Há jogadores que marcam uma geração. Há jogadores que marcam uma época. E depois há aqueles raríssimos casos que transcendem tudo isso e acabam por marcar a própria história do desporto. Lionel Andrés Messi pertence a essa última categoria.
À data da redação deste artigo, Messi completa 39 anos. E, ironicamente, continua a fazer aquilo que fez durante toda a vida: desafiar a lógica e a máquina do tempo.
Enquanto o futebol continua a procurar o próximo Messi, o verdadeiro Messi continua a jogar. Continua a decidir. Continua a marcar. Continua a encantar.
Cinco golos em apenas dois jogos neste Mundial de 2026. 18 golos no total em Campeonatos do Mundo. Melhor marcador da história da competição mais importante do futebol mundial. 26 (!) participações em golos com 18 golos e oito assistências, superando os números estratosféricos do rei Pelé. E quem sabe quantos mais ainda estarão para chegar até ao final desta Last Dance.
Os números de carreira impressionam. 916 golos e 414 assistências no total, são números absurdos e que revelam bem a sua influência no jogo das equipas que representou durante mais de 20 anos como futebolista profissional. Mas com Leo Messi, os números nunca foram suficientes para explicar aquilo que ele é. Porque a história de Leo não começa nos golos. Começa num pequeno rapaz de Rosario.
Um menino tímido com mutismo selectivo. Apaixonado por uma bola, que foi sempre como melhor se expressou. Um menino que teve de lidar com dificuldades que poderiam ter aniquilado o sonho de qualquer criança. O diagnóstico de défice da hormona do crescimento parecia uma sentença para alguém que sonhava ser futebolista profissional.
O tratamento era caro. A incerteza era enorme. E durante algum tempo ninguém sabia se aquele talento extraordinário conseguiria sequer ter um corpo capaz de acompanhar aquilo que a sua mente imaginava.
Mas o futebol, às vezes, também sabe recompensar os escolhidos. O Barcelona abriu-lhe as portas. A família atravessou o Atlântico, tendo o pequeno Leo apenas 13 anos de idade. E o resto tornou-se uma das histórias mais extraordinárias que o desporto já conheceu.
Vieram os golos. Vieram os títulos. Vieram as Bolas de Ouro. Vieram as Ligas dos Campeões. Vieram as noites mágicas em Camp Nou. Vieram os slaloms impossíveis. Vieram as assistências que mais pareciam obras de arte. Veio aquele pé esquerdo que parecia ter sido desenhado por um poeta e não por um ser humano.
Mas vieram também as críticas. Críticas muito ferozes, ao ponto de Messi ter entrado uma vez em plena emissão de uma estação de rádio argentina para dizer que o seu filho chorava muito porque não entendia porque “matavam” o seu pai no país que ele tanto amava.
Talvez mais nenhum outro craque da história recente do futebol tenha recebido críticas tão destrutivas. Durante anos, uma parte significativa da Argentina acusou-o de não ser suficientemente argentino. De não cantar o hino. De não sentir a camisola. De não ser Maradona. Cada derrota era transformada numa acusação. Cada final perdida tornava-se um julgamento público. Cada lágrima era analisada até à exaustão, sendo que naquele momento Leo Messi não se sentiu com mais forças e decidiu retirar-se da selecção.
Poucos jogadores carregaram um peso emocional tão grande. Porque o problema nunca foi aquilo que Messi fazia. O problema era aquilo que as pessoas queriam que ele fosse. Queriam um novo Maradona.
Mas Messi nunca quis ser Maradona. Quis apenas ser Messi. E acabou por conseguir algo ainda mais difícil. Criou o seu próprio lugar na história.
A Copa América de 2021 (emocionante aquela imagem de Messi sentado a falar em videochamada com a sua mulher e os seus filhos num estádio completamente vazio por causa da pandemia) mudou muita coisa.
O Mundial de 2022 mudou tudo. Aquela caminhada no Catar não lhe deu apenas um troféu. Deu-lhe paz. Deu-lhe reconhecimento. Deu-lhe o amor incondicional do seu povo que sempre amou com toda a sua alma, amor esse que nunca o fez hesitar por um segundo em representar as cores alviceleste, apesar das várias tentativas que a federação espanhola fez para que o mago argentino mudasse de ideias.
