«Gostava que fosse o Braga a passar apesar das ligações que tenho ao Friburgo» – Entrevista Bola na Rede a Cafú

Cafú passou vários anos por Portugal em equipas como Boavista, Belenenses, Feirense ou Académico de Viseu. Entre 2005 e 2007 representou o Friburgo, onde marcou dois golos em 26 jogos, e falou com o Bola na Rede sobre o clube alemão, que vai agora enfrentar o Braga nas meias-finais da Europa League.

«O Friburgo chamou-me a atenção pelo estilo de jogo, que era um futebol mais técnico e dinâmico».

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Bola na Rede: Cafú, obrigado pelo teu tempo. Como é que surgiu o convite para ires para o Friburgo?

Cafú: Saí do Boavista em janeiro e, nessa altura, surgiu a possibilidade de ir para a Alemanha através de um amigo meu. Ele vivia lá, tinha boas ligações a clubes alemães e, depois de receber o meu contacto por intermédio de pessoas conhecidas, veio assistir a um jogo meu e começou a tentar convencer-me a dar esse passo. As negociações aconteceram praticamente em cima do fecho de mercado. Foi tudo decidido nos últimos dois dias e acabei por sair mesmo no último minuto. Lembro-me que o mercado fechava ao meio-dia e tivemos de tratar de contrato e assinaturas quase a correr, ainda no aeroporto, para que a documentação chegasse a tempo à federação. Foi uma mudança muito repentina. Numa primeira fase, houve a hipótese de ir para outro clube alemão, mas o valor que me ofereciam era muito semelhante ao que ganhava em Portugal e, sinceramente, não fazia sentido mudar de país para ficar praticamente na mesma. Acabei por recusar. Entretanto, apareceu a oportunidade de assinar pelo Siegen, da segunda liga alemã, um clube que tinha ambições de subida, e nessa altura achei que poderia ser um desafio interessante. Também é verdade que, em Portugal, já se começavam a sentir algumas dificuldades financeiras. O Boavista queria renovar comigo, mas a situação estava instável e os salários começavam a ser afetados. Perante esse cenário, decidi arriscar e aventurar-me na Alemanha para perceber até onde poderia ir. Cheguei a acordo com o Boavista literalmente na noite anterior à viagem. Andámos em negociações até bastante tarde e, na manhã seguinte, saí diretamente para o aeroporto. Foi tudo muito rápido e quase sem tempo para pensar. No Siegen fiz uma época positiva a nível individual, apesar de coletivamente as coisas não terem corrido tão bem e a equipa ter acabado por descer de divisão. Ainda assim, consegui despertar o interesse de três ou quatro clubes alemães e foi aí que surgiu o Friburgo. O Friburgo chamou-me a atenção pelo estilo de jogo, que era um futebol mais técnico e dinâmico, com muitos jogadores africanos, algo que me agradava bastante. Além disso, era um clube organizado, numa cidade excelente, e senti que era o passo certo para continuar a crescer. Acabei por aceitar e foi, sem dúvida, uma experiência muito boa na minha carreira.

Bola na Rede: Gostava que me falasses da tua experiência no Friburgo. Que diferenças sentiste em relação ao futebol português?

Cafú: A Alemanha, por acaso, naquele primeiro clube é que foi mais o choque. Naquele ano nevou muito, tu de manhã nem vias o carro, não o encontravas, estava cheio de neve. Tu subias uma rua e o carro descia outra vez… foi um bocadinho esse impacto inicial. Mas depois chegavas ao campo e fazias o que querias. Eu vinha de um patamar aqui, vinha do Boavista, de um certo nível, e estava a jogar na segunda liga alemã. O futebol alemão, na altura, eles passavam bem, chutavam bem, eram muito fortes fisicamente, mas depois faltava-lhes aquela qualidade técnica, aqueles pormenores, não havia muito improviso. E os estrangeiros é que davam isso, porque o futebol alemão antigamente, se tirares os estrangeiros, era mais fraquinho. Os estrangeiros é que traziam outra componente. Mas depois, no Siegen, a cidade era top, havia muitos estudantes e o estádio era pequenino, mas jogavas sempre com 15 mil pessoas, sempre cheio. Naquele nível, segunda liga, já tinhas tudo, entendes?

