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Da Venda Nova para o Mundo – Entrevista a David Mendes da Silva

Patrícia Ribeiro Fernandes · 8 min

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“Prefiro o pé direito e o lado esquerdo, à Simão!”

Silva, David para os amigos, carrega às costas o 10 no Banguecoque FC. Jogar na Tailândia está a ser uma das melhores experiências da sua vida, e o Bola na Rede aproveitou o facto de o extremo se encontrar em Portugal, devido a uma inusitada interrupção do campeonato tailandês, e foi com muita simpatia e boa disposição que nos contou como está a viver este momento da carreira e um pouco de todo o seu percurso.

 

Bola na RedeComo tudo começou?

David Mendes da Silva: “A minha história é engraçada! Comecei a jogar à bola com nove anos, joguei dois anos na Venda Nova, onde jogava sempre com os mais velhos, num escalão acima, mas a minha mãe resolveu que eu tinha de ser violinista e tirou-me do futebol. Ela detesta futebol!

Então parei de jogar completamente e só voltei aos 16 anos. Chateei a minha mãe e voltei a jogar no Fofó [Clube de Futebol Benfica]. Comecei a jogar com os juvenis mas também jogava com os mais velhos, com os júniores, e num desses jogos estava um olheiro do Estoril, que gostou de mim e me levou para esse clube. Fiquei lá dois anos e fui parar ao Porto. Foi tudo do nada, muito rápido. De violinista a jogador de futebol!

BnR: Acabou por ser uma rampa de lançamento, o Fofó… Depois do Porto?

DMS: Foi, foi, sem dúvida! Depois do Porto, fui para a Bulgária um ano e meio. Em termos monetários, foi dos meus melhores anos. Era uma equipa grande e foi uma experiência diferente. Estive no Lokomotiv Mezdra, seis meses, e depois fui contratado para o CSKA Sofia, que é o Benfica lá do sítio. Fomos duas vezes vice-campeões; tive muita pena de que não tenhamos sido campeões. Estava a correr bem mas depois mudou a direcção e o treinador do clube, e eu fui seis meses emprestado para Espanha. Foram seis meses muito bons. O futebol em Espanha também é muito bom. Dali fui parar à Escócia, onde fiquei dois anos. Foi uma grande mudança, do calor para o frio. Vivia ao lado da praia, em Espanha, e na Escócia lidava com graus negativos. Na Bulgária também era frio mas na Escócia nem era só pelo frio; era pela vida social também, que não existia. Estava sempre cinzento e a chover. É complicado viver assim.

BnR: A seguir, regressaste a Portugal…

DMS: Depois da Escócia voltei a Portugal, para o SC Olhanense. Fiquei uma época e correu bem também; foi a época em que fui chamado à selecção cabo-verdiana. No fim dessa época regressei à Escócia, fiquei lá seis meses e tive uma lesão um pouco grave no joelho, pelo que não joguei nos outros seis meses. Recuperei, fui para a Finlândia, e através de um treinador que me conhecia bem, pai de um colega meu, fui parar à Tailândia.

BnR: Grandes mudanças; experienciaste diversas realidades do futebol. De todas, qual foi a mais marcante?

DMS: Na Escócia foi muito complicado. Como já disse, eu não vivia; estava sempre de noite a partir das quatro da tarde. Na Bulgária era o clima, era bastante frio, mas a vida até era boa. Sófia é uma boa cidade mas, em termos de diferenças culturais, senti-as mais na Tailândia, claramente. Eles são completamente diferentes. Foi o maior choque que tive.

Fonte: Facebook Oficial de David Mendes da Silva
David Silva a festejar o seu golo frente à Académica de Coimbra
Fonte: Facebook Oficial de David Mendes da Silva

BnR: Já falamos melhor sobre a Tailândia. Estiveste na Escócia na 1.ª Liga e depois no Olhanense, 1.ª Liga portuguesa. Que diferenças sentiste entre estes dois campeonatos?