A conquista desse tão desejado troféu do Mundial, deu-lhe aquilo que faltava para que a discussão eterna encontrasse finalmente uma resposta.
Hoje já não faz sentido perguntar se Messi está ao nível de Diego Armando Maradona. A verdadeira pergunta é outra. Quantos jogadores na história estiveram ao nível de Lionel Andrés Messi Cuccittini? Muito poucos. Talvez nenhum.
Porque a sua grandeza nunca esteve apenas nos títulos. Nem nos golos. Nem nas assistências. Nem nos recordes (que nunca foram uma obsessão para La Pulga, que sempre colocou o seu incomensurável talento ao serviço do colectivo).
A sua grandeza está na capacidade única de fazer milhões de pessoas apaixonarem-se pelo jogo. De transformar um simples passe numa memória. De fazer adultos voltarem a sentir-se crianças (como este seu contemporâneo que lhe dedica estas palavras hoje). De nos obrigar a parar tudo durante alguns segundos para assistir a algo que nunca vimos antes. E talvez nunca voltemos a ver.
Ao longo dos anos, também eu fui muitas vezes acusado de ser anti-patriota por defender que Lionel Messi é o melhor jogador que alguma vez vi jogar futebol. Como se admirar a genialidade de um significasse necessariamente desvalorizar a grandeza do outro. Nunca significou.
Nunca retirei um único mérito a Cristiano Ronaldo. Pelo contrário. Sempre admirei a forma como reinventou o seu jogo, a disciplina quase sobre-humana com que prolongou a suacarreira ao mais alto nível e a capacidade extraordinária de competir durante quase duas décadas contra aquele que considero ser o melhor jogador de todos os tempos. Devemos apreciar a grandeza de ambos, desfrutar de uma rivalidade histórica e de dois génios do futebol mundial.
O simples facto de Cristiano ter conseguido ombrear durante tantos anos com Messi é, por si só, um feito que talvez nunca mais se volte a repetir na história do futebol. Mas gostar mais do jogo de Messi nunca foi um ato de desrespeito para com Ronaldo.
Foi apenas uma questão de sensibilidade futebolística. Porque enquanto Cristiano me impressionava, Messi fazia-me sonhar. E essa diferença, sendo totalmente subjetiva, acabou por moldar a forma como sempre vivi o futebol desde que me apaixonei por este desporto, sentado no colo do meu pai com apenas cinco anos e deliciando-me com a Dream Team do Barcelona de 1992, comandada pelo eterno Johan Cruyff, que revolucionou o futebol.
Não consigo desassociar a ligação emocional e estética que me conecta com o futebol de Messi. A forma como ainda desliza em campo, como pensa uns segundos antes de todos os demais, a maneira como cola a bola ao seu bendito pé esquerdo numa relação quase magnética e umbilical. A transcendência que ainda tem num futebol cada vez mais físico, só está ao alcance dos predestinados.
Por isso, este Mundial tem um sabor especial. A Argentina continua fortíssima. Tem talento. Tem profundidade. Tem qualidade suficiente para sonhar com o bicampeonato mundial, algo que não acontece desde o Brasil de Pelé em 1958 e 1962.
Mas continua também a depender daquele número 10. Daquele pé esquerdo. Daquele génio. Daquele homem que parece ter feito um pacto com o tempo. Porque enquanto os anos passam para todos os outros, para Messi parecem apenas acrescentar capítulos. Capítulos de uma história que ninguém quer ver terminar. E talvez seja precisamente por isso que este Mundial esteja a ser vivido de forma diferente.
Porque todos os que amam o seu futebol, somos conscientes de que estamos a assistir aos últimos capítulos de um jogador irrepetível.
Os golos acabarão. Os títulos acabarão. Os recordes acabarão por ser batidos. Mas aquilo que Messi nos fez sentir permanecerá para sempre. Porque os grandes jogadores ganham jogos. As lendas ganham títulos. Mas apenas os imortais conseguem conquistar gerações inteiras.
E Leo Messi é e será infinito no coração de quem o ama. Por isso, hoje, no dia em que completa 39 anos, só existe uma coisa que qualquer amante do futebol consegue pensar: ¡Que no te vayas nunca, Leo!

