Olhar tático à estreia do FC Porto na Primeira Liga: as dificuldades criadas pelo Alverca e o impacto posicional do médio defensivo nos dragões

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O FC Porto entrou na Primeira Liga 2026/27 com um triunfo por 2-0 frente ao Alverca, no Estádio do Dragão, numa jornada que não poderia ter começado melhor para a equipa de Francesco Farioli, com os empates de Benfica e Sporting. Depois da conquista da Supertaça, o treinador italiano promoveu duas alterações no onze inicial, com Alan Varela e Martim Fernandes a regressarem à titularidade, por troca com Pablo Rosário e Alberto Costa, este último condicionado por lesão.

Do outro lado, Sérgio Ferreira estreou-se oficialmente na Primeira Liga e no comando técnico da equipa ribatejana, deixando desde logo uma boa amostra do que poderá ser a temporada. O técnico deu continuidade a algumas das dinâmicas já observadas na época anterior do Alverca, sob o comando de Custódio Castro, embora tenha apresentado uma solução estrutural diferente daquela que marcou outros projetos da sua carreira, nomeadamente no FC Porto Sub-19.

Do ponto de vista tático, o Alverca apresentou uma estratégia híbrida para limitar o plano ofensivo do FC Porto. Numa primeira fase de construção dos dragões, a equipa ribatejana pressionava num bloco médio em 4-4-2, com Figueiredo na dupla de ataque com Vivaldo Semedo e Isaac James como médio esquerdo. O objetivo passava, numa primeira fase, por condicionar os espaços interiores e as ligações entre Alan Varela, Froholdt, Gabri Veiga e André Silva, impedindo o FC Porto de ativar a dinâmica do terceiro homem e de conseguir progredir pelo corredor central.

Num segundo momento, à medida que o FC Porto subia no terreno, a equipa ribatejana passava para uma estrutura de 5-2-3, com Isaac James a fechar a linha de cinco e Figueiredo a assumir uma posição de extremo/médio-esquerdo. O intuito passaria por direcionar o jogo do FC Porto para os corredores exteriores, e mais tarde, ter a capacidade de proteger a largura através da linha de cinco.

Sérgio Ferreira
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Apesar destas dinâmicas estruturais, o FC Porto entrou muito forte na partida e conseguiu beneficiar do espaço nos corredores através da ligação direta no passe de central para extremo, sobretudo de Bednarek para William Gomes. Através deste comportamento, os dragões conseguiram criar vantagens e chegar a situações de cruzamento, com a ajuda dos movimentos de rutura de Froholdt. Numa dessas situações, André Silva acabou por ser derrubado dentro da área aos 9 minutos. O próprio avançado assumiu a cobrança da grande penalidade e inaugurou o marcador no Estádio do Dragão.

Face aos últimos jogos do FC Porto, Francesco Farioli alterou a primeira fase de pressão devido ao posicionamento dos três centrais do Alverca. Em 3+2, Pepê, William Gomes e André Silva formavam a primeira linha, enquanto Froholdt e Gabri Veiga apareciam numa segunda linha de pressão. William Gomes assumiu o papel de primeiro elemento a pressionar de fora para dentro, incluindo quando o guarda-redes Matheus Mendes participava na construção.

A partir do golo, o FC Porto baixou a intensidade e deu maior protagonismo ao Alverca no plano ofensivo. No que toca aos dragões, um comportamento que tenho vindo a observar é a descida mais precoce do médio defensivo, seja Alan Varela ou Pablo Rosário, para a linha de cinco, comparativamente com a última temporada. Logo após a perda da bola e quando o Alverca iniciava a sua organização ofensiva, viu-se o médio defensivo a baixar rapidamente para a linha de cinco.

O facto de Alan Varela saltar tão cedo para a linha de cinco permitiu ao Alverca explorar o espaço entre linhas. Se na época passada era visível o médio defensivo a baixar para a linha de cinco apenas quando a equipa já estava estabilizada e mais baixa no terreno, formando o 5-4-1 como estrutura para defender o corredor central e proteger a largura, a realidade é que, com Alan Varela a baixar mais cedo, podem surgir espaços que os adversários do FC Porto poderão aproveitar.

jogadores FC Porto
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Nesse sentido, será muito importante o papel dos extremos do FC Porto, porque, em determinados momentos, vimos os dragões organizados num 5-2-3, com Pepê e William Gomes a demorarem algumas vezes a recuperar a posição. Chiquinho começou a beneficiar desse comportamento, tendo em Davy Gui uma referência no meio-campo para explorar os passes verticais para o avançado português.

