomada de decisão. Consegui fazê-lo também, mas no tempo em que estive na Arábia Saudita, que foi menor, consegui implementar processos de jogo e fazer assimilar ideias de forma mais rápida. Relativamente à comparação com Portugal, nós somos um país de futebol, isso é inegável. Somos uma das melhores escolas do mundo, senão a melhor, tanto em termos de jogadores como de treinadores. O nosso país, quando comparado com outros, na minha opinião, está sempre alguns passos à frente. Mas estamos a falar de contextos competitivos muito elevados e desafiantes, porque também enfrentei os melhores, quer portugueses, quer estrangeiros.

David Patrício - Arábia
Fonte: Al Anwar

Bola na Rede: O futebol asiático continua a ser pouco acompanhado em Portugal. Que ideias erradas sente que existem sobre essa realidade?

David Patrício: Quando fui para a China, as primeiras reações foram: «Eh, vais para a China?» As pessoas aqui veem a China como a «loja dos chineses», ou seja, há uma generalização. A China não é a loja dos chineses. Eu costumo dizer, em jeito de brincadeira, que o que vem para a loja dos chineses em Portugal é aquilo que eles não querem na China. Portanto, estamos a falar de um país que, em termos estruturais, organizacionais e tecnológicos, no geral, está muito à frente de nós, também por ser uma das potências mundiais. Em termos de futebol, houve ali aquele boom até 2019, que foi o ano em que eu cheguei, em que passaram por lá jogadores e treinadores de topo. Tivemos Fabio Capello, Fabio Cannavaro, os jogadores que já referi, treinadores portugueses como Vítor Pereira ou André Villas-Boas, que agora é presidente do FC Porto, e muitos mais. Nesse período, recordo-me de que os jogos ainda eram transmitidos cá. Nesse momento de boom, com estes grandes nomes, é claro que os meios de comunicação social deram cobertura, porque toda a gente quer ver esses jogadores e treinadores. Depois, quando começou a estagnar, ou quando houve aquele período de desinvestimento e algumas polémicas relacionadas com corrupção, creio que isso fez com que se perdesse novamente o interesse. Neste momento, especialmente após o Covid, o país está a estabilizar, há limites que antes não existiam e creio que o futebol chinês está a entrar numa fase de estabilidade e consolidação. Mas esses escândalos não ajudaram a dar continuidade ao que estava a ser construído, houve um retrocesso. E agora, não havendo nomes tão sonantes como anteriormente, acredito que isso afaste um pouco o interesse europeu pela liga chinesa, porque o futebol em si, com treinadores de renome e muitos desafios estratégicos, é interessante. Mas depois há regras e quotas para jogadores locais. O jogador chinês é muito trabalhador, agressivo e intenso, mas não tem a mesma virtuosidade de um português ou brasileiro, por exemplo. Tanto que, muitas vezes, os jogadores estrangeiros que vão para a liga chinesa são aqueles que conseguem fazer a diferença individualmente, mais do que pela ideia coletiva. Estamos a falar de extremos, avançados, centrais e médios com capacidade de liderança e de tomada de decisão, que é algo que ainda lhes falta.

Bola na Rede: Trabalhar fora implica uma adaptação cultural. Qual foi o maior desafio neste processo, dentro e fora de campo?

