Gonçalo Alves, treinador da equipa feminina do Metta, da Letónia, prestou declarações ao Bola na Rede onde fez a antevisão da final da Taça de Portugal feminina.
A final da Taça de Portugal feminina entre Benfica e FC Porto promete ser um marco histórico. Em declarações ao Bola na Rede, Gonçalo Alves, treinador do Metta (Letónia), perspetivou o embate, atribuindo o favoritismo à experiência das águias, mas deixando alertas para a irreverência do trajeto portista:
«O Benfica parte como favorito, porque tem, no passado recente, maior historial no futebol feminino. Tem jogadoras portuguesas e internacionais habituadas a jogos importantes e decisivos. O FC Porto apresenta um plantel com diferentes características, um plantel jovem, com jogadoras que querem aparecer e aqui também destaco jogadoras com alguma experiência de Liga BPI e com alguma relevância na época do FC Porto. A equipa portista, nesta edição da Taça de Portugal, já eliminou duas equipas da Liga BPI e isso mostra que tem nível de Liga BPI, mas o encontro com o SL Benfica vai ser o maior teste desta época. Como tal, para mim, a equipa ‘encarnada’, com todas as características que já referi, parte como favorita».
Sobre a ascensão da equipa azul e branca até ao jogo de atribuição do troféu, Gonçalo Alves destacou o enorme peso que esta presença terá na dinamização e mediatização do futebol feminino:
«É um impacto social porque vai dar ainda mais visibilidade ao futebol feminino em Portugal. A cidade do Porto, a região norte, vai viver dérbis no futebol feminino. Vai ser interessante perceber como é que a cidade se irá mover para esses dias. Será fantástico perceber se a equipa feminina do FC Porto jogará no Estádio do Dragão. Se tiver essa oportunidade, será certamente diferente, não só para as jogadoras, como para a equipa técnica, como até para os seus adeptos. Como será vivido um dia, por exemplo, de dérbi? Por isso destaco, para além do impacto do que é a competitividade, o impacto social desta subida ao escalão principal».
Passando pelas dinâmicas e pela identidade de jogo de ambas as formações, o treinador português fez um raio-X muito detalhado aos esquemas de construção e pressão apresentados pelos dois conjuntos:
«Em termos de identidade de jogo, o SL Benfica tem uma intencionalidade coletiva em construção, maioritariamente 2×1, em que vemos uma média (Pauleta ou a Beatriz Cameirão quando joga naquela posição) mais próxima das centrais. As outras duas jogadoras mais projetadas nos espaços interiores, com as extremas com mais amplitude, e vemos mais isso na direita com a Lúcia. Algumas vezes utilizam o 2×2, com a média Anna Gasper a baixar, juntamente com a Pauleta. Sempre que estão em construção, a defesa lateral oposta fica mais em zonas interiores, penso que seja para preparar o momento a seguir (transição ofensiva adversária). Quando chegam em zonas de criação, finalização, optam muitas vezes pelo cruzamento, e têm tido muito sucesso com esta tomada de decisão, colocam em zonas de finalização 3, 4, 5 jogadores, que são muito fortes a atacar bolas aéreas e a ganhar segundas bolas também. Por vezes, procuram movimentos de rotura, com a Caroline ou quem joga como extrema e avançada, muitas vezes existe trocas posicionais, mas o mapa posicional Com Bola é igual. Destacar também que no top das assistências, das jogadoras que têm mais assistências são as que efetuam os cruzamentos, que são as que jogam por fora. Em estrutura, sem bola, apresentam uma última linha de 4 jogadoras, muitas vezes uma linha média com duplo pivô, pressionam com a avançada e com mais uma jogadora, seja em marcação individual à 6 adversária, ou então efetuam pressão 1+1 com extrema a pressionar a defesa central oposta. Penso que o FC Porto terá alguma oportunidade para criar perigo em transições ofensivas, é o momento em que a equipa do SL Benfica tem mais debilidades. A equipa portista apresenta semelhanças à do SL Benfica na forma de construir, apresenta um 2×1, com a 6 muito próxima das centrais, mas aqui com uma variante que, tal e qual como a equipa masculina do FC Porto, muitas vezes constroem também com as laterais por dentro. Tentam ligar o jogo com a solução frontal, preferencialmente com a sua Avançada (Lily) que baixa em apoio. Em zonas de criação, procuram o atacar espaço entre a última linha defensiva adversária e guarda-redes com muitos movimentos de rotura por parte das médias e sobretudo da avançada. Em zonas de criação procuram 1×1 através das suas extremas que jogam de pé contrário, por vezes trocam as extremas de lado para originar mais cruzamentos, como foi contra o Clube Futebol Benfica. Sem bola, defendem em 4x4x2 em estrutura, primeira linha de pressão muito agressiva, procuram ser protagonistas neste momento também».
