Será que é desta que vai dar Portugal ou não? É a pergunta que milhões de portugueses fazem, à medida que as caravelas portuguesas seguem novamente para a América, naquele que será, provavelmente, o último mundial de Cristiano Ronaldo.
Portugal deu um salto qualitativo em termos de talento individual de há uns anos para cá e desfruta de um par de gerações de ouro ao mesmo tempo que vê as suas camadas jovens a serem campeãs europeias e mundiais. O mote não pode ser outro: Portugal é uma seleção candidata a vencer toda e qualquer competição em que participe.
Entenda-se, ‘candidata’ é a palavra-chave aqui, até porque há uma distinção entre ser candidato e favorito a vencer um troféu. Considero Portugal um candidato por ter o mínimo de competência necessária para conquistar o troféu, mas creio que a Espanha é uma das seleções mais prováveis a fazê-lo.


Nesse prisma, uma equipa candidata à vitória é uma equipa que consiga atingir, na competição em questão, os quartos de final do torneio de forma consistente e limpa. Como os quartos de final determinam quem são as oito melhores equipas do torneio, qualquer uma destas tem possibilidades de vencer, uma vez que a diferença entre as equipas é cada vez menor e mais decidida nos detalhes. Isto não quer dizer que todas as seleções que cheguem aos quartos de final tenham hipóteses concretas e sustentáveis de vencer a prova ou que todas estejam exatamente no mesmo pé de igualdade, mas sim que abre um caminho claro até à final, onde o coração e a cabeça falam da mesma maneira.
Uma equipa favorita à vitória, na minha ótica, tem uma definição menos curvilínea e muito mais concreta. São os grandes nomes da competição. Até considero que este Mundial em específico só tem dois grandes favoritos: Espanha e França, pois são as seleções que juntam melhor qualidade coletiva, no caso espanhol, e a maior panóplia de talento, no caso dos franceses. Há, contudo, uma grande diversidade de candidatos: Portugal, Inglaterra, Brasil, Argentina e Alemanha.
Trocando por miúdos, e digo-o com toda a convicção que estou enganado e que vou meter a viola no saco a meio de julho: Portugal é uma seleção de nível quartos/ meias-finais de Mundial. Em boa verdade, isto não é nenhuma crítica à seleção das quinas ou uma tentativa de mandar abaixo o coletivo – ser uma seleção de quartos/ meias-finais de Mundial quer dizer que Portugal está entre as oito/ quatro melhores seleções do mundo, o que não é, de todo, mau. Trago é a conjetura que há a sensação que a seleção portuguesa é melhor do que aquilo que na realidade é.


Naturalmente, há pontos positivos na seleção das quinas: Diogo Costa é um guarda-redes bastante competente e promissor na sua posição. Nos corredores, Nuno Mendes é, argumentavelmente, o melhor lateral esquerdo do mundo e, apesar de já terem passado os seus melhores anos, João Cancelo ainda faz parte da elite do futebol.
Já no meio-campo encontramos o ouro de Portugal: João Neves, Vitinha e Bruno Fernandes dispensam apresentações, para não falar de Bernardo Silva e até de João Félix, que se fizer um mundial ao mesmo nível do resto da sua temporada, pode muito bem voltar à Europa na próxima temporada. Ainda, as segundas linhas da convocatória não destoam por completo o nível de talento português, sendo possível manter o nível médio da equipa conforme se muda o onze inicial.
Por outro lado, faltam alguns argumentos a Portugal para subir o nível – à partida, a dupla de centrais será o ponto fraco da equipa. Gonçalo Inácio, Tomás Araújo e Renato Veiga não são maus defesas centrais, mas o seu nível está longe do que é necessário para ser campeão mundial. Ruben Dias pedia um central de maior calibre, ainda que o próprio não seja exímio. O mesmo discurso aplica-se aos nossos extremos, e mesmo por isso concordo com a tese de que Portugal beneficiaria de jogar em losango, com a largura a ser providenciada pelos laterais.
Por fim, perante o facto de que Cristiano Ronaldo já perde a corrida contra o tempo e a consequência da idade, falta um ponta de lança unânime enquanto dos melhores do mundo, que possa suceder ao capitão. Isto não invalida que os restantes pontas de lança têm qualidade e características pertinentes ao futebol moderno, pelo que mereciam uma utilização e rotação diferente da atual.


Bem sei que, na teoria, um meio-campo composto por Vitinha-João Neves-Bruno Fernandes é razão para entusiasmo e subscrevo que em grande parte dos jogos serão fundamentais. Não deixemos, no entanto, de analisar características dos jogadores apenas pelo nome – consigo imaginar meio campos agressivos que coloquem muitos desafios e dificuldades a este trio; à cabeça, Holanda e Inglaterra. Coloco ainda a dúvida se este meio-campo ganharia uma batalha técnica contra a Espanha ou contra um meio-campo que junta estas duas características, como o argentino.
Confesso que gostava de ver esta seleção em losango, reunindo os jogadores mais criativos e associativos no miolo do campo, juntando um avançado de área e um avançado móvel (como Rafael Leão ou Gonçalo Guedes) com missão conjunta com os laterais de atacar o espaço. Roberto Martinez já descartou essa ideia e deverá manter o sistema, oscilando entre os três centrais e uma linha de quatro, jogando sempre com extremos.
Em tom objetivo, estamos a olhar para uma boa seleção, de nível quartos final de Mundial, sendo candidata a vencer a competição, mas não sendo favorita. O plantel português é melhor na teoria do que na prática e os jogos de preparação dizem, ironicamente, que não estamos preparados para o Mundial e que esta não é a melhor maneira de potenciar os nossos jogadores.
Por outro lado, há que lembrar as palavras de Renato Paiva antes de ter servido 90 minutos de samba ao campeão europeu: o cemitério do futebol está cheio de favoritos.
Se vai dar Portugal? Hoje digo que não, mas a resposta é sempre diferente quando toca ‘A Portuguesa’.