DMS: É diferente! Na Escócia há mais físico. É mais estilo de “guerra” do que em Portugal! Na minha opinião, cá há mais técnica e qualidade. Ao nível dos adeptos, na Escócia os estádios estão sempre cheios, não há um jogo que esteja vazio, estejam -10 graus ou -50 graus; isso não interessa. É Inglaterra em ponto pequeno. É um espetáculo para nós, jogadores; a motivação dispara.

BnR: Ainda no Olhanense, jogaste com os grandes? Qual a sensação?

DMS: Sim, joguei com o Porto, o Benfica e o Sporting. Consegui empatar com o Porto, perdi com o Sporting por 1-0, em Alvalade, e perdi com o Benfica por 2-0 e 2-1. Nunca ganhei a um grande mas também não perdi por muitos! Mas já vinha habituado a estádios cheios e a grandes ambientes na liga escocesa, por isso não senti muito esse impacto. Lá eles mentalizam-se mesmo de que o futebol é uma festa, e podem perder 5-0 que isso não interessa. Têm outra cultura. Cá em Portugal, toda a gente é do Porto, do Benfica ou do Sporting, e lá eles são do clube da sua cidade e apoiam incondicionalmente. É completamente diferente.

Foto de Capa: David Mendes da Silva

BnR: Agora, sim, a grande mudança de Portugal para a Tailândia. Queremos saber tudo.

DMS: Eu acho que, no geral, as pessoas têm a ideia de que lá estão muito atrasados, e não é bem assim. Em termos de futebol, talvez, mas, em termos de infraestruturas, nem pouco mais ou menos. Não vejo lá um estádio que seja pior que os de cá da Primeira Liga. Há equipas com muito, mas mesmo muito, dinheiro e investem bastante. Por exemplo, há um clube cujo estádio é uma réplica de Stamford Bridge. O presidente é louco pelo Chelsea e fez um igual.

Mas é a mesma situação no que toca às condições que dão aos jogadores. Noto é algum desleixo, próprio da cultura asiática. Preocupam-se em cima do acontecimento, e depois há aquela questão de que o Djaló já falou em n entrevistas mas que é verdade! Eu também não estava à espera de ter de lavar o meu equipamento mas já entendi que é da cultura deles. Não interessa se o clube é milionário ou não; é mesmo cultural. No final, já acaba por ser engraçado e útil porque no início da época dão-te um bom stock de equipamentos e tu vais gerindo. O que eu faço é ir lavando à semana. Habituas-te.

Outro factor complicado é a temperatura. Foi uma adaptação complicada para mim, ainda durante os primeiros dois meses. Estava habituado a jogar pela selecção, em África, onde também faz muito calor, mas na Tailândia é diferente; é muito húmido.

BnR: O campeonato é muito competitivo?

DMS: É competitivo, sim. Há duas equipas que são as melhores, as chamadas grandes, mas não é tanta a discrepância dos grandes para os seguintes, comparativamente ao campeonato português. É mais distribuído.

Voltar a representar a seleção dos "Tubarões Azuis" é um dos objetivos Fonte: Facebook Oficial de David Mendes da Silva
Voltar a representar a seleção dos “Tubarões Azuis” é um dos objetivos
Fonte: Facebook Oficial de David Mendes da Silva

BnR: E os adeptos?

DMS: São malucos por futebol. Desporto na Ásia é uma festa. Não percebo nada do que eles dizem mas eles estão sempre lá. Na rua metem-se comigo, tentam falar inglês e tailandês e eu português misturado com inglês, e lá nos entendemos minimamente.

BnR: Li que o campeonato terminou de repente, porque o rei morreu. O que é que se passou efetivamente?

DMS: Então, o rei morreu e o país parou completamente! Lá é assim. A Liga acabou três semanas antes do previsto; quem estava em primeiro foi campeão, quem estava para descer desceu. As Taças foram a sorteio; até houve uma Taça que as equipas nem quiseram sortear, por respeito ao rei, mas havia uma que dava acesso à Liga dos Campeões Asiática e tiveram de fazer sorteio. Os que estavam na segunda divisão, para subir, também tiveram de ir a sorteio. Enfim, é uma questão cultural. Eles ainda se estão a recompor, aliás.

