Olhar tático ao Rio Ave x Sporting: os riscos do 4×4 e a importância das coberturas leoninas perante a mobilidade de Tamble e Jalen Blesa

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O Sporting deslocou-se a Vila do Conde para defrontar o Rio Ave e venceu a equipa de Sotiris Sylaidopoulos por 4-1, num encontro referente à 33.ª jornada da Primeira Liga.

Tendo em conta o interessante mercado de janeiro realizado pela equipa vilacondense e as exibições apresentadas nos últimos meses, muito assentes na construção de um ataque possante, móvel e rápido, esperava-se um jogo extremamente exigente para os leões continuarem na luta pelo segundo lugar.

Apesar das ausências no Sporting em relação aos últimos jogos, devido às lesões de Georgios Vagiannidis e Zeno Debast, a alteração mais notada acabou por ser a titularidade de Luís Guilherme, com Geny Catamo a iniciar o encontro no banco de suplentes. Já Sotiris Sylaidopoulos não procedeu a qualquer alteração relativamente ao último jogo frente ao Gil Vicente, mantendo a dupla formada por Tamble Monteiro e Jalen Blesa na frente de ataque.

A primeira parte do Sporting ficou marcada por algumas dificuldades em controlar a linha mais ofensiva do Rio Ave, composta por Jalen Blesa, Tamble Monteiro, Spikic e Diogo Bezerra. A equipa vilacondense atraía o Sporting para uma pressão alta através da construção curta e, posteriormente, procurava ligar rapidamente o jogo nos homens mais avançados através de jogo direto, seja por passes aéreos ou rasteiros.

Sotiris Silaydopoulos Rio Ave
Fonte: Duarte Rêgo / Bola na Rede

Tendo em conta que o Sporting pressiona HxH, Sotiris Sylaidopoulos procurou criar dúvidas nas referências defensivas dos leões. Para isso, alternava entre Tamble Monteiro e Jalen Blesa a baixar no terreno para receber bola, realizar apoios frontais e dar continuidade aos ataques do Rio Ave. Ao mesmo tempo, os dois médios, Ryan Guilherme e Tamas Nikitscher, mantinham-se atentos para ganhar a segunda bola. Nesse sentido, era fundamental para o Sporting que Gonçalo Inácio e, sobretudo, Ousmane Diomandé conseguissem vencer o primeiro duelo, impedindo que os médios ou avançados do Rio Ave recebessem a bola de frente e progredissem no terreno.

Ainda assim, Tamble Monteiro conseguiu impor-se fisicamente ao longo da primeira parte. Seja a atacar a profundidade, seja no jogo aéreo, o avançado foi conseguindo superiorizar-se em vários momentos ao central costa-marfinense. Já os extremos, Spikic e principalmente Diogo Bezerra, foram sendo chamados aos corredores para desequilibrarem no 1×1.

Com um cenário de 4×4 entre os quatro defesas do Sporting e os quatro elementos mais ofensivos do Rio Ave, a equipa vilacondense conseguiu explorar essa igualdade numérica, sobretudo devido aos duelos ganhos e à agressividade colocada nos ataques à baliza de Rui Silva. Foi precisamente dessa dinâmica que surgiu o primeiro golo do encontro, depois de Tamble Monteiro ganhar a bola numa insistência e servir Diogo Bezerra.

Para contrariar essa dinâmica que estava a ser bem aproveitada pelo Rio Ave, Rui Borges pediu, já perto do final da primeira parte, uma maior cobertura dos médios, dependendo do lado onde se encontrava a bola. O objetivo passava por o médio do lado contrário fazer uma diagonal mais atrasada para dar cobertura frontal. Dessa forma, o Sporting passava a estar em superioridade e mais preparado para ganhar a segunda bola.

Luis Guilherme Sporting x Rio Ave
Fonte: Duarte Rêgo / Bola na Rede

Sem bola, o Rio Ave também foi pressionando o Sporting através de um bloco médio/alto sempre que os leões tinham posse no seu meio-campo. Nesse sentido, a entrada de Luís Guilherme para o lugar de Geny Catamo poderá ter passado precisamente pela linha subida do Rio Ave, já que o extremo brasileiro oferece maior capacidade para explorar as costas da defesa adversária.