David Patrício: Enquanto pessoas, enquanto profissionais, é preciso ter muita resiliência, muita paciência e uma grande capacidade de adaptação, e o treinador português é conhecido por isso. Dentro de campo, o maior desafio para mim é a comunicação. Enquanto treinador profissional, ainda não tive a oportunidade de trabalhar na minha língua materna, nem de poder ser eu a falar diretamente com os jogadores, quer seja em inglês, quer seja em espanhol, idiomas com que me sinto confortável. Então, o facto de ter sempre um interlocutor pelo meio para falar com os jogadores é algo muito desafiante, porque primeiro tens de criar uma relação de confiança muito grande com o tradutor, que é a pessoa que faz essa ponte com os jogadores e com a administração também, o que é fundamental. E isso é algo que, ao início, tem um impacto grande. Apesar da China ser um país muito desenvolvido e virado para o mundo, nas zonas como Beijing e Xangai, algumas pessoas falam inglês e percebem. Mas depois, quando vais para as zonas onde tens os centros de treino dos clubes, não tens muita gente a falar e a perceber inglês. Portanto, este é um desafio grande. Tentar aprender algumas palavras-chave em chinês, quer para o treino, quer para a vida diária, é muito importante. Depois, no dia-a-dia, um dos principais desafios é que, por exemplo, a China, como é do conhecimento público, tem aquilo a que eles chamam de «firewall»: não tens acesso às redes sociais diretamente. Tudo aquilo a que tens acesso no telemóvel está em chinês. Ler chinês requer aprendizagem, requer ir para uma escola e estar anos a aprender. E eu, pela forma intensa como levo o meu trabalho e não tendo naquele momento ainda uma equipa técnica multidisciplinar que me pudesse complementar, não tinha grande disponibilidade. Portanto, não tive a oportunidade de aprender a língua. Fui aprendendo palavras-chave, coisas importantes para o meu trabalho e para o meu dia-a-dia, mas estabelecer uma conversa e poder comunicar diretamente foi de todo impossível. O desafio é este: tentar comunicar com as pessoas, mas tudo se resolve com o telemóvel na mão.  Quando cheguei, o clube onde eu estava tinha acabado de subir da terceira para a segunda divisão e ainda não estavam muito habituados a lidar com estrangeiros. As pessoas olhavam para mim como se tivesse aterrado de uma nave espacial e viesse de outro planeta. Às vezes nem sabiam que eu era treinador, era só por ser estrangeiro, por ser diferente, eles não são muito intrusivos. Os chineses ão curiosos, são pessoas afáveis, receberam-nos muito bem. Do ponto de vista do treino e do jogo, o jogador chinês, tem esta questão cultural de ser muito seguidor de regras e cumpridor de standards. Um exercício que aqui eu conseguiria pôr a funcionar normalmente com uma equipa do Estoril da segunda divisão profissional em Portugal ou com jovens sub-19, para eles é logo um choque. Estão habituados a «daqui passas para ali, daqui passas para ali», ou seja, tudo muito padronizado. Dar-lhes esta capacidade de autonomia e de tomar decisão, fez com que eu tivesse de evoluir também nesse sentido, naquele contexto específico, na criação de exercícios. Não alterei a minha metodologia nem a minha ideia, mas tive de adaptar para conseguir que eles chegassem onde era suposto chegar. E isto tem a ver com o facto de eles não terem esta cultura, esta base. Estamos a falar de jogadores que, alguns deles, chegavam ao futebol profissional sem terem uma formação de seis ou sete anos, como é tão normal aqui em Portugal. A questão de criar rotinas: entrar no clube de manhã, tomar o pequeno-almoço em conjunto, chegar a horas, ter um bom descanso, uma boa nutrição… na China é tudo muito à base de noodles e molhos e, por vezes, tive de apertar para melhorar esse aspeto. Depois, a própria adaptação à alimentação: não passei fome, há comida muito boa e comida de que gostamos, mas para o dia-a-dia, claro que é um choque ao início. Mas tudo se supera com muita facilidade, especialmente quando andamos atrásdaquilo de que gostamos, fazemos o que gostamos e vamos atrás dos nossos objetivos.

Bola na Rede: Como é que define a sua identidade como treinador e que princípios é que considera inegociáveis nas suas equipas?

David Patrício: Do ponto de vista ofensivo, gosto de controlar, tentar comandar o jogo com bola. Privilegio o jogo posicional, a criação de superioridades em todo o campo. Durante este processo de ataque, de organização ofensiva, procuro manter sempre a equipa bem equilibrada. No momento da perda da bola, uma equipa muito agressiva, com reação à perda, aquele modo de «caça» para a recuperar logo e, se não for possível, matar a jogada. Caso não o consigamos fazer, somos fortes na transição defensiva, com uma forte reorganização nesse momento. Do ponto de vista da organização defensiva, as minhas equipas jogam sempre num bloco alto, compactas, com iniciativa para pressionar o adversário, criação de zonas de pressão, tentar sufocar o adversário, não deixar que tenha muito tempo a bola e estar habituado a lidar com os 30-40 metros nas costas. Foi também um desafio muito grande neste contexto, porque a mentalidade ali era muito numérica. Ou seja, defender com cinco e com uma linha baixa, com mais gente à frente da baliza, para defender melhor. E eu vinha com uma ideia completamente diferente: defender longe da baliza, ter mais gente com perfil para ajudar na ideia de jogo ofensivo, que tanto privilegio. Depois, na transição ofensiva, somos sempre uma equipa muito agressiva, a tentar sair da zona de pressão, atacar espaços, movimentos de rutura, atacar a profundidade e tentar aproveitar os momentos de desequilíbrio do adversário. Criatividade na bola parada, inovação, tentar ganhar sempre as primeiras bolas nas zonas definidas, com bloqueios e tudo mais, é algo que me define. Na parte defensiva, fizemos também um trabalho muito importante de concentração e organização, porque eles tinham uma lógica muito de homem a homem, não só no jogo corrido, mas também nas bolas paradas. E na minha equipa, por exemplo, tínhamos alguma limitação de estatura, tivemos de adaptar marcações de zona, algo que eu defendo: ter uma zona forte que nos garanta proteger a baliza e depois marcações individuais mais específicas. Houve todo este processo de implementação desta ideia e destes princípios inegociáveis, que ao início foi desafiante, especialmente enquanto estava nas funções de adjunto. Depois, como treinador principal, tendo mais autonomia e estando numa liga de topo, com muitos desafios estratégicos, fez com que os jogadores percebessem que o caminho era aquele e passassem a sentir-se confortáveis. Já nos batíamos contra equipas do top cinco com poderios completamente diferentes, queríamos ter a bola e conseguíamos. Explorávamos muito o jogo interior quando as equipas o permitiam. Quando começaram a conhecer-nos melhor e a fechar esses espaços centrais, tínhamos variabilidade: atrair, variar, usar o espaço exterior para depois atacar. Sempre muito agressivos no último terço, com muita gente dentro da área. Ataques em rutura, atacar o espaço, ameaçar profundidade… tudo isto faz parte da nossa identidade. Em termos de sistemas táticos, eles estavam muito fixos nisso, enquanto o treinador português entende o sistema como um ponto de partida dinâmico. Tínhamos como base ofensiva um 3-4-3, mas com várias adaptações. Dependendo da organização defensiva do adversário e das fragilidades identificadas, ajustávamos. Podíamos construir em 3 mais 2, projetar alas, baixar um médio para criar espaço interior, ou construir em 2 mais 3, com laterais por dentro e extremos por fora. A ideia geral é uma boa ocupação do espaço, com amplitude e profundidade, jogadores por dentro para o jogo interior, jogadores por fora para o jogo exterior e sempre uma equipa equilibrada por trás. Na parte defensiva, variávamos bastante. Às vezes defendíamos em 4-4-2, outras em 4-3-3 ou 4-1-4-1, dependendo do adversário. No início, os jogadores sentiam que estávamos a mudar muito, mas a base não mudava. Eram adaptações estratégicas. Podia desenvolver mais, mas o essencial é isto. Os princípios gerais estão lá, são claros e bem definidos, mas é preciso adaptá-los ao contexto e, mais importante do que tudo, aos jogadores. A ideia de jogo do treinador, na minha opinião, nunca se pode sobrepor aos recursos humanos que tem. Não se pode ser fundamentalista nem romântico ao ponto de querer implementar coisas que os jogadores não conseguem fazer.