BnR: A cidade de Banguecoque, que tal?

DMS: É uma cidade fantástica, incrível, mesmo! Ao início faz confusão. Quatro ou cinco pessoas numa mota, crianças inclusive, sem capacete, sempre a andar. Têm um acidente, perguntam se está tudo bem, e seguem viagem. Nada de seguros, nada de polícia, é surreal! É uma grande cidade, muito bonita e com boas praias, Pattaya, Krabi, Phuket, Phi Phi. Qualquer ilha é fantástica!

BnR: Quando regressas?

DMS: O campeonato estava planeado começar agora em Fevereiro mas foi adiado para Março, por causa da situação de que falámos, o rei. Estou à espera de que me informem para ir.

BnR: E a selecção? À espera da nona internacionalização?

DMS: A selecção é sempre uma grande aspiração, claro. Gostava de voltar; foi das melhores experiências da minha vida. É um orgulho enorme representares o teu país.

Foto de Capa: David Mendes da Silva

BnR: Conhecias bem um jogador da Chapecoense, o Filipe Machado. Como viveste e estás a viver esta perda tão trágica?

DMS: Conhecia-o muito bem. Jogámos juntos quase um ano, praticamente. Estávamos sempre juntos fora dos treinos e costumávamos reunir-nos aos fins-de-semana, em churrascos e convívios. Quando acordei e vi as notícias nem queria acreditar. Ainda no dia anterior tinha comentado com o meu irmão que tinha um amigo que ia disputar a final da Taça Sul-Americana, porque vi a foto que ele tinha posto no avião. Foi um grande choque. Ainda acreditei que ele estivesse entre os sobreviventes, mas depois tive a confirmação de que ele tinha sido uma das vítimas fatais, e foi muito complicado. Em conversa com a minha mulher, ela pôs-se no lugar da mulher dele, que nós conhecíamos bem, e não é nada fácil. Viajo muito também e fiquei uns dias a temer voos que tinha pela frente e a pensar nisso. Ainda para mais ele tinha uma filha. Eu também tenho filhos, e foi muito difícil de digerir.

BnR: No Olhanense e na selecção de Cabo Verde usavas a camisola sete, como um verdadeiro extremo. Agora, no Banguecoque, jogas com a dez. Há alguma razão especial para escolheres um número diferente?

DMS: Há uma razão especial, sim. É uma homenagem ao meu grande amigo Vic, que jogou no Benfica e no Belenenses também, e morreu a jogar à bola. Ele amava futebol! Nas minhas férias, jogávamos muitas vezes juntos na ART (Associação de Residentes de Telheiras) e estávamos sempre juntos. Eu nunca gostei do número mas ele era o 10 e, depois de falecer, passei a usá-lo por causa dele. Até tentei jogar com o nome dele na camisola mas a Tailândia é o único país do mundo em que tens de jogar com o nome do passaporte. Grande Vic!

Fonte: Facebook de David Mendes da Silva
Fonte: Facebook de David Mendes da Silva

 

David Silva tem dado nas vistas, na medida em que, recentemente, foi um dos nomes apontados entre os melhores jogadores estrangeiros da Primeira Liga tailandesa.  

Sempre de olhos postos nos Tubarões Azuis, sente-se feliz na Tailândia e é por lá que se vê pelos próximos anos.  

 

Perguntas e respostas rápidas:

BnR: Clube do coração?

DMS: Barcelona.

BnR: Jogador de eleição?

DMS: Ronaldinho; é de outro mundo.

BnR: Pé e lado preferido?

DMS: Pé direito, lado esquerdo. À Simão.

BnR: Ronaldo ou Messi?

DMS: Messi, com todo o respeito pelo jogador de alto nível que o Ronaldo é.

 

Foto de Capa: David Mendes da Silva

 

Patrícia Ribeiro Fernandes

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