A equipa leonina foi alternando entre procurar jogo interior e explorar os corredores laterais. Ainda assim, em resposta ao Bola na Rede, Rui Borges referiu que o Sporting estava a insistir demasiado no corredor central e que a bola precisava de circular mais pelos corredores. Tendo em conta que Nelson Abbey, quando a bola estava no lado contrário, fechava muito por dentro, acredito que os leões poderiam ter explorado mais o passe longo para o corredor oposto e beneficiar dessa menor vigilância a Luís Guilherme. Já pelo lado esquerdo, o Sporting conseguiu ativar muito bem o corredor através das projeções de Maxi Araújo e Pedro Gonçalves, criando várias oportunidades para visar a baliza de Cezary Miszta. No entanto, no processo defensivo, Pedro Gonçalves revelou algumas dificuldades nos saltos à pressão durante a primeira parte.

Com o Rio Ave organizado defensivamente em 4-2-3-1, Tamble Monteiro surgia sozinho na primeira linha de pressão, enquanto Jalen Blesa se preocupava mais em fechar a linha de passe para Daniel Bragança ou Morita em corredor central. Dessa forma, acredito que os centrais do Sporting poderiam ter conduzido mais bola, até porque conseguiam ultrapassar a primeira linha de pressão com relativa facilidade e criar superioridade a partir do momento em que Gonçalo Inácio ou Ousmane Diomandé recebessem de frente.

Falando de Diomandé, é um central de enorme competência e com uma capacidade física tremenda. Contudo, na minha perspetiva, tende por vezes a não acelerar tanto a circulação em fase de construção. Não sendo um jogador com as características de Gonçalo Inácio, penso que pode arriscar mais no passe vertical e ser mais rápido na tomada de decisão. Isto porque o Sporting encontra rapidamente vários elementos pare receber, seja em corredor central, seja na largura, muito devido à mobilidade que Rui Borges coloca na equipa.

Luis Suárez Sportigng x Rio Ave
Fonte: Duarte Rêgo / Bola na Rede

Em alguns momentos, o Sporting procurou colocar Luís Guilherme mais baixo na construção, por vezes em dupla largura com Eduardo Quaresma, enquanto Francisco Trincão aparecia em diagonal no lado direito e arrastava a marcação de Nelson Abbey. Dessa forma, Luís Guilherme foi tendo espaço para transportar bola sozinho, até porque os dois médios do Rio Ave tinham maior dificuldade em fechar a largura devido às distâncias que precisavam de percorrer.

Um dos jogadores do Sporting que mais explorou a linha subida do Rio Ave foi Luis Suárez. O avançado acabou por conquistar uma grande penalidade em campo aberto e converteu ao minuto 35’, restabelecendo a igualdade na partida. Ao minuto 42’, o Sporting passou para a frente do marcador, depois de Gustavo Mancha protagonizar um momento infeliz ao atrasar mal a bola para Cezary Miszta.

Na segunda parte surgiu nova contrariedade para o Rio Ave, que viu Francisco Petrasso ser expulso aos 52 minutos por acumulação de cartões amarelos, deixando os vilacondenses reduzidos a dez unidades. O Sporting aproveitou a superioridade numérica e dilatou a vantagem por intermédio de Francisco Trincão, com um remate colocado aos 67 minutos. Ryan Guilherme também acabou expulso ao minuto 85’ e Geovany Quenda fechou as contas do encontro ao fixar o 4-1 final.

Com este triunfo, e aproveitando o empate do Benfica frente ao Braga, a equipa de Rui Borges voltou a subir ao segundo lugar da Primeira Liga e está novamente dependente de si para garantir os lugares de Champions League. Já o Rio Ave melhorou claramente neste final de época. Depois das saídas de André Luiz e Clayton, poderia esperar-se uma quebra mais acentuada da equipa vilacondense, mas Sotiris Sylaidopoulos tem conseguido tirar proveito das características dos reforços, sobretudo no processo ofensivo.

Rodrigo Lima

Rui Borges Sporting
Fonte: Duarte Rêgo / Bola na Rede

BnR na Conferência de Imprensa

Bola na Rede: O Rio Ave conseguiu várias vezes sair desde trás com qualidade e ligar o jogo nos avançados. Pergunto-lhe que papel tiveram os quatro homens mais adiantados da equipa nesse processo?