Fonte: Arquivo Pessoal

Bola na Rede: Até que ponto adapta a sua ideia de jogo aos jogadores que tem disponíveis? Acredita que ainda há espaço para a criatividade individual?

David Patrício: A prioridade são os jogadores que tens à tua frente, são os perfis que tens disponíveis. Eu penso que isto é tão óbvio, tão lógico. De que adianta estares a criar uma ideia de, por exemplo, contra-ataque, quando não tens jogadores com perfil para jogar em contra-ataque? Eu tinha um diretor no clube na Arábia Saudita que me dizia: «Mister, aqui as transições é que funcionam, nós temos é de bater bola na frente e atacar». O avançado que tinham colocado à minha disposição era muito bom, tinha muito faro de golo na área, e criando uma ideia de jogo que suportasse e fizesse a bola lá chegar, fazia golos, mas tinha 40 anos. Não tinha já a capacidade para fazer esse tipo de jogo. O treinador tem a sua ideia de jogo, mas o modelo tem de ser adaptado com o que tem à disposição. E sim, sem dúvida que há espaço para a criatividade individual. O futebol vive de momento, vive daquele rasgo que decide um jogo. Por mais que haja rigor tático e que os jogadores sejam «bombardeados» com informação e estratégia, há muitos jogos contra equipas muito fechadas e que defendem muito bem em que se não tiver alguém que vá no um para um e consiga resolver, torna-se impossível desbloqueá-los. Portanto, sem dúvida alguma, sou apologista do treinador dar espaço ao jogador para decidir, sobretudo na minha ideia de jogo em que já apanhei linhas de sete a defender. Não é algo anárquico, é saber que dentro do plano, pode tomar as suas decisões e ter os seus momentos. Na China, aproveitei muito os estrangeiros que tinha para isso. Sabia que eles faziam a diferença e foi muito por aí que nos conseguimos superiorizar. Na minha ótica, não há discussão.

Bola na Rede: Que tendências do futebol moderno o entusiasmam? Há alguma com a qual não se identifica?

David Patrício: Sou um treinador que se identifica muito com as ideias do Pep Guardiola e, mais recentemente, também do Luis Enrique ou do Mikel Arteta. Portanto, gosto deste lado espetáculo do jogo, gosto de um futebol intenso, por exemplo, da intensidade que a liga inglesa coloca no jogo. O futebol está cada vez mais físico. Houve um momento em as equipas alemãs se começaram a superiorizar por essa vertente física, num passado relativamente recente, mas que, entretanto, já se esbateu um pouco, porque essas equipas que tinham um futebol mais posicional e apoiado também já integraram essa componente física. São equipas bastante agressivas do ponto de vista defensivo e muito fortes na transição. Gosto muito de ter a bola, mas quando a recupero, não é para a ter, o objetivo do jogo é marcar golo. Portanto, quando recuperas a bola, tens de procurar esse objetivo. Estas novas tendências – jogadores cada vez mais rápidos e cada vez mais físicos – são algo que eu acho que valoriza o jogo. E depois há também estas tentativas de alteração às regras, para aumentar o tempo útil de jogo e privilegiar o espetáculo, que para mim são fundamentais. Aquilo com que não me identifico tanto, embora reconheça a sua importância, é o tema do VAR. O VAR, por um lado, ajuda a trazer verdade desportiva e a corrigir decisões, mas por outro, quebra muito o ritmo do jogo. Desvirtua no sentido em que o jogo para. Alguns treinadores, eu incluído, aproveitam esses momentos para fazer ajustes, mas os tempos de jogo prolongam-se muito e não há um critério totalmente consistente. Vivi muito isso na China e na Arábia Saudita: dependendo do contexto do jogo, os tempos de compensação variavam bastante. Isso acaba por desvirtuar um pouco, não só pelas pausas, mas também pela falta de critério uniforme.