Cafú Friburgo
Fonte: Arquivo Pessoal Cafú

Bola na Rede: Em relação às condições, na altura sentiste que, mesmo estando no Boavista, deste um salto?

Cafú: Não. Quando saí do Boavista, nós tínhamos um estádio novo, eu estava noutro patamar, balneários aquecidos… e depois fui para o Siegen e cheguei lá e o clube era mais fraquinho. Tinha subido à segunda liga, mas não tinha posto médico, não tinha ginásio. Eu vinha de alguns problemas físicos e tinha de alongar, e eu tinha de alongar no chuveiro, sabes? O estádio até era um bom estádio, tinha bancadas, mas às vezes quase nem dava para ver bem porque aquilo estava cheio de gelo. E nós treinávamos no gelo, com umas sapatilhas tipo sintético. Era engraçado porque nós entrávamos no campo cheios de roupa e eu não estava habituado a treinar com gorro, com tudo, e pensava que nem me conseguia mexer assim. Mas entrávamos no campo e eles começavam a correr de um lado para o outro, tipo suicidas. Com aquele frio tínhamos que andar sempre a correr. Foi uma experiência. E uma pessoa também fazia o que queria ali um bocadinho, foi interessante. Depois, quando fui para o Friburgo, aí sim, as condições já eram completamente diferentes. Tínhamos piscina interior, tínhamos sauna, comíamos lá, tínhamos pequeno-almoço, tínhamos tudo. Os jogos eram às duas da tarde, eram outras condições. Tínhamos dois campos, um deles aquecido para não ficar com neve. Naqueles anos eles também inovaram muito. Era uma cidade boa, vivia-se bem, bons carros… estavas na segunda liga mas não notavas que estavas na segunda liga. Claro que era um clube com outra dimensão, com estádio novo, e havia clubes da primeira liga que não tinham as condições que o Freiburg tinha.

Bola na Rede: Dizem que o Friburgo é uma equipa com uma grande identidade. Porquê? Como são os adeptos?

Cafú: Senti isso, sim. Até porque tenho uma história curiosa. No Friburgo o treinador era o Volker Finke, que já lá estava há 15 anos, e notava-se que ele controlava um bocado tudo. O Friburgo era um clube muito virado para a juventude, para passar aquela imagem de equipa de malta nova, organizada, e ele tinha muita influência nisso. Tu, por exemplo, não podias aparecer com um determinado carro. Na Alemanha muitas vezes os jogadores têm patrocínio de carro e os jogadores que já lá estavam contavam-me isso. Houve um que comprou um Porsche e o treinador pegou-se logo com ele, não o deixava jogar e disse-lhe que tinha de vender o carro. Era para manter aquela imagem de clube simples, de jovens, em que os jogadores não podiam passar a ideia de ostentação. Eu, quando cheguei, também comprei um Porsche usado na altura e ele não me deixou usar o carro. Tive logo de o mandar para Portugal. Para veres o ponto a que aquilo chegava. Eles queriam muito essa imagem. Na altura uma pessoa às vezes não entende bem, mas depois começa a perceber qual era a ideia: ali ninguém ganhava assim fortunas, era um clube extremamente organizado e queriam passar essa humildade para fora. A mim chocava-me um bocadinho porque eu dizia: fogo, aqui na Alemanha há tantos carros baratos, mais baratos do que em Portugal, e eles andam todos de bicicleta. Era engraçado.

«Se soubesse o que sei hoje, tinha ido mais cedo para fora»

Bola na Rede: No Friburgo cruzaste-te com três treinadores históricos do clube: Volker Finke, Christian Streich e Robin Dutt. Qual a tua opinião sobre eles? O que tens a dizer sobre eles?