Com Pepê a chegar mais tarde e Gabri Veiga a não revelar a mesma capacidade para fechar rapidamente o espaço e dar cobertura do seu lado como Victor Froholdt, Chiquinho apareceu entre linhas e foi conseguindo encontrar espaço para progredir através do jogo interior. O jogador do Alverca beneficiava também do apoio de Nabil Touaizi na largura, no corredor direito.

Perante este comportamento, o FC Porto, já organizado numa linha de cinco, ajustou a marcação e Jakub Kiwior começou a ser o defesa responsável por sair da última linha para condicionar Chiquinho através da pressão. Ainda será importante perceber de que forma a equipa de Francesco Farioli poderá estabilizar este comportamento: se os extremos terão de assumir um papel mais agressivo no momento de reposicionamento ou se terá de ser um dos centrais a saltar para condicionar os jogadores que aparecem no espaço entre linhas, existindo sempre o risco de surgir espaço nas suas costas, entre central e lateral.

Além de Chiquinho, Figueiredo também tinha maior liberdade para procurar espaços interiores, chegando mesmo a deslocar-se para dentro e a explorar zonas do lado contrário em diversos momentos. Essa mobilidade era particularmente importante para criar dúvidas na organização defensiva do FC Porto e dificultar a definição das referências individuais dos dragões.

Apesar das aproximações do Alverca, que culminaram com alguns remates, Diogo Costa, guarda-redes portista, assumiu, uma vez mais, o papel de verdadeiro guarda-redes de uma equipa grande. Foi chamado a intervir em várias ocasiões, tanto na primeira como na segunda parte, impedindo que os momentos de maior perigo do Alverca tivessem correspondência no marcador. O FC Porto acabou por beneficiar de uma nova grande penalidade aos 44 minutos, depois de uma falta de Nabil Touaizi na sequência de mais uma situação explorada pelos dragões no corredor. Desta vez, Gabri Veiga assumiu a cobrança e converteu, dilatando a vantagem do FC Porto para 2-0.

Francesco Farioli
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Na segunda parte, Sérgio Ferreira aumentou a pressão na primeira fase de construção do FC Porto, passando para um 2+4, com um dos centrais a sair da linha defensiva para ajustar a pressão sobre Gabri Veiga. A intenção passava por aumentar a agressividade sobre a construção portista e tentar ganhar a bola em zonas mais adiantadas.

A entrada de Pablo Rosário na segunda parte acabou por ajudar o FC Porto a explorar mais o jogo interior, ao encontrar com maior frequência os jogadores entre linhas. O médio da República Dominicana ajudou também a equipa do FC Porto no momento defensivo, demonstrando maior mobilidade para acompanhar e conter os movimentos dos avançados do Alverca, principalmente de Chiquinho. Ao mesmo tempo, a perda de frescura física do Alverca, sobretudo a partir da hora de jogo, começou a comprometer a capacidade da equipa ribatejana para manter a mesma intensidade na pressão e as mesmas distâncias entre setores.

O resultado não mais se alterou e o FC Porto iniciou a Primeira Liga com três pontos. Se era importante para a equipa dos dragões entrar a vencer, na tentativa de revalidar o título, os empates de Sporting e Benfica ajudaram a tornar ainda mais positivo o arranque da equipa de Francesco Farioli. Para o Alverca, fica uma primeira amostra positiva das ideias de Sérgio Ferreira, apesar das limitações físicas que se evidenciaram na segunda parte.

Rodrigo Lima

Relatório Tático – FC Porto x Alverca

1. ALVERCA

Organização defensiva

  • Estrutura: 5-2-3 em bloco baixo / 4-4-2 em bloco médio-alto.
  • Pressão: 3+2 na primeira fase de construção do FC Porto, com Ian Luccas como médio mais recuado e referência sobre Gabri Veiga. Na segunda parte, em 2+4 e um dos centrais a encaixar marcação em Gabri Veiga
  • Controlo interior: utilização do 4-4-2 para fechar as ligações por dentro e limitar a influência de Alan Varela, Victor Froholdt, Gabri Veiga e André Silva.
  • Terceiro homem: preocupação em impedir as ligações interiores e a dinâmica do terceiro homem.
  • Orientação da pressão: intenção de direcionar o FC Porto para os corredores exteriores, evitando progressões pelo corredor central.
  • Superioridades exteriores: procura de igualar ou criar superioridades numéricas nos corredores para limitar a influência dos extremos e as chegadas dos laterais/médios aos half-spaces.
  • Primeira linha de pressão: Vivaldo Semedo a condicionar zonalmente Kiwior e Bednarek e a fechar as ligações para Alan Varela