Bola na Rede: O David treinou a equipa feminina do Estoril em 2016/17. Como avalia o crescimento e a profissionalização do futebol feminino em Portugal?

David Patrício: Eu posso falar um pouco dentro daquilo que é o meu conhecimento superficial, porque para compreender um bocadinho o contexto, a minha passagem pelo futebol feminino deveu-se ao facto de estar a completar o estágio de treinador UEFA A. Para completar esse estágio, eram necessários jogadores de perfil internacional, havia um requisito nesse sentido. E eu, como estava a trabalhar em simultâneo, para cumpri-lo, só consegui encontrar a possibilidade de treinar ao final do dia no contexto do futebol feminino. Foi uma experiência muito positiva porque, para além das experiências no estrangeiro, treinar no futebol feminino obriga-te à adaptação também: adaptação na comunicação, na sensibilidade… são tudo grandes momentos de aprendizagem. Foi um ano também de grande crescimento, bateram-se recordes de atletas federadas. Houve, na altura, a maior assistência num jogo da seleção no mítico Estádio do Restelo. Mas de 2016 para cá, vejo um crescimento muito grande. Em termos de equipas profissionais, tínhamos o Braga, que estava a começar a afirmar-se, o Benfica ainda não tinha entrado e o Sporting como equipa de referência. Ainda era tudo muito embrionário e eu creio que esse ano foi como o início de uma nova era do futebol feminino, houve uma evolução das seleções e o aparecimento mais estruturado das camadas jovens com diferentes escalões. Antes o salto era muito grande, havia jogadoras de 14 ou 15 anos já a competir e a treinar com séniores. A partir daí, houve claramente um crescimento muito significativo. Em relação ao jogo, surpreendem pela positiva na parte técnica. Mas havia – e ainda há – um grande crescimento a fazer ao nível do conhecimento e entendimento do jogo, bem como na intensidade, que era mais baixa. Atualmente já é bem melhor, começamos a ver um nível muito mais competitivo. Recentemente tive a oportunidade de ver um jogo do Sporting com o Benfica. O meu treinador-adjunto no Nantong, o Ivan, é agora treinador principal do Benfica feminino, e como eu estava disponível, convidou-me. Fui assistir a um treino e a um jogo, e realmente as coisas estão noutro patamar. Vejo com muito otimismo o desenvolvimento do futebol feminino em Portugal. Vejo que a FPF está a investir nesse sentido, não apenas financeiramente, mas também em recursos humanos, infraestruturas e melhores condições. A entrada do FC Porto, que está a acontecer agora, e o crescimento do Benfica são sinais claros disso. Na altura, nenhum dos dois competia. Clubes como o Torreense ou o Damaiense mostram essa evolução. Portanto, naquilo que consigo perceber, o futuro augura coisas muito positivas, até porque os resultados também têm sido bons. Já estamos a competir com seleções de topo, algo que antes não acontecia, em que éramos muitas vezes goleados, e agora já conseguimos discutir jogos. Houve um crescimento grande e parece-me que ainda existe uma margem de progressão muito significativa, o que nos dá um otimismo grande a longo prazo.

Bola na Rede: O David foi também treinador-adjunto no Estoril. Que importância atribui à equipa técnica e como organiza o seu processo de treino?

David Patrício: É fundamental. Atualmente, com todas as áreas complementares que temos à disposição e todas as ferramentas de que um treinador pode tirar partido, é fundamental termos uma equipa técnica multidisciplinar. Enquanto adjunto no Estoril, o meu papel era de ligação com a equipa de sub-23. Na altura, com jogadores a chegarem como o Mateus Nunes, o António Marques ou o André Franco, entre outros, e depois na equipa principal também com bastantes jovens que nós tínhamos na equipa, o papel é sempre fundamental de complementação ao treinador. Se o treinador principal for alguém que confia e que tem a capacidade de delegar em ti tarefas, vais, sem dúvida nenhuma, ajudar a equipa a crescer. Quando estive na China, tive um desafio grande: havia a barreira linguística entre mim e o treinador principal, tenho de dizer isto porque é a realidade. Quando chegas enquanto treinador-adjunto com algum currículo e estatuto, há sempre aquele sentimento inicial de ameaça. Mas, quando o treinador percebe que não estás ali para tomar o lugar dele, mas sim para ajudar e complementar, as coisas fluem. Os meus papéis eram na parte da metodologia de treino: eu era o coordenador metodológico, era responsável pelas bolas paradas e ajudava também na análise do adversário, porque, no momento em que cheguei, a equipa técnica não era muito grande. Em relação ao período em que estive como treinador principal, não tive a oportunidade de ter uma equipa técnica completa como eu gostaria. Gosto de ter um treinador-adjunto responsável pelas bolas paradas e outro pela análise do adversário. Não gosto do analista tradicional, alguém que está apenas no gabinete a observar o adversário sem conhecer a nossa ideia de jogo ou a nossa forma de treinar. Preciso de pessoas multifuncionais, que entendam claramente o que queremos e consigam transformar essa informação em trabalho de campo. Na análise do adversário, é fundamental que quem analisa saiba qual é a estratégia que vamos adotar e como isso será aplicado no treino. Depois, um treinador de guarda-redes que consiga integrar o guarda-redes no modelo coletivo, não apenas alguém focado na técnica isolada. Sendo um treinador que privilegia uma ideia ofensiva, o guarda-redes tem de compreender o jogo e jogar bem com os pés. Mais do que isso, tem de saber identificar vantagens, resolver momentos de pressão e participar na construção desde trás. O treinador de guarda-redes também deve colaborar na análise do adversário e nas bolas paradas, sobretudo na organização defensiva. Depois, um adjunto responsável pela preparação física – mas não um preparador físico tradicional. Todos participam na construção dos exercícios e na definição estratégica. Gosto também de ter um recuperador físico, alguém de sports science presente no treino e um analista da própria equipa, que grave jogos (com câmara ou drone) e forneça feedback em tempo real. Essa pessoa, em dia de jogo, está na bancada, com uma perspetiva diferente, e comunica com o banco para acrescentar informação relevante. Isto seria o cenário ideal. Ainda não tive a oportunidade de trabalhar sempre com esta estrutura completa. Na China, adaptei-me, potenciando treinadores locais, algo que também fazia parte das minhas funções na coordenação técnica. Consegui identificar alguns elementos que poderiam acrescentar valor e integrá-los na equipa técnica quando estava na Superliga Chinesa como treinador principal. Já na Arábia Saudita, estive longe de conseguir isso, porque apenas consegui levar uma pessoa da minha confiança e os recursos disponíveis não permitiram estruturar a equipa como pretendia.

