Quando o árbitro apitou pela última vez, ninguém precisava de olhar para o marcador para perceber que a história deste Mundial estava escrita. Os jogadores da Espanha correram uns para os outros, abraçando-se como quem acabava de conquistar muito mais do que um troféu. Mais atrás, Lionel Messi permanecia imóvel durante alguns segundos. Depois baixou a cabeça, e posteriormente, vieram as lágrimas.
Naquele instante, o Mundial inteiro pareceu resumir-se a uma única imagem. De um lado, uma seleção que representa o presente e o futuro do futebol. Do outro, um homem que, durante duas décadas, redefiniu tudo aquilo que julgávamos possível fazer dentro de um relvado.
E talvez tenha sido precisamente por isso que este Campeonato do Mundo foi tão especial. Porque não contou apenas a história de um campeão. Contou dezenas delas.
Há Mundiais que se recordam pelos campeões. Outros pelos golos. Alguns pelas polémicas. Mas, de vez em quando, aparece um daqueles torneios que nos lembram porque é que, de quatro em quatro anos, o mundo inteiro pára para ver um jogo de futebol. O Mundial de 2026 foi um desses casos.
A Espanha acabou por levantar a taça, e fê-lo com inteira justiça. Não foi apenas a melhor equipa da competição. Foi aquela que mais acreditou nas suas ideias. Luis de la Fuente construiu um coletivo extraordinário, onde o talento individual existiu sempre em função da equipa.
Rodri controlou jogos como poucos médios conseguem fazê-lo. Pau Cubarsí confirmou que nasceu para os grandes palcos. Os laterais Pedro Porro e Marc Cucurella completaram um Mundial excecional. Unai Simón sofreu apenas um golo (!) em toda a prova.
Lamine Yamal (embora limitado fisicamente), deixou de ser apenas uma promessa para assumir definitivamente o estatuto de estrela mundial. Ferran Torres encontrou finalmente o reconhecimento que tantas vezes lhe escapou. Não foi uma equipa de estrelas. E talvez essa tenha sido a maior vitória da Espanha. Foi uma estrela coletiva, como se viu na soberba exibição colectiva para derrubarem a ultra-favorita França, com um quarteto ofensivo assombroso.
Mas este Mundial nunca pertenceu apenas aos campeões. Durante meses ouvimos dizer que um Mundial com 48 seleções seria um erro. Que haveria demasiados jogos desinteressantes, demasiados desequilíbrios e pouca qualidade. O futebol respondeu como tantas vezes responde: dentro das quatro linhas.
É verdade que nunca houve tantas seleções, mas é igualmente verdade que nunca houve tantos países a acreditar. Nunca houve tantas histórias para contar e não houve assim resultados tão desnivelados como se esperava (apenas uma goleada muito expressiva, de 7-1 da Alemanha à estreante Curaçao).
Este Mundial pertenceu também a uma Noruega que recusou ser apenas a seleção do cyborg Haaland. Derrubou o Brasil, chegou a uns inéditos quartos de final e mostrou um futebol corajoso, organizado e ambicioso. Foi impossível não simpatizar com os vikings (a contagiante remada dos seus adeptos bancadas e a comunhão dos jogadores com os seus adeptos no final dos jogos, será para sempre recordada), que decidiu enfrentar gigantes como França, Brasil e Inglaterra, olhando-os nos olhos.
Pertenceu ainda (e talvez acima de todas as grandes surpresas) a Cabo Verde, que conquistou o coração das pessoas. Cada jogo era vivido como uma festa. Cada golo parecia aproximar um país inteiro de um sonho que poucos julgavam possível.
Cabo Verde não trouxe apenas um futebol atrevido. Trouxe sorrisos. Trouxe a alegria de quem ainda acredita que o impossível pode acontecer. E, quando regressou a casa, regressou sem a taça… mas com milhões de adeptos espalhados pelo mundo.
Caiu perante a Argentina nos 16-avos-de final naquele que provavelmente foi o melhor jogo do Mundial, e saiu do torneio infinitamente maior do que entrou. Porque o futebol não se mede apenas em eliminatórias ultrapassadas. Mede-se também nas emoções que deixa. E poucas equipas conseguiram criar uma ligação tão forte com os adeptos neutros, como os Tubarões Azuis.
Marrocos, Senegal, Bélgica, Estados Unidos, México… todos contribuíram para um Mundial onde o talento deixou definitivamente de ter passaporte.
