11 empates depois, o Benfica voltou ao mesmo registo. A base da aleatoriedade do resultado de um jogo de futebol explica-o para lá de qualquer outra reflexão. Há erros e imperfeições que o Académico de Viseu, com um jogo em crescendo, conseguiu aproveitar. Mas, acima de tudo, há uma supremacia tão clara e evidente que torna qualquer comparação ao que se foi desenrolando na última temporada tão superficial como a análise que alguém, um dia, fez e levou as bancadas a estar completamente despidas. Mais do que a cor do cachecol que pintaria as bancadas, há que analisar se é de jogos sem adeptos que se quer construir o futebol português. Quando uma das grandes lacunas do nosso futebol se torna numa arma de arremesso e penalização, acentuando a ausência mais presentes dos campos portugueses – onde o Estádio da Luz, naturalmente, não se inclui, mas fica o ponto – há muito de errado.
Para lá dos lamentos perante a forma como se jogou futebol para ninguém, não ignorando a força humana que, fora do Estádio, se juntou e se fez ouvir por jogadores, treinadores e pelos poucos humanos que, por qualquer questão laboral, puderam assistir ao jogo, houve um bom espetáculo dentro de campo. O Benfica foi superior e só se pode queixar de falta de contundência nas áreas pelo tropeço. Sendo mais forte em, pelo menos, uma destas, o resultado teria sido assinalável e todas as próximas palavras teriam um sentimento e uma sensação diferentes.
Marco Silva recuperou, acima de tudo, uma identidade e sentido coletivo capaz de balizar o jogo encarnado. A época é longa e haverá tempo para ajustes, alterações, novas dinâmicas e adaptações estratégicas ao adversário aqui ou ali. Mas, para início de trabalho, o reconhecimento que é possível fazer das águias é uma virtude que nem o empate consegue travar.


Ofensivamente, o Benfica tem dinâmicas já consolidadas. Ainda há espaço quase infinito para crescimento e falta ver qual o impacto que os Mundialistas, ainda de utilização reduzida, conseguirão trazer ao jogo ofensivo encarnado. Mas a criação de triângulos entre lateral, médio e extremo, a utilização de Vangelis Pavlidis como elemento de ligação, a utilização dos três corredores e o aproveitamento da mobilidade para fazer crescer a variabilidade ofensiva são princípios visíveis.
De maior desenvolvimento contra o Académico de Viseu a mobilidade de Gianluca Prestianni e de Rafa Silva no ataque encarnado. Num jogo em que as ligações de Vangelis Pavlidis foram menos utilizadas, os dois extremos foram cruciais para o Benfica chegar longe. Do argentino chegou a melhor exibição da – curta amostra – Primeira Liga. Cresce a partir da esquerda precisamente pela variabilidade que consegue oferecer ao seu jogo. Joga com os dois pés, tem irreverência no drible e a capacidade de agitar. No seu jogo perfeito, ficam na retina os dois momentos no golo: primeiro, o passe para Vangelis Pavlidis; depois, a forma como assume a bola, encolhe os ombros como quem não quer saber e prepara o remate que devolveu a vantagem aos encarnados. Há dores de cabeça, daquelas boas que não precisam de um Benur-on, para Marco Silva. O melhor jogador do Benfica e o jogador no melhor momento jogam na mesma posição. Já conviveram juntos, Andreas Schjelderup e Gianluca Prestianni.
O arranque de época de Rafa Silva está a ser assinalável também. Parte da direita com liberdade para jogar por todo o lado. Se a liberdade de Prestianni tem posição de partida bem definida, começando agarrado à esquerda para circular com bola, a de Rafa é mais indefinida, como um pirilampo à procura do melhor espacinho para brilhar. Não fez, continuando a analogia, um jogo brilhante, mas fez um jogo de criação constante de vantagens e superioridades.