Cafú: É assim, o Volker Finke tinha aquela experiência de muitos anos de casa. Era um treinador muito vivido e gostava muito de jogadores africanos. Ele conhecia África muito bem, falava muito disso. Uma vez até lá foi a Sara Tavares e ele falou bastante dela, de Cabo Verde, dessas ligações que tinha. Ele gostava muito de fazer montanha, caminhadas, era um homem muito ligado a isso, e o Friburgo naquela altura tinha também uma influência muito grande do modelo francês. A França era uma referência para eles em termos de seleção e de treino, e nós sentíamos isso muito no trabalho diário. O nosso aquecimento às vezes parecia quase uma dança, de tanta coordenação que tinha. Era impressionante. Havia ali uma metodologia muito própria e, por acaso, o ambiente era muito bom. O Robin Dutt já veio com uma cultura um bocadinho diferente. Fez ali algumas mudanças, tinha maneiras de trabalhar diferentes, embora a equipa continuasse a ser boa. Eu com ele estive pouco tempo, meio ano, porque depois saiu praticamente toda a gente que era do tempo do Volker Finke. Uns foram para clubes melhores, outros saíram, e acabámos por ficar lá eu e um nigeriano. Ele já não jogava muito e eu também andava ali entre jogar e não jogar. Depois comecei a jogar mais, mas entretanto vi que aquilo não estava muito estável para mim e quis sair. Tivemos a ver a possibilidade de eu ir para a Grécia e estava praticamente tudo acertado. Só que, antes disso, fizemos um jogo de treino com uma equipa que também estava na segunda liga e eu fiz um grande jogo com os miúdos. Quando estava quase tudo fechado para sair, ele chamou-me logo e disse: “Não, tu não vais porque és muito bom jogador e avançados não há.” Acabei por sair na mesma em janeiro, mas aí já percebi bem qual era a intenção: tirar a malta toda que vinha do antigo treinador e impor-se ali um bocadinho. E isso também é muito a maneira de funcionar na Alemanha. Lá o diretor desportivo manda muito e eles quiseram mudar quase tudo. Depois começaram também a pegar um bocadinho pelos valores que eu recebia, por pequenos pormenores, e eu percebi que estavam a arranjar forma de limpar aquilo tudo. Hoje em dia já consigo entender melhor. No futebol funciona muito assim. Às vezes as pessoas estão à espera de gratidão dos clubes, mas isto é uma máquina, é mesmo uma empresa.

Cafú Friburgo
Fonte: Arquivo Pessoal Cafú

Bola na Rede: Que ensinamentos é que o Friburgo te deixou para a carreira?

Cafú: O ensinamento que me deixou foi este: se soubesse o que sei hoje, tinha ido mais cedo para fora. Mesmo no Siegen eles queriam que eu ficasse. Diziam-me, a gente junta dinheiro, a gente faz um esforço, porque eles tinham subido quase sem querer e depois a segunda liga era muito exigente. Não tinham grande qualidade técnica nem grandes condições para estarem ali, e eu até estranhava porque parecia que eles queriam era descer para estabilizar. Mas na Alemanha, tanto na segunda como na terceira liga, os jogadores ganham bem. Tens estádios cheios, tens condições, não te falta nada. E foi aí que eu senti uma coisa: lá fora, como jogador, és muito mais valorizado. Tratam-te de outra maneira, sem dúvida nenhuma. Tu eras quase um herói. Na segunda liga havia filas de gente para dar autógrafos, filas mesmo. Era uma dimensão completamente diferente. Eles gostam genuinamente de futebol. Perdes e não te criticam logo da mesma maneira. Estás a entender? Aqui não. Aqui às vezes perdias e já levavas logo duras, críticas, pressão… A cultura deles em relação ao futebol é diferente, muito mais evoluída até como sociedade. Eles valorizam muito mais o jogador e às vezes cá a história não é bem assim.

Bola na Rede: E esperavas este crescimento do Friburgo nestes últimos 15/20 anos?

Cafú: Não, não esperava. É assim, a cidade é muito boa e o clube já naquela altura era muito estável a nível estrutural. Tinham boas condições de campo, tinham tudo muito bem organizado, e depois há uma coisa importante: tudo o que é da cidade anda muito ligado ao clube. Eles fazem muitos programas com os miúdos da cidade, chamam muita gente jovem e nós próprios, jogadores, também participávamos como treinadores ou observadores para ajudar a escolher talentos. Ou seja, há ali uma dimensão em que praticamente toda a gente é do clube. E quando tens uma cidade tão ligada a uma equipa, o clube tem sempre mais hipóteses de crescer. Depois, a nível de gestão, na Alemanha eles sempre foram muito organizados e isso nota-se. Mais tarde fizeram o estádio novo e hoje é um clube que me surpreende pelas condições que tem. Mas, olhando bem, também se percebe porquê: sempre teve muita qualidade de treinadores, muita organização e depois a Alemanha é um mercado muito grande. Se trabalhares bem, tens sempre margem para crescer.