Organização ofensiva

  • Primeira fase: linha de três mais baixa constituída por Meupiyou, Bojang e Baseya, com os dois médios posicionados numa linha superior.
  • Largura: projeção dos alas Nabil Touaizi e Isaac James para ocupar os corredores exteriores e dar largura.
  • Transição após perda: recuperação posicional rápida dos alas Touaizi e Isaac James após perda da posse.
  • Mobilidade ofensiva: Figueiredo e Chiquinho com maior liberdade para explorar terrenos interiores.
  • Ligação vertical: Davy Gui como referência para procurar passes verticais para zonas entre linhas.
  • Exploração entre linhas: Chiquinho como principal referência para receber e progredir entre linhas.

Comportamentos-chave

  • Isaac James: alternância entre médio esquerdo e defesa esquerdo, permitindo variar entre uma linha de 4 e uma linha de 5 e controlar a largura defensiva.
  • Meupiyou: alternância entre central exterior do lado esquerdo e defesa esquerdo, em função da posição de Isaac James e das movimentações do adversário.
  • Figueiredo: alternância entre avançado, junto de Vivaldo Semedo, e posição de médio esquerdo.
  • Chiquinho: exploração do espaço entre linhas, beneficiando das dúvidas na pressão do FC Porto, do atraso de Pepê em organização defensiva e da chegada tardia das coberturas de Gabri Veiga.
  • Nabil Touaizi: referência no corredor exterior através das suas projeções, garantindo largura e uma opção de progressão exterior.

Limitações

  • Minutos iniciais do jogo: dificuldade em impedir o passe e a ligação direta do FC Porto de central para extremo
  • Ações defensivas: abordagens imprudentes na origem das duas grandes penalidades.
  • Controlo interior: a partir do minuto 60′, maior dificuldade em controlar o jogo interior do FC Porto, associada à menor frescura física.

Impacto competitivo

  • Controlo do corredor central: capacidade para limitar a influência de Alan Varela, dos médios interiores e de André Silva.
  • Orientação exterior: sucesso em direcionar a construção do FC Porto para os corredores, reduzindo a sua capacidade de progressão pelo corredor central.
  • Superioridades exteriores: capacidade para igualar/criar superioridades nos corredores e limitar a influência dos extremos e das chegadas aos half-spaces.
  • Exploração entre linhas: capacidade para encontrar Chiquinho em zonas interiores, permitindo ultrapassar pontualmente a pressão do FC Porto e criar condições para progressão.
  • Evolução do jogo: perda de eficácia no controlo interior após o minuto 60′, permitindo ao FC Porto assumir maior influência pelo corredor central.

2. FC PORTO

Organização defensiva

  • Estrutura: 5-2-3 em bloco alto / 5-4-1 em bloco mais baixo.
  • Recomposição: Alan Varela a baixar rapidamente para a linha de 5 após perda da posse.
  • Pressão: 3+2 na primeira fase de construção do Alverca, com Pepê, William Gomes e André Silva na primeira linha e Froholdt e Gabri Veiga numa linha superior.
  • Orientação da pressão: William Gomes como primeiro elemento da pressão exterior, procurando condicionar a saída de fora para dentro.
  • Pressão sobre o guarda-redes: William Gomes a condicionar também a participação de Matheus Mendes (guarda-redes) na construção.
  • Referência individual: Kiwior com responsabilidade de controlar Chiquinho entre linhas e impedir a sua progressão.

Organização ofensiva

  • Estrutura: 4-1-2-3, com os extremos posicionados em largura.
  • Ligação direta: Kiwior/Bednarek a procurar William Gomes/Pepê em posições exteriores.
  • Half-spaces: Gabri Veiga e Victor Froholdt com movimentos de rutura para atacar espaços nas costas ou arrastar referências defensivas.
  • Desequilíbrio individual: William Gomes como principal referência para receber em largura
  • Ligação vertical: Pablo Rosário com papel de ligação e procura de facilitar a progressão pelo corredor central.
  • Referência na área: André Silva como referência ofensiva na área, mantendo também mobilidade durante a construção.