Faltaram, do ponto de vista ofensivo, duas coisas ao Benfica. A primeira é evidente: a eficácia. Há dias assim, embora, com dois golos marcados ao Académico de Viseu, nem tenha sido o maior problema encarnado em campo. A segunda esteve na quantidade de ligações que Vangelis Pavlidis e Georgiy Sudakov não conseguiram dar, levando a que o leque de oportunidades – já bastante grande, por sinal – não fosse ainda superior. Se o Benfica ganhasse, seria de pouco relevo. Como não ganhou, leva a pensar: e se, em vez de 20 oportunidades, fossem 30 ou 40?
Houve méritos na forma como o avançado grego percecionou o espaço para explorar nas costas do Académico de Viseu, principalmente na primeira parte, com a equipa de Bruno Pinheiro a procurar um posicionamento intermédio que acabou por não resultar nem na pressão, nem defensivamente. A procurar fechar a 5 em vários momentos, principalmente para controlar Alexander Bah e as suas subidas pelo corredor, o Académico acabou por levar o jogo para o campo dos duelos individuais em vários momentos, o mais declarado entre Anthony Correia e Vangelis Pavlidis. Não fazendo um jogo de grande influência nos apoios frontais, o grego conseguiu aproveitar este duelo e o espaço nas costas para criar situações de golo, afundar a linha defensiva e abrir espaço. Espaço para um tiro ao boneco constante, num jogo de pinball onde se erguiam pernas e corpos à frente do Benfica. É impressionante, para lá dos remates perigosos, a quantidade de remates que teriam perigo se não embatessem em alguém.
Defensivamente, falhou quase tudo no Benfica. Quer individualmente, pelos perfis do setor defensivo, quer coletivamente, pelos espaços deixados em transição, os encarnados começaram a ressentir-se e o Académico de Viseu, sem nunca ser superior, encontrou espaços para se superiorizar. Já tinha conseguido uma chegada com perigo na primeira parte, com Álvaro Zamora, cujo protagonismo está escondido por André Clóvis, mas não é esquecível. Na segunda parte fê-lo com outra contundência e garantiu dois golos.


A entrada de Clément Lenglet no onze, na vaga que seria de Nicolás Otamendi, tem duas consequências para os encarnados. Ofensivamente, torna todo o jogo mais fluído. Há vários lances que, há uns meses, teriam dado aflição. Com um pé esquerdo, ainda por cima num central com qualidades a sair a jogar, tornam-se apenas sequências com bola. No entanto, para lá deste papel como facilitador do jogo ofensivo dos encarnados, a dimensão física no choque e nos duelos aéreos reduziu-se.
Entre os quatro defesas e o médio mais posicional, Enzo Barrenechea nos últimos jogos, há pouco por onde o Benfica conseguir ter agressividade e capacidade em transição. Coletivamente, ainda há um longo caminho a percorrer para se atenuarem essas dificuldades de perfil individual e o Académico de Viseu aproveitou-o. Com Kahraman como médio de projeção e movimentos, João Guilherme a esticar sobre a direita para procurar o duelo com Samuel Dahl – tem de motivar preocupação a forma descomplexada como Bruno Pinheiro admitiu tentar explorar esta lacuna – Álvaro Zamora a criar sobre a esquerda e André Clóvis, importante pela dimensão física e capacidade para visar a baliza, acumularam-se as oportunidades.
Clément Lenglet e Tomás Araújo são centrais próximos nas qualidades e nas lacunas. O português é mais rápido, mas, quase todas as outras características são semelhantes. Com bola são ambos fortes e inteligentes no passe, sem bola têm dificuldades no choque, a lidar com avançados capazes de usar o corpo e fragilidades na defesa aérea. O campeonato português obrigará sempre os defesas do Benfica a jogar mais tempo em posse do que atrás desta, mas as características de grande parte dos avançados destas equipas – com capacidade física para procurar ser referência – levanta dúvidas quanto à eficácia da dupla. Ainda chegará alguém e o perfil tem de ser, necessariamente diferente. Nos centrais, há poucas lógicas mais funcionais que a complementariedade.