Fonte: Arquivo Pessoal

Bola na Rede: Quando chegou ao futebol chinês, era o treinador mais jovem da liga com 38 anos. Como construiu a sua autoridade dentro do balneário?

David Patrício: Não foi uma experiência nova. No Sintrense estreei-me como treinador de séniores com 25 anos. Por vezes cruzo-me com alguns jogadores com quem estive nesse ano e alguns nem sabiam a minha idade. «Ah, tu tinhas 25 anos?» Mas, basicamente, eu sou apologista do seguinte: a competência não tem idade. Tu ou és competente e és seguro das tuas ideias, ou não és. Claro que não podemos comparar o treinador David Patrício do Sintrense, com 25 anos, com o treinador da Superliga Chinesa, porque houve um processo formativo grande, houve muita aprendizagem e depois os desafios no Estoril, quando comecei no futebol profissional. Basicamente, aqui a importância esteve nos anos em que estive como treinador-adjunto, na coordenação e direção técnica. Os jogadores sabiam quem eu era, havia uma proximidade grande porque eu sou um treinador que privilegia muito as relações humanas, sem reduzir a exigência. Eles sabiam quem eu era e de onde vinha muito daquilo que era feito no treino e daquilo que era a estratégia. Os jogadores já sabiam o que eu representava dentro da equipa técnica enquanto adjunto. Essa transição, quando subimos da segunda para a Superliga, aconteceu de forma muito natural. Os jogadores já me viam numa posição de autoridade. O que mudou? Passei a ser eu a liderar todos os processos, passei a ser a voz de comando. E tenho a sensação de que isso até foi benéfico para mim. Não precisei de impor autoridade, porque eles já tinham respeito pelo trabalho que eu fazia enquanto adjunto. O facto de passar a treinador principal foi visto como algo positivo, porque perceberam que estávamos aptos e com mais autonomia para implementar novas ideias. O que levou também a direção do clube a fazer essa transição foi o facto de termos mais jogadores estrangeiros na equipa. Isto não tinha acontecido antes, porque havia muitos jogadores chineses e existia um pouco a ideia de que uma equipa de jogadores chineses deveria ser liderada por um treinador chinês. Em Portugal já temos treinadores com 32, 33, 34 anos a treinar na segunda liga e até na primeira liga, e isso é visto com naturalidade. Porquê? Porque já houve outros treinadores que fizeram esse caminho e demonstraram competência. Na China não. A idade é sinónimo de autoridade, a idade é um posto. E aparecer um treinador jovem, estrangeiro, vindo de Portugal, que começou no clube como adjunto e passa a principal, especialmente para a administração e para o presidente, era visto como um risco grande. Lembro-me que, dias antes de me anunciarem, fizeram um vídeo e uma reportagem sobre o Julian Nagelsmann, a explicar o caso de um treinador jovem na Alemanha. Para quê? Para preparar o contexto e evitar um choque quando fosse anunciado. Mas, do ponto de vista dos jogadores, a autoridade construiu-se acima de tudo pelo reconhecimento da competência, pela crença no trabalho que já vinha a ser feito e que depois se tornou mais visível quando passei a treinador principal. Sempre com exigência máxima. Houve desafios – por exemplo, passar os treinos para o período da manhã foi uma luta grande -, mas foram batalhas importantes para o crescimento da equipa. Não foram tudo rosas, longe disso. Mas foram essas «guerras» que nos ajudaram a crescer, a ser mais equipa e a ter melhor performance.

Bola na Rede: Como é que estas experiências fora de Portugal o moldaram enquanto pessoa?

