Paulo Mendes está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol e já orientou o Cinfães e o AD Marco 09, tendo também acumulado trabalhos noutros clubes como Arouca ou Lusitânia Lourosa.
O Mundial 2026 confirmou algo que, no futebol, nem sempre recebe a atenção que merece: os resultados alcançados ao mais alto nível raramente surgem por acaso. São, na maioria das vezes, consequência de projetos estruturados, de uma visão comum entre os diferentes escalões e da capacidade de preparar hoje os jogadores que serão decisivos amanhã.
Quando comparamos os quartos de final do Mundial Sub-20 de 2025 com os quartos de final do Mundial de 2026, encontramos um dado particularmente relevante. Cinco seleções estiveram entre as oito melhores nas duas competições: Espanha, Argentina, Marrocos, Noruega e França.
As outras três seleções que chegaram aos quartos de final do Mundial Sub-20, Colômbia, México e Estados Unidos, alcançaram aos oitavos de final do Mundial de 2026.
Ou seja, as oito seleções que, em 2025, estiveram nos quartos de final da principal competição mundial de Sub-20 voltaram a demonstrar competitividade no Mundial disputado no ano seguinte. Mais do que uma coincidência, este dado deve levar-nos a refletir sobre a importância da continuidade no trabalho das federações.
Uma seleção não começa na equipa principal
Existe, nestes países, um fio condutor entre o projeto das seleções, as competições internas, a formação realizada nos clubes e o acompanhamento promovido pelas respetivas federações. O sucesso de uma seleção principal não começa na convocatória para um Campeonato da Europa ou para um Mundial. Começa muitos anos antes, na identificação do talento, na formação dos jogadores, na qualidade dos treinadores e, sobretudo, na criação de contextos competitivos que permitam aos jovens evoluir.
As federações têm um papel fundamental neste processo. Não lhes compete substituir os clubes, mas podem criar uma visão comum, promover a discussão sobre o desenvolvimento dos jogadores e incentivar a existência de oportunidades reais para os jovens com maior potencial.
Esta continuidade permite encarar o futuro com maior estabilidade. Permite renovar uma seleção sem destruir a sua identidade e preparar ciclos competitivos sem depender apenas do aparecimento ocasional de uma geração particularmente talentosa. Quando olhamos para 2030, as seleções mais bem posicionadas serão, provavelmente, aquelas que já começaram esse trabalho há vários anos.
Portugal precisa de refletir
Neste contexto, Portugal deve fazer uma reflexão séria. A ausência no Mundial Sub-20 de 2025 e a prestação sem o destaque esperado no Mundial de 2026 não apagam a qualidade existente no futebol português. No entanto, devem servir como alerta.
Portugal continua a formar jogadores de enorme talento, como demonstra a geração que conquistou os títulos europeu e mundial de Sub-17. O desafio está em garantir que essa qualidade não se perde na passagem para o futebol sénior. É necessário acompanhar esta geração, criar condições para que os jogadores acumulem minutos e pressionar positivamente os clubes para que o talento jovem tenha oportunidades reais de competir.
Não basta formar bons jogadores. É preciso permitir-lhes errar, crescer e adquirir maturidade competitiva. O objetivo deve passar por juntar os melhores elementos destas novas gerações aos jogadores da atual seleção que, em 2030, estarão perto ou acima dos 30 anos. Essa combinação entre juventude e experiência pode permitir a Portugal construir uma equipa equilibrada e preparada para voltar a disputar as fases decisivas.
Mas esse processo tem de começar agora.