«Acho que o Braga tem algum favoritismo, mas o futebol sabemos como é».

Bola na Rede: O Braga é o próximo adversário do Friburgo, nas meias-finais da Europa League. O que esperas desta eliminatória?

Cafú: É assim, daquilo que tenho acompanhado do Friburgo e do que tenho visto, apesar de já ter estado muito mais ligado nos primeiros anos, acho que vai ser uma eliminatória interessante. Mas o Braga é o Braga, tem outra dimensão e disso eu não duvido. O nosso futebol português tem outra qualidade. Agora, claro, se a gente não andar, não ganha a ninguém. Mas se andar, se estiver ao seu nível, tem muito mais qualidade. Eu costumo dizer que fui para a Alemanha e fiquei muito mais jogador em termos de disciplina e de exigência, mas em termos de improviso e criatividade eu fazia coisas que eles não faziam. Nós tínhamos outra ginga, outra facilidade no um para um, outras soluções. Na altura o futebol alemão era muito físico. Os miúdos passavam bem, chutavam bem, mas depois não faziam uma finta, não havia aquele improviso. Treinava-se muito, era muita intensidade. Eu lembro-me que na Alemanha chegávamos a treinar três vezes por dia: um treino às sete da manhã sem comer, outro às dez e outro de tarde. Andava-se muito de bicicleta também. Agora, uma coisa que eu aprendi lá foi disciplina. Na disciplina eles são fortíssimos. E na alimentação também ligavam muito: o que comer, o que beber, a quantidade de água, a recuperação… mal acabava o jogo tinhas de beber isto, comer aquilo, papas de aveia, essas coisas todas, eu detestava papas de aveia. Mas a verdade é que eles já faziam em 2005 muita coisa que só anos mais tarde começou a aparecer aqui: aquecimento pré-jogo muito controlado, recuperação logo a seguir ao jogo, corrida, alimentação, tudo tratado ao detalhe. O Friburgo às vezes até para jogos longe ia de avião, depois o autocarro já estava lá e no regresso vinha-se de autocarro. Era outro patamar. A Alemanha é outro patamar. Eu adorei jogar na Alemanha, adorei mesmo a passagem que tive por lá. Quanto à eliminatória, acho que o Braga tem qualidade para discutir, mas vai apanhar uma equipa muito organizada, muito disciplinada e muito competitiva.

Friburgo Jogadores
Fonte: SC Freiburg

Bola na Rede: Para fechar, tens expectativas em relação a esta eliminatória? O que esperas dos dois encontros?

Cafú: É assim, sinceramente gostava que fosse o Braga a passar, até para somar pontos para nós aqui, apesar das ligações que tenho ao Friburgo. Por acaso ainda não consegui voltar lá para visitar o clube, que era uma coisa que gostava de fazer, mas desde que entrei no trabalho e como tenho um ginásio isso tira-me muito tempo. Não vai ser um jogo fácil, nesta fase nunca é, mas acho que o Braga, a jogar com os grandes, tem feito grandes jogos. É uma equipa boa, vem também moralizada depois do jogo que fez com o Sevilha, e eu gosto do modelo de jogo do treinador, jogam bem. Acho que o Braga tem algum favoritismo, mas o futebol sabemos como é. E os alemães, e o Friburgo também, jogam muito bem. Ainda há pouco tempo vi um jogo deles e aquilo é uma intensidade enorme, com o estádio novo a abarrotar, um ambiente mesmo bonito. Vai ser um jogo que eu quero ver mesmo.

Ricardo João Lopes
Ricardo João Lopeshttp://www.bolanarede.pt
O Ricardo João Lopes realizou a sua formação na área da História, mas é um apaixonado pelo desporto (especialmente pelo futebol) desde criança, procurando estar sempre a par da atualidade.

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