Olhar tático ao jogo do título: as dinâmicas de Francesco Farioli e Custódio Castro no FC Porto x Alverca

- Advertisement -

O FC Porto venceu o Alverca por 1-0 no Estádio do Dragão e conquistou o 31.º título de campeão nacional da sua história, colocando um ponto final num jejum de três anos. Mais do que uma simples vitória, este foi o culminar de um processo de reconstrução, tanto para Francesco Farioli, depois das dificuldades sentidas no final da época transata no Ajax, como para os próprios dragões, que vinham de uma temporada 2024/25 marcada por instabilidade e rendimento irregular. Desta vez, a resposta foi muito clara perante a regularidade exibicional e consistência competitiva por parte dos dragões ao longo de toda a época.

No encontro da 32.ª jornada da Primeira Liga, a equipa portista teve de ser extremamente competente para ultrapassar um Alverca bem preparado por Custódio Castro, que apresentou soluções eficazes para exponenciar o seu momento defensivo e criar dificuldades aos dragões no plano ofensivo.

Do ponto de vista tático, o Alverca foi, muito provavelmente, uma das equipas que melhor conseguiu condicionar o FC Porto ao longo do campeonato. Apostando num sistema de cinco defesas, ao contrário de muitos adversários que optaram pelo 4-4-2, Custódio Castro manteve a sua linha de três centrais (Naves, Sergi Gómez e Bastien Meupiyou), com Nabil Touaizi e Isaac James nas alas. O objetivo passou por preservar uma estrutura que deu provas de solidez ao longo da temporada, algo que ficou evidente na forma tranquila como o Alverca assegurou a manutenção na Primeira Liga.

Custódio Castro Alverca
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Em organização defensiva, o Alverca apresentou-se num 5-3-2, com Chiquinho e Sandro Lima na frente. Apesar da superioridade do FC Porto na primeira fase de construção (3×2, com Bednarek, Kiwior e Pablo Rosário), a equipa ribatejana compensava com superioridade na linha defensiva e com ajustes muito bem definidos na pressão. Meupiyou assumiu uma referência individual sobre Victor Froholdt, enquanto, do lado oposto, Naves podia saltar à pressão sobre Gabri Veiga, dependendo do lado da bola. Ainda assim, os centrais do Alverca assumiam referências individuais sobre os médios do FC Porto quando estes entravam nas suas zonas de atuação, largando a referência sempre que que Froholdt ou Gabri Veiga se deslocavam para zonas mais recuadas ou exteriores.

Perante estas limitações, Victor Froholdt procurou libertar-se através de movimentos de lateralização à direita, tentando receber de frente e com maior capacidade de decisão. Ainda assim, o Alverca manteve sempre as coberturas bem asseguradas, impedindo a criação de vantagens claras no corredor.

Um dos grandes segredos do sucesso defensivo do Alverca esteve no trabalho dos médios exteriores, Figueiredo, Rhaldney e do pilar central do meio-campo Lincoln. Custódio Castro estruturou uma linha de três no meio-campo, com Figueiredo a assumir uma posição mais baixa, como médio interior. Estes jogadores foram fundamentais na pressão aos laterais do FC Porto, acumulando funções: ora fechavam por dentro para não permitir a Gabri Veiga, Froholdt receber bola, ora percorriam grandes distâncias para pressionar os corredores laterais (Alberto Costa e Zaidu). Lincoln, por sua vez, geria o espaço central em função da circulação da bola.

oskar fc porto x alverca
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Com estes comportamentos, centrais exteriores a saltarem sobre médios interiores e médios exteriores a pressionarem laterais, o Alverca conseguiu bloquear o jogo interior do FC Porto. Foi precisamente neste contexto que Deniz Gul poderia ter assumido um papel determinante. Ao baixar no terreno, o avançado turco procurava oferecer uma linha de apoio que permitisse ligar o jogo e criar superioridade. Sempre que isso acontecia, arrastava consigo um central, abrindo espaço para entradas de Alberto Costa, Froholdt ou Pepê. Também neste sentido se pode interpretar a escolha de Pablo Rosário para a posição 6, em detrimento de Alan Varela. A capacidade do médio da República Dominicana para encontrar passes verticais foi essencial para tentar ligar com Deniz Gul e desbloquear o jogo.

Nos corredores laterais, o Alverca manteve-se igualmente consistente. Jogadores como Oskar Pietuszewski tiveram dificuldades em desequilibrar, muito por culpa das coberturas constantes, asseguradas quer pelos alas, quer pelos centrais do lado da bola. Mesmo com as habituais trocas posicionais do FC Porto nos corredores, a equipa do Alverca foi controlando as investidas.

