Em entrevista ao Bola na Rede, Bruno Romão analisou a seleção de Cabo Verde, que participa pela primeira vez num Mundial.
Bola na Rede: Cabo Verde estreia-se amanhã num Mundial. O que representa este evento para o povo cabo-verdiano e quais as tuas expetativas?
Bruno Romão: Esta qualificação representa já uma viragem no desenvolvimento do futebol cabo-verdiano, sobretudo no desenvolvimento do trabalho das seleções. Há um trabalho que a Federação tem feito em conjunto com os clubes de grande promoção daquilo que é o jogador cabo-verdiano que está na Liga Nacional agora. Os clubes da Liga cabo-verdiana têm recursos diferentes daquilo que são outras potências africanas e isso leva a que o desenvolvimento seja mais lento e tenha muitos mais desafios. Agora, em termos daquilo que é a seleção no contexto africano, Cabo Verde é uma seleção forte e isso fica provado pelo que têm sido as qualificações para a CAN, agora esta qualificação para o Mundial. Acho que não estamos a falar tanto de afirmação, estamos a falar sobretudo num trabalho de consistência da Federação, dos selecionadores, do selecionador atual que está a fazer um trabalho brilhante. Portanto, cabo-verde neste momento apresenta-se como uma seleção forte do futebol africano.
Bola na Rede: Acreditas que esta qualificação pode ser um ponto de viragem no desenvolvimento do futebol do país? Cabo-Verde pode se vir a tornar uma potência africana?
Bruno Romão: A participação da seleção neste Mundial representa muito para o povo cabo-verdiano. Estamos a falar de um arquipélago de nove ilhas que tem muitos, muitos imigrantes fora e, um pouco à semelhança de Portugal, cuja participação internacional reflete uma viagem da cultura e da identidade do próprio país. Isso também terá impacto com certeza na receita turística do país, portanto há aqui todo um impacto cultural, económico, também de orgulho e identidade nacional que é que é muito importante para o país. As minhas expectativas relativamente à participação de Cabo Verde é que faça aquilo que tem feito internacionalmente. É uma seleção que não luta nem de perto nem de longe com os mesmos recursos dos outros rivais, sobretudo africanos, naturalmente, mas que tem sido muito competitiva em todos os jogos, vai ter uma estreia difícil contra a Espanha, mas aquilo que espero é que Cabo Verde consiga espalhar aquilo que é o seu futebol, a sua qualidade e de alguma forma a magia cabo-verdiana.
Bola na Rede: Quais as principais características da seleção de Cabo Verde? Há algum jogador que acreditas poder surpreender quem acompanha pouco o futebol africano?
Bruno Romão: A principal característica da seleção de Cabo Verde tem a ver com a ser competitiva como um todo. E quando digo como um todo, é como família, é como grupo, é como o conjunto entre os jogadores e o staff e aquilo que toda esta gente consegue girar junta. É uma seleção muito equilibrada, tem um lote muito equilibrado. Na minha opinião, não há muitos jogadores que se destaquem porque todos estão a um nível muito, muito semelhante. E o conjunto destes jogadores com essa fome de fazer melhor, com esse orgulho de representar a seleção é, na verdade, para mim, o grande ponto forte. Em termos de futebol, é uma seleção que gosta de ter bola, é uma seleção que também sabe defender quando é preciso e que, quando também precisa de jogar mais para transições, também o faz com qualidade.
Bola na Rede: Que aspetos da Espanha podem ser explorados por uma seleção como Cabo Verde e como prepararias um jogo desta dimensão?
Bruno Romão: O perfil de jogo da Seleção Espanhola é bastante diferente daquilo que é a Seleção Cabo-verdiana. Nós estamos a projetar um jogo em que muito provavelmente a Espanha vai ter controle e vai estar em ataque posicional. Dentro deste perfil esperado de jogo, parece-me que Cabo Verde vai procurar explorar as transições, vai defender compacto, fechar espaços. Saber sofrer será fundamental, não cometer erros é importante neste primeiro jogo. E depois explorar algumas dificuldades de transição defensiva que a Espanha tem, sobretudo com a velocidade dos centrais. Estes parecem-me ser os pontos fundamentais para este jogo.
Bola na Rede: O que falta às seleções africanas para conseguirem competir regularmente com as potências mundiais?
Bruno Romão: As seleções africanas têm muito talento. Aquilo que temos inclusive verificado nesta qualificação para o Mundial, nestes jogos amigáveis, perto da competição, é que vemos seleções competitivas, fruto também do trabalho dos seus selecionadores e das estruturas mais organizadas. A evolução do futebol africano e das seleções africanas tem muito a ver com as estruturas federativas serem capazes de manter trabalhos estáveis e de ter selecionadores que tenham uma visão a longo prazo, mas ao mesmo tempo que procurem ter um perfil de resultado e que procurem atingir estas qualificações. Talento existe, o jogador africano é um jogador de imensa qualidade, a maior parte dos jogadores das seleções africanas estão no Mundial, jogam na Europa e muitos, uma larga percentagem, tem um nível muito alto, portanto a qualidade não é um problema. Aquilo que falta muitas vezes é estabilidade, é estabilidade nestes projetos de seleção, não tanto a dois anos, mas mais a quatro anos, para que os resultados possam aparecer de forma consistente.