Relativamente aos aspetos estratégicos que poderão decidir a final de domingo, o timoneiro do Metta anteviu uma verdadeira batalha, apontando as transições e as bolas paradas defensivas como os momentos-chave da partida:
«Resta saber que tipo de abordagem o FC Porto vai apresentar. Porque é um jogo diferente, é um adversário diferente e a adversidade vai ser muito maior e o SL Benfica é muito pressionante e com jogadoras com uma grande capacidade de ganhar duelos. Em termos táticos, o FC Porto pode aproveitar os momentos de transição ofensiva como já referi, nas bolas paradas defensivas, especialmente os livres laterais, o SL Benfica sofreu alguns golos neste momento e evitar, ao máximo, a realização de cruzamentos. Da parte do Benfica, tem de estar preparado para ter uma primeira pressão contra um 2+1 e contra os laterais por dentro 2+3 . Que tipo de pressão o treinador do SL Benfica irá realizar com esta variante de construção do FC Porto e se o Futebol Clube do Porto irá adotar esta abordagem com bola contra o SL Benfica. Vai ser extremamente interessante perceber que tipo de dinâmicas com bola o FC Porto vai jogar, por exemplo, o 2×1 ou o 2×3 com as duas laterais por dentro, se não resultar, se vai ter um plano B para manter a sua intencionalidade coletiva, o seu jogar ou irá ter um plano de jogo com outra forma de construir. Vai ser muito interessante esta disputa tática entre estas duas formações».
Quanto aos setores e individualidades capazes de desequilibrar a balança, Gonçalo Alves previu um jogo muito animado no plano ofensivo e listou os principais perigos de cada lado:
«O setor ofensivo de ambas as equipas têm jogadoras, ao nível individual, tem um leque de jogadoras com uma capacidade técnica, física acima da média, claramente que vai ser um jogo com golos. No FC Porto destaco as atacantes Lily, Cristina Ferreira, Maria Ferreira e a Lara, estas jogadoras que mencionei são fortes nos duelos com bola, ataque ao espaço e na finalização, já no setor intermédio que têm uma enorme participação no momento ofensivo, destaco a Eliza Turner e a Maria Negrão pela qualidade que dão à equipa neste momento. Já no SL Benfica, destaco claramente o setor ofensivo com a Diana Silva, a Nycole, a Caroline, a Martín-Prieto e também a influência da Anna Gasper, que aparece muitas vezes em zona de finalização para servir ou para finalizar. A Pauleta tem grande influência na forma como controla os ritmos de jogo da equipa».
A rematar, o treinador português sublinhou que este duelo de gigantes elevará necessariamente a fasquia da competitividade interna, assinalando um ponto de viragem vital para o futebol feminino:
«Esta final marca o início de uma mudança, de uma nova era no futebol feminino português. Esta final, disputada por SL Benfica e FC Porto, ajuda a elevar o mediatismo, ajuda a que este jogo seja falado por toda a gente. Representa uma nova era para o futebol feminino não só em termos sociais, como também em termos de competitividade interna, porque é uma Liga que precisa de ter isso. O SL Benfica precisa de ter mais adversidade e acho que todos ganham com isso, desde as nossas jogadoras, as equipas técnicas ganham e os clubes ganham. Para além de considerar que até mesmo em termos do que é neste momento a imprensa escrita, acredito que vai haver um boom muito grande em termos de visualizações, artigos e entrevistas. Considero que a empresa escrita e digital vai acompanhar com muito mais interesse a primeira liga portuguesa. Não só por ter o FC Porto na competição, mas também porque considero que o nível será muito superior ao das épocas passadas, as restantes equipas serão mais fortes. É mais um clube que vai dar condições a que hajam mais jogadoras profissionais, a profissionalização da 1.ª Divisão portuguesa feminina é fundamental para elevar a competitividade interna dentro e fora de campo».