Com bola, o Alverca voltou a mostrar uma ideia já habitual. No processo de construção, Sergi Gómez subia para o meio-campo, formando duplo pivô com Lincoln, permitindo uma saída mais sustentada perante a pressão alta do FC Porto. Ao mesmo tempo, a equipa ribatejana posicionava-se com uma linha de quatro baixa e em linha, garantindo apoio por trás e maior segurança na primeira fase de construção. Com o FC Porto a procurar direcionar a pressão para o lado direito, Zaidu pressionava Touaizi, Oskar fechava sobre Naves e Deniz Gul baixava no terreno para condicionar Sergi Gómez.

Francesco Farioli
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Já no plano ofensivo, a estratégia passava por utilizar Sandro Lima como referência para fixar os centrais azuis e brancos, explorando depois a profundidade com Chiquinho. O avançado português teve, inclusive, uma oportunidade em situação de 1×1 com Kiwior, mas não conseguiu definir da melhor forma. Ainda na primeira parte, o Alverca conseguiu também ativar as subidas de Touaizi pelo lado direito, obrigando a um esforço constante de recuperação defensiva para recompor a linha de cinco e evitar situações de inferioridade numérica (não deixar Oskar Pietuszewski livre).

Apesar da organização do adversário, o FC Porto acabou por chegar ao golo através de uma das suas armas mais eficazes ao longo da época: a bola parada. Através de um pontapé de canto, Gabri Veiga colocou a bola na área e Jan Bednarek, de cabeça, fez o único golo da partida.

Na segunda parte, o jogo sofreu algumas alterações, sobretudo na postura mais agressiva da equipa de Custódio Castro. O Alverca subiu linhas e tornou-se mais pressionante, conseguindo explorar melhor os corredores laterais através de Touaizi e Isaac James. Ainda assim, o FC Porto conseguiu controlar as investidas e segurar a vantagem, num esforço coletivo que, como o próprio Francesco Farioli referiu, teve também um significado especial ao evocar a memória de Jorge Costa, uma figura incontornável na história do clube, como símbolo da resiliência e da identidade que voltaram a marcar este FC Porto campeão.

No final, este título não pode ser visto apenas como o resultado de um jogo, mas sim como a consequência de um processo bem estruturado ao longo da temporada. Um plantel bem construído, totalmente alinhado com as ideias do treinador, gerido com critério e maturidade ao longo da época, e sustentado por uma ligação forte entre equipa e adeptos. Mais do que um campeão, este FC Porto foi uma equipa consistente, equilibrada e preparada para todos os momentos da temporada. E é precisamente essa coerência, entre planeamento, identidade e execução que torna este título, sem qualquer dúvida, mais do que merecido.

Rodrigo Lima

Relatório Tático

1. Alverca

Organização defensiva

  • Sistema base: 5-3-2 em organização defensiva
  • Linha de 5 consolidada, com foco no bloqueio do corredor central e coberturas constantes nos corredores
  • Médio mais centralizado (Lincoln) como gestor de equilíbrios

Organização ofensiva

  • Primeira fase de construção com: linha de 4 baixa
  • Sergi Gómez a subir para formar duplo pivô com Lincoln
  • Fixação de dos centrais do FC Porto (Jan Bednarek e Jakub Kiwior) através de Sandro Lima
  • Procura de profundidade com Chiquinho
  • Projeções de Touaizi no corredor direito e boa recuperação posicional após perda de bola

Limitações

  • Falta de definição no remate ou no passe no último terço (Chiquinho)
  • Dificuldade em manter ataques prolongados na primeira parte contra o bloco organizado do FC Porto
  • Bola parada (golo do FC Porto)

Comportamentos-chave

  • Centrais exteriores (Meupiyou e Naves) com referências individuais aos médios interiores do FC Porto (Gabri Veiga e Victor Froholdt)
  • Médios exteriores (Figueiredo e Rhaldney) com dupla função: pressão aos laterais na variação de jogo do FC Porto e cobertura interior
  • Redução do espaços entrelinhas
  • Maior protagonismo de Isaac James e Touaizi nas projeções na segunda parte
  • Bloco mais subido e maior agressividade na segunda parte

Impacto competitivo

  • Forte capacidade de bloquear jogo interior do FC Porto
  • Redução da progressão com bola do FC Porto por zonas centrais
  • Obrigar o FC Porto a procurar circular através dos corredores (mas tendo vantagens nas coberturas)

2. FC Porto

Organização defensiva

  • Pressão alta orientada ao lado direito do Alverca, condicionando a primeira fase de construção.
  • Ajustes individuais constantes em função da saída adversária:
    • Zaidu ajusta a pressão sobre o lateral direito (Touaizi), fechando linha exterior e condicionando progressão por fora.
    • Deniz Gul teve papel ativo no controlo de Sergi Gómez, baixando para condicionar a primeira ligação entre central e médio, reduzindo tempo de decisão na construção curta.
    • Oskar Pietuszewski assumiu marcação/pressão direta sobre Naves, orientando o encaixe no lado esquerdo e condicionando a primeira fase de circulação do Alverca por esse corredor.

