No verão de 2025, chegou à invicta um treinador italiano cujo historial recente suscitava algumas dúvidas nos adeptos portistas. Ao serviço do Ajax, Francesco Farioli viu uma vantagem de nove pontos para o PSV esfumar-se em apenas cinco jornadas e o título neerlandês a fugir para os rivais de Eindhoven.
O desaire da formação de Amsterdão não apagou, ainda assim, a ascensão vertiginosa do jovem treinador, que contava com passagens pelo futebol turco e pelo Nice. Depois da aposta falhada em Martin Anselmi, André Villas-Boas voltou a apostar num técnico jovem, desta vez com mais foco no domínio da posse de bola, na construção de jogo paciente e na ocupação racional dos espaços.


As ideias defensivas de Farioli não foram propriamente disruptivas para a equipa da invicta, mas a maneira como foram aplicadas pelos elementos em campo foi notável. Uma boa coordenação e elevada intensidade logo após a perda da bola permitiram ao FC Porto recuperar o esférico ainda em posição alta no terreno e foram fatores cruciais para o registo de defesa menos batida da Primeira Liga.
O regresso ao 4-3-3, esquema tático de boa memória para os dragões, voltou a transformar os “alas” em defesas laterais e a puxar o médio mais recuado para perto dos centrais, possibilitando uma saída de jogo bem apoiada. No meio-campo adversário, foi frequente a chegada dos laterais a espaços mais interiores, ajudando a criar superioridade numérica e arrastando marcações para possibilitar situações de um para um por parte dos extremos.
Por sua vez, os extremos jogam abertos, obrigando a linha defensiva adversária a abrir. Os médios interiores (com Froholdt como figura em nítido destaque), variam entre receber a bola entre linhas ou atacar a última linha defensiva, de forma a criar espaços ou receber para finalizar.
Na altura da sua lesão, Samu aproximava-se cada vez mais do estilo de jogo pretendido por Farioli para o seu camisola nove. O ponta-de-lança espanhol desenvolveu capacidade de jogar de costas para a baliza e proteger o esférico para depois rodar sobre o seu marcador ou passar. Com Samu e De Jong afastados, Farioli teve o mérito de agarrar a liderança do campeonato, mesmo com os novos donos da posição de ponta-de-lança a não demonstrarem o mesmo nível exibicional.
A influência de Roberto de Zerbi, com quem trabalhou no Benevento e no Sassuolo, está bem vincada nas ideias de Farioli que parece ter conseguido criar uma versão pragmática do futebol praticado pelo seu mentor e compatriota. De uma forma geral, o FC Porto aplicou menos bolas diretas (tanto cruzamentos como bolas longas vindas da defesa), transições ofensivas menos sôfregas e mais criteriosas e, acima de tudo, um esforço contínuo para desposicionar a defesa e aplicar o passe disruptivo apenas no momento certo.
Formado em filosofia, Farioli teve um impacto que ultrapassou o futebol propriamente dito. O aspeto mental foi muito bem trabalhado ao longo da época e uma resiliência acima da média por parte dos jogadores transformou muitas vezes exibições mais fracas em três pontos. A capacidade lidar com o inesperado e de comunicar as soluções encontradas aos seus jogadores são características realçadas por todos os que já trabalharam com o técnico campeão nacional.
Terminada a temporada 2025/26 para os dragões, espera-se um bom entendimento entre Farioli e a direção portista no que toca aos reforços para a próxima temporada. As ideias táticas deverão manter-se, mas o ataque ao bicampeonato e a uma boa prestação na Champions League dependerá muito da construção do plantel, que apresentou algumas lacunas na época que agora finda (principalmente quando as lesões começaram a surgir).

