O futebol italiano não se encontra nos seus tempos mais áureos. Não é recente, mas vem-se agravando ao longo dos anos, com o período de glória a ser apenas uma memória distante e melancólica. São más decisões, atrás de más decisões, que culminaram com a ausência, pela terceira vez consecutiva, em Campeonatos do Mundo.
Nem sempre foi assim. A Itália, mais especificamente a Serie A, representava um grande atrativo para as grandes estrelas do futebol mundial. Havia orgulho e prestígio em jogar na liga italiana. A prova está nos nomes que consolidaram a Serie A nos últimos anos: Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo Fenómeno, Kaká e Zidane. Lendas absolutas e nomes incontestáveis dos últimos anos. Tudo mudou após o escândalo “Calciopoli”, que abalou as estruturas do futebol italiano e, inevitavelmente, retirou algum do prestígio que tanto caracterizava a Serie A.
Esta sequência lamentável de acontecimentos levou à estagnação do futebol italiano: com uma falta de investimento gritante nas camadas jovens, falta de requalificações nos grandes estádios, excesso de jogadores estrangeiros, alguns em fim de carreira e o ponto principal do texto, uma reciclagem anormal de treinadores.


Atualmente, o sistema de contratação de treinadores na liga italiana funciona como um autêntico jogo de cadeiras, de alta rotação, entre os grandes clubes italianos. Daí, a sensação de repetição e de déjà vu, de época para época, há já largos anos.
Segue um pequeno exercício. Se o leitor estiver com uma pequena folha de papel, desenhar o jogo do bingo, colocar o nome dos principais treinadores italianos de um lado e os grandes clubes do outro e começar a cruzar nomes, a resposta será elucidativa.
Stefano Pioli, Antonio Conte, Allegri, Spalletti, Sarri ou até mesmo Ranieri são alguns dos nomes dos principais treinadores italianos que já treinaram Inter, Milan, Nápoles, Lazio e Juventus, pelo menos uma vez. O que se cria, é uma elite-base de treinadores, com as mesmas ideias, reciclados através dos mesmos clubes. As ideias tornam-se obsoletas, sem inovação, nem mudança significativa. É de admirar até a aposta em Rúben Amorim, por parte do Milan, visto ser um treinador com uma filosofia de jogo muito específica, longe daquela que cimentou o futebol italiano, o famoso “catenaccio”.


A entrada de Amorim ganha outro peso quando se vê quem era o seu antecessor. Massimiliano Allegri, uma cara bem conhecida dos balneários italianos, sendo o expoente máximo da crise do futebol italiano. Allegri foi do Milan para a Juventus, regressou ao San Siro e terminou no Nápoles. O facto mais engraçado desta história é que o italiano nunca foi um treinador com um futebol muito atrativo, foi sempre visto como conservador e atávico.
Ainda assim, os clubes procuram-no, muito pelo seu currículo vitorioso, mas também por medo de arriscar em nomes diferentes, com um projeto que possa não ser infalível. O velho lema “equipa que ganha não mexe” ganha outro sentido, quando Allegri já não ganha um Scudetto faz uns bons anos. A estratégia prende-se por jogar pelo seguro, sem invenções, nem exageros.
E esta estratégia representa algo mais alargado, algo estrutural, presente em várias ligas, com a italiana a ser especialmente demonstrativa do fenómeno. O futebol atual vive do imediatismo, da falta de paciência com treinadores que tenham uma visão bem definida, que exija tempo. Os resultados interessam, como é óbvio, mas não são tudo.
O próprio Amorim, ao deixar o Manchester United após uma temporada desastrosa, resumiu bem esta filosofia: garantiu aos adeptos que “os bons dias estão a chegar”. Uma lição de paciência que a Serie A, atualmente, não parece disposta a aplicar aos seus treinadores.
O período de adaptação, perfeitamente natural, é visto com desdém pelas direções dos clubes de futebol, que querem tudo para ontem, ignorando por completo os fatores que influenciam os ditos resultados. Não havendo paciência para com os treinadores com ideias novas, procura-se sempre os mesmos. Esta consequência direta leva à já referida estagnação tática. Os treinadores italianos com ideias renovadas, saem de Itália e procuram ligas abertas à inovação. De Zerbi é um caso sólido da realidade atual do futebol italiano.
O jogo de cadeiras irá continuar. Gattuso é o novo treinador da Lazio, Sarri foi para a Atalanta, Spaletti, que tem uma tatuagem do Nápoles, continua na Juventus. Estas trocas constantes tornam-se algo absurdistas e até hilariantes. A aposta em Amorim pode significar uma mudança de paradigma, algo em que não acredito. A exceção não faz a regra.
O problema do futebol italiano não se resolverá de um dia para o outro. A dúvida que não quer calar neste momento é a seguinte: qual será o próximo clube de Antonio Conte? Só após esta questão existencial ser respondida, é que as instituições de futebol italianas terão a coragem de resolver os problemas de longos anos.