Dinâmicas principais

  • Victor Froholdt com tendência de lateralizar à direita para tirar a referência ao Meupiyou e receber livre
  • Pablo Rosário com papel de ligação vertical
  • Utilização de Deniz Gul como referência de apoio e arrasto de marcações (dinâmica-chave para ferir o Alverca)
  • Condicionamento inicial eficaz da construção curta do Alverca

Problemas identificados

  • Dificuldade em progredir por corredor central
  • Falta de vantagem clara nos corredores (Limitados por coberturas constantes do Alverca)
  • Necessidade de maior velocidade na circulação para dificultar a pressão de Figueiredo e Rhaldney

BnR na Conferência de Imprensa

Bola na Rede: Em organização defensiva, vimos o Meupiyou e o Naves a pressionarem o Froholdt e ao Gabri Veiga até determinado ponto. Ainda assim, gostava de lhe perguntar como é que procurou ajustar a pressão, sobretudo em situações em que o Froholdt lateralizava à direita e acabava por retirar a referência ao central do Alverca, que naturalmente não o acompanhava. Por outro lado, qual era o principal objetivo no plano ofensivo e que papel teve o Chiquinho nesse momento do jogo?

Custódio Castro: É mesmo isso. Principalmente do lado direito, estavam a tentar isso mesmo com um pouco mais de eficácia, até pela velocidade do Alberto e do que estava a imprimir no jogo. Depois, também havia uma diferença do lado direito do FC Porto, que era o Figueiredo a defender. Se calhar, não tão rotinado como o Rhaldney, mas a verdade é que depois também, na saída e no que eram transições, tinha tanta ou mais capacidade. O que nós sabíamos era que o Chiquinho e o Sandro Lima acabavam por fazer 2×3 (três do FC Porto), no caso, mas isso dava-nos uma superioridade na linha defensiva, ou através do Bastien Meupiyou ou através do Lincoln, e quando o Lincoln marcava, o Bastien sobrava; quando o Bastien marcava, o Lincoln sobrava, e isso dava-nos alguma superioridade se eles puxassem o outro interior para o lado da bola, porque aí não precisávamos de desposicionar mais ninguém da linha defensiva e o Lincoln podia seguir marcação HxH, tal e qual como o Figueiredo e o Rhaldney iam ajustar em lado contrário, naturalmente. Em termos de transição ofensiva, nós acabámos por não fazer golo por alguma infelicidade, ou às vezes até por alguma indecisão do Chiquinho. Nós conseguimos ter o Chiquinho algumas vezes 1×1 com o Jakub Kiwior, era essa intenção, e a verdade é que não acabámos por fazer golo, mas acho que tivemos algum sucesso no plano.

Rodrigo Lima
Rodrigo Limahttp://www.bolanarede.pt
Rodrigo é licenciado em Ciências da Comunicação e está a frequentar o mestrado em Gestão do Desporto. Trabalha na área do jornalismo desportivo, com particular interesse pela análise de futebol.

Subscreve!

Artigos Populares

Gil Vicente empata a zeros contra o Rio Ave e não aproveita tropeço do Famalicão na luta pelo 5º lugar

Não houve golos no empate entre o Rio Ave e o Gil Vicente. Gilistas não conseguiram apanhar o Famalicão na tabela.

Consagração sem travão na Luz | Benfica 3-1 Sporting

O Benfica entrou em campo com o Hexacampeonato já garantido. Não haverá, no final da época, assim tantas exibições memoráveis em que uma equipa com o título no bolso decida não puxar o 'travão de mão'.

Cristiano Ronaldo depois da derrota do Al Nassr: «Continuamos a trabalhar»

Cristiano Ronaldo publicou uma curta mensagem depois da derrota do Al Nassr. Equipa de CR7 voltou a perder quase quatro meses depois.

Flamengo de Leonardo Jardim deixa-se empatar nos descontos no dérbi carioca contra o Vasco da Gama e mantém distância para o Palmeiras no Brasileirão

O Flamengo viu fugir a quinta vitória consecutiva no Brasileirão. Equipa de Leonardo Jardim viu o Vasco da Gama empatar no Maracanã.

PUB

Mais Artigos Populares

Lyon de Paulo Fonseca soma e segue com a 4ª vitória consecutiva e golo de Afonso Moreira e já está na zona Champions: eis...

O Lyon de Paulo Fonseca está num grande momento de forma. Triunfo sobre o Rennes permite chegar à quarta vitória consecutiva.

GP Miami: O recital de Kimi Antonelli continua

Kimi Antonelli está a mostrar a todos que veio para lutar pelo título mundial e, depois das vitórias na China e no Japão, volta a ser o primeiro a cruzar a bandeira axadrezada, desta vez no Grande Prémio de Miami.

Inter Milão conquista o 21.º título da Serie A com vitória diante do Parma

O Inter Milão foi sagrado campeão da Serie A, depois de vencer pela margem mínima na receção ao Parma, num encontro da 35.ª jornada.