A novela dos últimos tempos, recheada de reviravoltas, valores milionários e jogadas de bastidores, finalmente chegou ao fim. José Mourinho será mesmo treinador do Real Madrid, tornando-se o treinador mais caro da história dos merengues, com o Benfica a encaixar 15 milhões de euros.
Muito se pode debater sobre esta história, indo desde à postura de Rui Costa, às juras de amor de Mourinho, que duraram tão pouco como a estadia do português no Benfica. O Real Madrid bem esperou até finalizar a contratação de Mourinho.
Rui Costa ficou como coadjuvante da sua própria história, com uma postura mole perante as consecutivas investidas do emblema espanhol, que estava apenas à espera do resultado das eleições para anunciar o treinador português Eleições essas dignas de cinema, com Mourinho a anunciar, num vídeo alegadamente criado por inteligência artificial, que já teria dado o “sim” ao Real Madrid.


Rui Costa não se pronunciava, Marco Silva continuava em stand by e o Benfica encontrava-se num marasmo, sem uma aparente liderança, crítica muito apontada a Rui Costa. O presidente do Benfica fez a sua melhor interpretação de Pinóquio, qual marioneta nas mãos de Florentino Pérez, que para ser Don Corleone só lhe faltava o gato no colo. Rui Costa prometeu esclarecimentos, que nunca chegaram, e os dias foram passando sem respostas concretas aos adeptos.
O vencedor deste braço de ferro entre o Benfica e o Real Madrid, que durou largas semanas, é mesmo José Mourinho. Mourinho regressa a um gigante europeu, 13 anos depois, com o objetivo de organizar uma “casa a arder”. Ora, Mourinho não é conhecido pela sua paciência budista, antes pelo contrário. O treinador português é explosivo, de pulso firme, útil no momento de colocar egos de parte.
E fica a ideia que foi esse o principal objetivo da contratação de José Mourinho, por parte de Florentino Pérez, visto que o futebol apresentado pelo português tem estado aquém do seu estatuto de estrela. O emblema espanhol vive de títulos e de grandeza. Os adeptos estão habituados ao sucesso e uma seca de dois anos para um clube da dimensão dos merengues revela-se insuficiente.


Os dramas perseguiram os espanhóis na época passada. Desde balneários transformados em ringues da UFC à existência de uma petição a exigir a saída de Kylian Mbappé, justamente o melhor marcador da equipa, ainda assim não isento de críticas. Mourinho nunca fugiu de um bom confronto, Casillas e Pogba que o digam, o que não significa que seja a personalidade certa para atenuar os egos de Vini Jr. e do já referido Mbappé.
Já o Benfica, parece ter encontrado uma solução fiável em Marco Silva, que procura reestruturar um clube de grandes dimensões que tem andado à deriva, sem um líder ao volante. Mourinho chegou como o homem que levaria as águias a bom porto, com os holofotes virados para si e com uma massa adepta expectante para ver o Special One de regresso a Portugal. O saldo não é negativo, mas de positivo tem pouco. Mediano será o melhor adjetivo utilizado para descrever a passagem de Mourinho, que acaba invicto, mas em terceiro lugar.


Torna-se curioso e particular ver dois gigantes da história do futebol, tendo em conta a maior dimensão do Real Madrid, a enfrentar exatamente o mesmo problema: uma espécie de crise de identidade, ainda que com abordagens distintas na hora de a resolver. Mourinho chega de armas em riste, pronto para apagar os egos incendiários de um clube em brasa. Marco Silva surge com uma postura diferente, mais focada no futebol praticado e em aproveitar jogadores que, na época passada, foram mal utilizados pelas águias.
No final das contas, é cedo para determinar um vencedor claro desta novela. Mourinho ganha uma nova casa, recheada de luxo e regressa a um titã do futebol europeu. Rui Costa ganha um novo treinador, com visão de projeto e de continuidade, precisamente o que faltava ao Benfica. O presidente do Benfica livra-se de mais uma humilhação, mas já com poucos créditos perante os benfiquistas. O Real Madrid ganha uma cara conhecida, com currículo vasto de títulos e de polémicas, um gestor de egos com um ego como poucos.
Aguardamos ansiosamente os próximos episódios desta novela, que prometem ser de entretenimento puro, com Mourinho a poder tornar-se herói ou vilão dos merengues.