David Patrício: Sou pai de família, vou fazer 25 anos que estou com a minha esposa. Tenho três filhos – apesar de ainda ser relativamente jovem. Ou seja, fui muito precoce em tudo. Comecei a treinar aos 17 anos e, simultaneamente, conheci a minha esposa. Para além da minha família nuclear, tenho também os meus pais e o meu irmão, entre outros. O mais difícil foi a distância. Isto não é algo que te molda diretamente, mas obriga-te a uma adaptação muito grande,pois estás muito longe. Quando cheguei à China, tive, pela primeira vez na minha vida, dois meses longe da minha esposa e dos meus filhos. O maior tempo que tinha estado afastado deles tinha sido durante o curso UEFA, em regime de internato, de segunda a sexta, regressando a casa ao fim de semana. Na primeira ida para a China, fui já consciente de que iria estar dois meses sozinho, para conhecer o contexto e criar condições. Depois desse período, eles juntaram-se a mim e viveram comigo. No entanto, durante a pandemia, houve fases diferentes: numa primeira fase estive em Portugal impedido de viajar, mas numa segunda fase estive cerca de um ano na China em ambiente de bolha. Estávamos fechados nas instalações e estive praticamente um ano longe da minha família. Foi extremamente desafiante. E o mesmo aconteceu na Arábia Saudita. Fui para um clube em crescimento, com uma equipa técnica muito limitada, e a forma como me entrego ao trabalho já é, por si só, muito intensa. Quando não tens os recursos necessários, isso exige ainda mais de ti. Houve dias em que ia a casa dormir quatro ou cinco horas – quando conseguia dormir -, porque havia sempre tarefas para resolver. Portanto, ficou claro para mim que não fazia sentido levar a minha família para um contexto desconhecido, ainda por cima com esta intensidade de trabalho. Mas isso nunca foi um fator limitador, o trabalho foi sempre desenvolvido com máxima competência e empenho. Ainda assim, não posso esconder que foi o aspeto que mais impacto teve. Quando falamos em «moldar», foi no sentido de perceber que havia coisas que eu achava que não seria capaz de fazer, mas pelas circunstâncias, fui obrigado a fazê-lo, consegui adaptar-me e superar.

Bola na Rede: Há alguma história de balneário engraçada que queira partilhar?

David Patrício: Há tantas. A primeira vez que cheguei ao clube, sentei-me no balneário à espera dos jogadores porque temos aquela rotina em Portugal: os jogadores chegam, falamos com eles, últimos ajustes, últimos detalhes. E na China os jogadores saíam diretamente do hotel ou do autocarro para o campo. Sentavam-se no banco e calçavam as botas. Imagina o que é estares ali à espera, a ver as horas, e quando dás por ti já estão os jogadores todos no campo prontos para treinar. Ou seja, fui completamente à aventura. Não tinha lá nenhum português, nem nenhum estrangeiro que me desse referências de como as coisas funcionavam. Foi tudo muito no desconhecido e isso, para mim, foi uma situação engraçada. Outra tem a ver com a pontualidade. Na China eram muito rigorosos com horários, cumpriam mesmo. Por exemplo, tínhamos uma reunião marcada para as 10h, e eu, como bom português, sou exigente com a pontualidade dos jogadores, mas não sou de chegar 10 minutos de antecedência. Chegava dois minutos antes. Quando entro na sala, ainda enquanto adjunto, já estavam todos sentados, de braços cruzados, com um ar muito sério, o treinador também, todos a olhar para mim. Eu olho para o meu relógio, olho para o relógio da parede para confirmar se estava na hora… e eles começam-se a rir. Perceberam que, para mim, aquela antecedência toda não era normal. Depois há histórias mais caricatas. Por exemplo, num jogo de treino, como disse, ao início eu aprendia palavras-chave para comunicar. Quando perdíamos a bola, queria reação, queria pressão. Então, tinha de saber como dizer “pressiona”. Estou eu no treino, a gritar para os jogadores, a dar feedback… e chega o tradutor ao pé de mim e diz: «Míster, o míster não está a dizer “pressão”. O míster está a dizer “arroz frito”». Agora imagina o que é estares num treino a gritar «arroz frito, arroz frito, arroz frito» para um jogador. Eu achava que estava a dizer a palavra certa, mas pela pronúncia estava a dizer algo completamente diferente. Aquilo virou uma gargalhada geral, mas são essas pequenas coisas que depois marcam muito a experiência. Histórias simples, mas que mostram bem o choque cultural e a adaptação que tive de fazer.

Fonte: Zhiyun

Bola na Rede: Que objetivos traça para o futuro? Vê-se a passar por Portugal num futuro próximo?