Sotiris Sylaidopoulos: Sabíamos que o Sporting, a maior parte das vezes, pressiona HxH. Nesse sentido queríamos colocar os defesas centrais numa posição desconfortável e acho que o conseguimos fazer muito bem com os posicionamentos do Jalen Blesa e do Tamble Monteiro. Nesse sentido, queríamos ter opções como também atacar o espaço com os nossos extremos ou jogar curto, caso os centrais não fossem atraídos. Sinto que estivemos muito bem nessas dinâmicas e o Sporting teve algumas dificuldades na nossa construção. Mas, para mim, se analisarmos os últimos três/quatro jogos, só falta a decisão final ou a chegada para finalizar a ação dentro da área porque temos criado várias oportunidades. Sinto que, na primeira parte, mesmo com o 1-2, a equipa estava muito competitiva, podíamos ter marcado. Isto é o que nós queremos ver na nossa equipa e é como eu quero ver a minha equipa jogar. Quero que a equipa tome riscos mesmo na construção e se analisares o nosso processo e o progresso que temos tido nos últimos meses, estou satisfeito com essa evolução. Mas não posso ficar só satisfeito com as exibições, também preciso de ficar satisfeito com os resultados.

Bola na Rede: Na primeira parte, o Rio Ave procurou explorar o 4×4 e a igualdade numérica com os defesas do Sporting através do jogo direto. Pergunto-lhe de que forma tentou contrariar essa dinâmica, sobretudo quando o Tamble ou o Blesa baixavam no terreno? E pergunto-lhe também se considera que o Sporting poderia ter explorado mais as conduções de bola dos centrais, tendo em conta que o Tamble pressionava sozinho na primeira linha e o Blesa estava mais preocupado em fechar a linha de um dos médios do Sporting.

Rui Borges: Sim, essa última parte, mais do que a condução, nós facilmente quebramos a pressão do Rio Ave e sabíamos que íamos conseguir quebrá-la facilmente. Até pelos nossos dois centrais, pelo guarda-redes, porque eles faziam a pressão a um homem e era facilmente batida nesse sentido. Numa fase inicial do jogo, estávamos a exagerar no jogo interior, mesmo com homens livres. Tínhamos espaço, mas falhámos aqui ou ali alguns passes e não tínhamos essa necessidade. Poderíamos fazer a bola andar a correr mais por corredores e depois sim, atrair dentro, ou atrair dentro e sair fora, porque havia espaço dentro e fora. Numa fase inicial insistimos demasiado no jogo interior e perdemos algumas bolas. Depois, o Rio Ave, em transição, é fortíssimo, nós sabíamos disso e criou-nos algumas transições perigosas. Na primeira parte da tua pergunta, sobre o 4×4, nós sabíamos que íamos bater o 4×4. Nós tentámos ajustar ali a meio da primeira parte e o Morita acaba por ganhar duas ou três bolas nesse sentido, porque nós sabíamos bem o que é que o Rio Ave fazia: ia esticar a primeira bola e, quando a bola do Rio Ave ia direta do redes ou de central para central e nós acionávamos a pressão, os nossos dois médios não precisavam de estar os dois expostos à referência, porque eles não procuravam os médios. Então, um dos médios tinha de estar na cobertura frontal dos centrais, precisamente por isso, pelo aproximar de um avançado, e tínhamos sempre essa superioridade. Numa fase inicial, e por termos sofrido o golo cedo, a equipa ficou ansiosa e queria pressionar as referências e focou-se muito só nas referências, e fomos facilitando nessas coberturas. Ao intervalo, tentámos ajustar e, no início da segunda parte, conseguimos fazer isso, só que depois ficámos logo em superioridade numérica e acabámos por controlar o jogo do início ao fim. Mas era só mais as coberturas dos médios andarem mais nas costas um do outro. O médio do lado contrário à bola vir só à diagonal do outro médio, atrasada, e dava a cobertura frontal. Ajustávamos e isso ajudava muito a linha defensiva e íamos ganhar muitas segundas bolas. Mesmo perdendo o primeiro duelo, ganhávamos o segundo momento. Era um ajustamento simples, mas que demorou a ajustarmos.

Rodrigo Lima
Rodrigo Limahttp://www.bolanarede.pt
Rodrigo é licenciado em Ciências da Comunicação e está a frequentar o mestrado em Gestão do Desporto. Trabalha na área do jornalismo desportivo, com particular interesse pela análise de futebol.

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