E talvez essa seja a maior conquista deste novo formato. Mais seleções não representaram um decréscimo de qualidade. Este contestado novo formato da competição, significou mais futebol e diferentes formas de o jogar.
Nem todos, claro, corresponderam às expectativas. Portugal voltou a sair demasiado cedo para aquilo que a qualidade do seu plantel permitia imaginar. Ficou a ideia de que com outro timoneiro a comandar esta equipa e jogadores mais implicados, poderíamos ter chegado bem mais longe na competição, e quem sabe, marcar presença numa inédita final e lutar pela conquista do primeiro título mundial da nossa história.
Mas há seleções que atravessam uma crise bem mais profunda do que a nossa. Para além da já mencionada Brasil (que nos últimos anos, perdeu completamente as bases que a distinguiam das demais seleções, e que seguramente não as irá recuperar sob a liderança do resultadista Carlo Ancelotti), a Alemanha confirmou um ciclo de dificuldades que parece não ter fim.
Desde que foi campeã mundial em 2014, a Alemanha acumula descalabros atrás de descalabros, e desta vez ficou-se pelos 16-avos-de-final contra a modesta, mas combativa seleção do Paraguai.
Outras potências perceberam, da forma mais dura, que o peso da camisola já não assusta ninguém. Porque o futebol mudou. Hoje, vence quem joga melhor. E isso explica também o percurso da Argentina, que só derrotou a já mencionada Cabo Verde após prolongamento, que teve de recuperar de uma desvantagem (2-0) diante do Egito, e que só conseguiu levar de vencida a seleção da Suíça após prolongamento, num momento em que a seleção helvética já jogava com 10 unidades, deixando energias “desnecessárias”, pagando uma factura muita alta na final contra a Espanha.
Lionel Scaloni conseguiu levar novamente a Albiceleste à final, algo que poucos antecipavam antes do torneio começar. Mas foi impossível não sentir que a seleção viveu demasiado dependente do génio do seu capitão.
Messi voltou a desafiar a máquina do tempo. Aos 39 anos, terminou a competição com oito golos e quatro assistências, números simplesmente inacreditáveis para alguém que disputava, muito provavelmente, o último Campeonato do Mundo da carreira. Foi, mais uma vez, extraordinário e diferencial numa seleção que fez a pior final (e até indigna, diga-se de passagem) de sempre de um finalista de um Mundial, tendo efetuado apenas o primeiro remate aos 121 minutos (!).
As lágrimas que Messi deixou escapar após o apito final não pertencem apenas aos argentinos. Pertencem a todos aqueles que cresceram a vê-lo jogar. A todos os que tiveram o privilégio de acompanhar, praticamente semana após semana (como é o meu caso), a magia do melhor futebolista de todos os tempos. Se há jogadores que deviam ultrapassar rivalidades, Messi é um deles.
Mas o futebol tem esta beleza. Enquanto uma lenda se aproxima do adeus, outra geração bate à porta. Yamal, Cubarsí, Manzambi, Bouaddi, e tantos outros lembraram-nos que o futuro está em excelentes mãos. É assim que este jogo sobrevive. É assim que se reinventa.
Quando olharmos para trás, daqui a dez ou vinte anos, talvez já não nos lembremos de todos os resultados. Talvez alguns golos desapareçam da memória. Talvez até nos esqueçamos de determinados jogos.
Mas dificilmente esqueceremos o que sentimos. Lembrar-nos-emos da Espanha que encantou o mundo. Da Noruega que nos fez acreditar. De Cabo Verde que conquistou os nossos corações.
Das lágrimas de Messi. Do sorriso de Yamal e das caretas do seu irmão Keyne nas bancadas, também ele uma das estrelas deste Mundial. Lembrar-nos-emos igualmente de um Campeonato do Mundo que começou rodeado de dúvidas e terminou rodeado de aplausos (salvo algumas ingerências infames de Trump e de algumas decisões estapafúrdias de Infantino, o presidente da FIFA).
No relvado, a Espanha levantava a taça. Enquanto a Espanha corria em direção ao céu, Messi ficava preso ao relvado. Como se soubesse que alguns segundos podem pesar tanto como vinte anos. Quando baixou a cabeça, já não chorava apenas uma final. Chorava, talvez, o reconhecimento do fim de uma era.
Foi um daqueles torneios que nos recordam, de quatro em quatro anos, porque continuamos a amar o futebol. O fascinante Mundial de 2026 deu-nos muito mais do que isso. Deu-nos razões para voltarmos a acreditar que o futebol continua a ser o jogo mais bonito do mundo.