David Patrício: Eu acima de tudo sou um treinador, como já deu para perceber, com uma grande capacidade de adaptação e que não olha a países. O que eu vejo são projetos – projetos com estrutura, onde sinta que posso ajudar a equipa a crescer e, ao mesmo tempo, crescer eu próprio enquanto treinador. Sou um treinador do mundo, não olho a geografias. Tenho recebido várias abordagens, sobretudo dos mercados onde estive a trabalhar. O problema é que muitas dessas oportunidades aparecem em contextos muito específicos: clubes na luta pela sobrevivência ou projetos muito exigentes num momento já difícil da época, o que torna tudo menos alinhado com aquilo que procuro. O que eu procuro é simples: um projeto onde possa implementar a minha ideia, desenvolver trabalho e crescer em conjunto com o clube. Quando me falam de Portugal, claro que gostava de treinar cá. Também reconheço a minha responsabilidade em não ser tão conhecido no meu país. Desde que saí, pela intensidade do trabalho e pela diferença horária – sete a oito horas -, acabei por não estar tão presente mediaticamente. E isso também foi uma opção minha, porque sempre dei prioridade ao trabalho em si. Isso significa que, naturalmente, em Portugal algumas pessoas não me conhecem ou não têm presente o meu percurso e eu encaro isso com naturalidade. Agora, se me sinto preparado? Mais do que preparado, sinto que é um objetivo. Trabalhar em contextos como os que tive na China ou na Arábia Saudita, com jogadores e treinadores de topo, com desafios estratégicos muito exigentes, prepara-te para qualquer realidade. Sinto-me hoje muito mais treinador do que quando saí de cá em todos os aspetos: pessoal, profissional e metodológico. Gostava de treinar em Portugal, sem dúvida. Se o futebol português está pronto para treinadores com um percurso como o meu? Diria que sim, no sentido em que o meu percurso é diferente, mas não menos válido. Há muitos tipos de treinadores em Portugal: alguns com passado como jogadores, outros que começaram muito cedo, como é o meu caso, em que comecei a treinar no campo aos 17 anos. Portanto, tenho mais de 20 anos ligados ao treino, ao balneário, ao erro, à aprendizagem contínua. E depois há a experiência internacional. Quando falamos da Superliga Chinesa ou da Liga Saudita, estamos a falar de contextos com jogadores e treinadores de alto nível, muitos deles com passagem por grandes ligas europeias. Isso obriga-te a estar constantemente ao mais alto nível estratégico. Se quiserem receber um treinador bem preparado, com competências, que fez a formação toda em Portugal, os cursos de treinador cá, e que depois enriqueceu essa experiência em mercados diferentes e contextos desafiantes. Normalmente o treinador português que vai para fora, especialmente para o Médio Oriente, é rotulado como o treinador que vai à procura do contrato, do dinheiro. Não foi o meu caso. Apesar de ter estado em ligas como a chinesa e como da Arábia Saudita, não fui pelo investimento, não fui pelas questões salariais. Foi para me desafiar, para crescer como treinador e também criar a minha oportunidade. Portanto, eu penso que se o mercado português me quiser receber, eu estarei mais do que preparado porque tenho muito a aportar.

Bola na Rede: O que ainda sente que falta alcançar na sua carreira?

David Patrício: Falta muita coisa. Eu, como tive a oportunidade de começar muito novo, e apesar de já ter todos estes anos de experiência, ainda tenho muito caminho pela frente e muitos objetivos que quero alcançar. Quero treinar nas principais ligas, nomeadamente em Portugal. Gostava muito de entrar nas competições europeias, quer seja na Europa League, quer seja na Champions League. Mais tarde tenho a ambição de treinar seleções nacionais, nomeadamente a nossa, mas vejo isso mais para a frente, não como algo para agora. Neste momento estou numa fase de pausa em que tenho de avaliar com cuidado o próximo passo e os próximos desafios. Esta passagem pela Arábia Saudita fez-me repensar um bocadinho a forma de escolher os próximos projetos. Este período fora do campo, como já se costuma dizer, esta adrenalina da competição, do treino, é como a falta de uma «droga», sentes essa necessidade. O facto de estar fora custa-me bastante, mas tenho de ser consciente e ponderado para escolher o meu próximo passo. Há muita coisa a fazer e muito a evoluir para continuar a crescer enquanto treinador, enquanto ser humano e também para ajudar os outros.

Bola na Rede: Qual foi o momento mais marcante da sua carreira?

David Patrício: Foi sem dúvida nenhuma quando conseguimos a manutenção na Superliga Chinesa. Foi um ano muito difícil, muito atípico, muito desafiante, em que aconteceram muitas coisas, muitos altos e baixos. Seria necessária uma entrevista só para falar desse ano, mas garantir a manutenção, ter um estádio inteiro a gritar pelo teu nome, a ovacionar-te, fazeres a volta olímpica e sentires o reconhecimento das pessoas, com pessoas a chorarem de alegria… não vou dizer onde é que assinei, pediram-me para assinar nos sítios mais estranhos. Foi de um reconhecimento e de uma alegria tal que, até ao momento, foi o mais marcante. Por ser um clube com um desnível tão grande relativamente aos demais, com um orçamento tão humilde, com uma equipa tão humilde e com todos os desafios que passámos, termos conseguido aquele objetivo na última jornada, em nossa casa, foi algo que me vai marcar para sempre. E depois ter lá a minha esposa e os meus filhos, eles estarem no relvado comigo e poderem sentir aquele reconhecimento foi algo marcante, sem dúvida alguma.

Bola na Rede: Que conselho deixaria a jovens treinadores portugueses que querem traçar um caminho semelhante ao seu?