Comportamentos-chave

  • Jakub Kiwior: referência individual sobre Chiquinho, procurando controlar as suas receções entre linhas.
  • William Gomes: principal foco de desequilíbrio individual, procurando receber em largura e atacar diretamente o adversário.
  • Froholdt e Gabri Veiga: movimentos de rutura nos half-spaces, procurando atacar a profundidade ou arrastar marcações.
  • Ligação central-extremo: procura frequente do passe direto entre central e extremo para ultrapassar a pressão interior do Alverca e explorar os corredores.
  • Pablo Rosário: contribuição para a ligação vertical e para aumentar as soluções pelo corredor central, sobretudo na segunda parte.

Limitações

  • Progressão interior: dificuldade em progredir pelo corredor central durante a primeira parte, sobretudo perante o 4-4-2 do Alverca.
  • Espaço entre linhas: dificuldade em controlar o espaço entre linhas no lado esquerdo, permitindo a Chiquinho receber e progredir.
  • Reposicionamento lento dos extremos após perda da bola: permitiu que o FC Porto ficasse em 5-2-3 em diversos momentos e consequentemente, maior dificuldade para controlar zona entre linhas.
  • Dependência exterior: necessidade de recorrer frequentemente aos corredores e às ligações diretas para ultrapassar o bloqueio interior do Alverca.

Impacto competitivo

  • Corredor central: dificuldade em encontrar soluções interiores durante a primeira parte perante a organização defensiva do Alverca.
  • Corredores exteriores: capacidade para criar perigo através de William Gomes, Pepê e das situações de cruzamento.
  • Ligação direta: utilização das ligações central-extremo como solução para ultrapassar a pressão interior do Alverca.
  • Segunda parte: maior influência no jogo interior após a entrada de Pablo Rosário.
  • Alteração do equilíbrio: maior capacidade para explorar o corredor central coincidindo com a perda de frescura física do Alverca.

Rodrigo Lima

BnR na Conferência de Imprensa

Infelizmente e, uma vez mais, não nos foi concedida a possibilidade de fazer uma questão a Francesco Farioli.

Bola na Rede: Na antevisão falou da importância de a equipa ter os timings coletivos bem definidos. Queria perguntar-lhe de que forma esses timings estiveram presentes na estratégia para travar o FC Porto, nomeadamente na pressão no primeiro momento de construção, com a equipa organizada em 4-4-2, e depois num bloco mais baixo em 5-2-3, com o Isaac James a baixar para a linha de cinco e o que procurava condicionar com esta alteração de estrutura tática?

Sérgio Ferreira: Sim, nós reconhecemos que há uma grande importância no jogo do FC Porto, naquilo que são os centrais, o pivô, os interiores e o ponta de lança também. E procuramos anular, no momento em que estávamos mais altos ou médios-altos, essas ligações e empurrar o jogo do Porto para fora. A verdade é que o Porto, nos primeiros 10 minutos, consegue empurrar-nos para fora através desse jogo exterior, com passe direto de central para extremo, mas, a partir do momento em que fomos de encontro aos nossos princípios por parte da linha defensiva, que é o que suporta a nossa pressão à frente, conseguimos desfazer muito bem a linha à largura e, a partir do momento em que o conseguimos fazer, a equipa acertou, igualou no corredor e, em muitos momentos, conseguiu criar vantagens em termos de superioridade numérica. Acho que a equipa também esteve brilhante no entendimento de quando estar em 4-4-2, numa linha de 4 ou numa linha de 5. A equipa teve capacidade de resguardar-se e defender por recuo e, em muitos momentos, também dar o passo em frente para inibir aquilo que poderia ser um jogo mais exterior e acutilante do Porto no sentido da nossa baliza. Penso que a equipa procurou muito bem fazer isso. Logicamente que ainda estamos no momento de adaptação àquilo que é a competição, ou seja, os jogadores ainda não estão no seu melhor momento, mas a verdade é que a resposta foi muito boa, tendo em conta o tempo de treino que temos e sendo o primeiro jogo para o campeonato. Enquanto conseguimos ser equipa em termos de performance e de máximo rendimento, a equipa fez coisas brilhantes.

Rodrigo Lima
Rodrigo Limahttp://www.bolanarede.pt
Rodrigo é licenciado em Ciências da Comunicação e está a frequentar o mestrado em Gestão do Desporto. Trabalha na área do jornalismo desportivo, com particular interesse pela análise de futebol.

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