Conseguindo ferir ofensivamente nas poucas oportunidades e solidificando progressivamente o setor defensivo, que começou permeável e acabou robusto, o Académico de Viseu garantiu o mais importante, pelos pontos e pela maneira como estes chegaram. Defensivamente, as dificuldades para lidar com a movimentação encarnada foram melhorando a partir de posições mais conservadoras, reduzindo o espaço e fechando as entradas. Também Ewerton, que começou algo instável, se afirmou e terminou o jogo em bom plano, com várias defesas relevantes. Sabe a tranquilidade e a bom começo o ponto conquistado pelo clube recém-promovido.
Com imenso espaço em transição, jogadores com perfil pouco agressivo para as parar e fragilidades na bola parada evidentes, o Benfica sofreu dois golos. Mesmo Samuel Soares, que assumiu a baliza nos últimos dois jogos, é um guarda-redes com lacunas na saída a cruzamentos e bolas paradas. Já o St. Gallen tinha aproveitado a falta de poderio ofensivo e as brechas que um cruzamento para a área pode gerar, o Académico de Viseu fez igual. Por muito que se lamente a eficácia, dois golos seriam mais que suficientes, não fossem as limitações encarnadas lá atrás.
BnR na Conferência de Imprensa
Bola na Rede: Foi um jogo contra uma equipa com um poderio diferente do Académico de Viseu. Pensando numa época muito longa, o que pode ser retirado do ponto de vista tático, técnico, físico, mental para o crescimento da equipa ao longo da época e que possa ser assimilado para jogos em que o Académico tenha mais poderio e tempo de jogo com bola?
Bruno Pinheiro: Nós, em condições normais, não teríamos uma linha de cinco. Como sabíamos que havia muita capacidade de desequilíbrio nos corredores por parte do Benfica, tivemos de o fazer. Contra equipas do nosso campeonato, provavelmente teríamos uma linha de quatro e não iríamos necessitar tanto. Foi uma alteração que fizemos hoje para o jogo. Tivemos de compactar mais, de pedir ao avançado para deixar a equipa compactar e ajudar a fechar o médio defensivo até à equipa estar organizada e então sim tentar ativar pressões. Nem sempre foi fácil, mas basicamente em termos de jogo e adversário superior, tivemos esta adaptação que, em condições normais, para este jogo, contra uma estrutura semelhante à do Benfica, acredito que teríamos feito um 4-2-3-1 e hoje tivemos de fazer uma linha de cinco. De resto, e honestamente, foi um dos fatores que mais me fez querer o Académico de Viseu quando se pôs essa possibilidade e comecei a analisar os jogos. Esta equipa tem algo diferente na capacidade de sacrifício. Hoje é um exemplo disso. Foram tremendos na capacidade de trabalho. Essa foi a principal razão que me levou ao Académico de Viseu, identificar que este grupo era extraordinário na entrega. Hoje foi isso que aconteceu. Nem fizemos um jogo fantástico. Já vim ao Estádio da Luz jogar bem melhor e ser goleado a jogar olhos nos olhos com o Benfica, como foi por exemplo quando vim cá com o Gil Vicente. Aos 78 minutos estava 2-1 para o Benfica e nós acabámos por ser goleados. Hoje, sem essa capacidade ofensiva de jogo, acabamos por levar um ponto por uma qualidade que esta equipa tem e não acredito que irá perder. Os jogadores de facto são distintos. Já agora destacar, porque gosto muito disto e já trabalhei em Portugal e passei por isto no Estoril Praia. Gosto muito de ter o jogador português na Liga Portuguesa, de ter maioritariamente a língua portuguesa no balneário, porque nos dá isto. A dificuldade de hoje em dia no futebol, está numa multiculturalidade tremenda de línguas, de tudo, quando se vai às refeições há grupos de línguas. Não é que não se deem bem, mas é totalmente distinto. Este grupo fala essencialmente português, os jogadores estrangeiros como o Soufi [Messeguem], o Kahraman, o Gohi percebem perfeitamente o português. O Soufi fala português que é um encanto para uma pessoa estrangeira. É uma das forças deste balneário, o jogador português, jogadores que sofreram para chegar à Primeira Liga. Hoje fico muito contente que se tenham estreado e muito satisfeito mesmo pelo grupo de trabalho.
Infelizmente, não nos foi concedida a possibilidade de colocar uma questão a Marco Silva, treinador do Benfica.