David Patrício: Toda a gente tem sonhos. Toda a gente quer muito uma coisa. Mas sonhos sem um plano, sem sacrifícios, sem dedicação e sem obstinação não passam disso: não passam de sonhos. Portanto, não querendo falar muito da minha parte pessoal, mas deixando a ponta do véu no ar: se tiveres de vender o teu carro e andar num carro mais humilde, se tiveres de vender a tua casa e viver numa casa mais humilde, se tiveres de te sacrificar a ti e muitas vezes à tua família para atingir os teus objetivos, vai, passa à frente, avança. Agora não esperem sentados na cadeira, nada nos cai nas mãos. É preciso muito sacrifício, muita resiliência e muita dedicação. Não esquecer: não é só querer. Não é só fazer estes sacrifícios. É preciso estudar, ser autodidata, procurar a formação nos sítios corretos, errar, porque só aprende quem erra. Tens de estar na prática, tens de passar pelas experiências. Não é só dizer «não tenho oportunidade». Para teres oportunidade, tens de primeiro criá-la. Isto é um bocadinho o conselho baseado naquilo que tem sido a minha gestão. Quando falo em criar oportunidade, por exemplo no meu caso, não fui jogador. Quando joguei, era guarda-redes, tinha algum potencial, mas sempre tive mais atração pelo campo. Sou de uma pequena vila pescatória que é Sesimbra, e ia sempre aos jogos. O meu pai não via futebol e ainda hoje não vê, porque sofre do coração e não pode ver os meus jogos, mas aos domingos, deixava-me em frente ao estádio. Eu ia sozinho, com 12 ou 13 anos e colocava-me atrás do banco do treinador ouvir as instruções, para tentar perceber o que dizia. Já tinha essa curiosidade. Depois veio a febre do CM, que agora é o Football Manager, que muitos treinadores também falam. Sempre tive muito interesse por esta parte estratégica e de liderança. E isto para dizer o quê? Não queimes etapas. Eu passei por todos os escalões, desde treinar bebés no Benfica, infantis, iniciados, juvenis, juniores, seniores, seniores femininos, várias divisões. Traça o teu caminho. Estamos na era do imediatismo, queremos tudo para agora, querem ser treinadores hoje e amanhã já têm de estar lá. Eu não acredito nisso. Talvez aconteça, mas quando acontece é muito efémero. Chegas e cais. É preciso ter sustentabilidade por trás. E quando chegas a um determinado patamar, é escolher bem os projetos. Eu saí da China porque entendi que se tinha esgotado um ciclo. Experimentei uma nova realidade e saí com algumas expectativas que acabaram por não se concretizar. O tempo foi passando e, neste sentimento de estar parado, acabei por aceitar um projeto que não foi positivo no sentido em que o clube não tinha a estrutura que eu esperava. Ainda assim, foi muito positivo do ponto de vista do crescimento pessoal. Tive de ajudar a reconstruir um clube praticamente do zero: infraestruturas, campos em construção, ginásio adaptado, treinar no deserto com 45, 50 graus, deslocações longas para treinar em condições difíceis. E isso ensinou-me muito. Quando entrei, havia uma visão de projeto a longo prazo. Depois entrou uma nova direção com uma visão imediatista, de subida de divisão. E eu fui realista: disse-lhes que era um sonho legítimo, mas primeiro tínhamos de ter um plano. Não tínhamos campo de treino, jogámos vários jogos fora, estávamos numa estrutura muito limitada. E isso não muda de um dia para o outro. Naquela liga, há muita volatilidade. Já foram trocados 18 treinadores esta época numa liga com 18 clubes, é uma realidade onde o resultado imediato dita tudo. O presidente ouve duas ou três vozes, perde um jogo e decide mudar para salvar a pele, não há projeto sustentado. Por isso, quando chegas a uma fase da carreira, tens mesmo de escolher bem o próximo passo, caso contrário, podes ter um retrocesso que não queres. Mas também tens de ter resiliência: cada vez que cais, levantas-te outra vez. Só tens de levantar uma vez mais do que aquelas que cais. E isso faz parte de mim, é a minha forma de estar. E o conselho que deixo é esse: nesta era do imediatismo, há que ter paciência, fazer o seu caminho e ter capacidade de superação. Falámos aqui um bocadinho de questões táticas e estratégicas, mas não aprofundámos muito. Há uma coisa que eu tenho de vos dizer a vós, a Bola na Rede: têm sido uma lufada de ar fresco nos meios de comunicação social que tenho acompanhado. E agora, mais recentemente, que tenho mais disponibilidade e tenho estado mais atento às ligas portuguesas, gosto muito das questões pertinentes que colocam aos treinadores no final dos jogos, com cariz tático e com curiosidade estratégica. Terem esta curiosidade e este interesse pelo jogo é algo que valoriza o futebol em Portugal. Não são só aqueles programas de horas e horas a falar de nada. Em vez de falarmos de coisas artificiais, falamos realmente do jogo. Para quem gosta de futebol, vocês são uma lufada de ar fresco, e queria dar-vos os parabéns por isso. E um dia, se quiserem pegar no quadro tático e discutir e aprofundar algumas ideias, estou à disposição para colaborar convosco, gosto muito desta vossa atitude proativa e desta curiosidade que têm neste meio. Espero que em breve me possam fazer essas questões em Portugal, no final dos jogos, e perguntar por que razão fiz isto ou aquilo, questões que têm a ver com encaixes defensivos e dinâmicas do jogo. Em breve, espero poder ser abordado por vocês sobre essas temáticas.

Fonte: Arquivo Pessoal

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