À partida para a quinta edição da versão moderna do Tour de France feminino, um nome surgia à frente de todos os outros nas listas de favoritos: Demi Vollering. Vencedora em 2023, a neerlandesa tinha sido (com diferentes graus de dramatismo) segunda em todas as outras edições e, este ano, parecia imparável com vitórias tão prestigiantes como a Ronde van Vlaanderen, a Liège-Bastogne-Liège e até uma soberba reviravolta no último dia para conquistar a Maglia Rosa no Giro d’Italia.
À chegada em Nice, o favoritismo consumou-se e a campeã europeia em título chegou isolada de amarelo à linha de meta final e pode celebrar efusivamente uma conquista que coloca a cereja no topo do bolo de uma época fenomenal. Mas, nem tudo foi fácil para chegar a este ponto e, mais uma vez, a corrida não desiludiu e fez as delícias dos espectadores.
As duas primeiras etapas realizaram-se em território suíço e nem umas colinas na primeira, nem uma incansável fuga de Riejanne Markus na segunda foram capazes de impedir que fosse a melhor sprinter do mundo a brilhar. Lorena Wiebes levou as etapas, vestiu de amarelo e deixou logo bem encaminhada a camisola verde que vestiria definitivamente (pelo segundo ano consecutivo) no final.
O terceiro dia viu algumas mexidas, mas sem consequências e acabou por ser a fuga solitária de Sigrid Haugset a levar de vencida a etapa e a vestir de amarelo. A luta pela Geral começou, então, ao quarto dia num contrarrelógio de 21 quilómetros. A campeã do mundo da especialidade, Marlen Reusser, estabeleceu a sua autoridade e triunfou na jornada, assumindo também a amarela, criando uma diferença significativa para todas as adversárias, exceto uma: Demi Vollering.
Seguiram-se duas etapas de muito sobe e desce e, como habitual, muito ataque e contra-ataque, mas com desfechos bem distintos. A primeira fez grandes diferenças na Geral e na frente chegou um trio que passou a dominar as atenções: Vollering venceu a etapa à frente de Reusser e de Kasia Niewiadoma (a outra ciclista que, tal como Vollering, havia feito podium em todas as edições do Tour, vencendo em 2024). A que lhe sucedeu impactou menos nas contas do título, mas permitiu a Elisa Longo Borghini reacender a esperança no podium ao chegar num grupo mais adiantado em que Kim Le Court-Pienaar sprintou para a vitória.
O imponente Mont Ventoux foi o cenário da chegada da sétima jornada, a etapa rainha desta edição. Vollering atacou cedo na ascensão e mais uma vez se viu na frente com Niewiadoma e Reusser. Eventualmente, Niewiadoma mexeu e foi a solo até ao topo para levar a etapa. Atrás, a falta de colaboração deixou a vantagem crescer e a neerlandesa espremeu a suíça até ao fim, quando a despachou para fazer a diferença, enquanto Longo Borghini reapareceu para ainda ultrapassar Reusser nos metros finais. No final do dia, Niewadoma saltou para a frente da classificação e para a camisola amarela, Vollering continuava segunda a poucos segundos.
O dia seguinte parecia calmo até que uma curta subida perto do fim serviu para Vollering pressionar e sentar Niewiadoma, seguindo em solitário para mais uma vitória de etapa e segundos suficientes para dar a volta à Geral.
Ainda assim, com apenas oito segundos a separar a líder e a mais próxima adversária, a última etapa com quatro passagens pelo Col d’Eze tinha tudo para ser explosiva. E, realmente, assim foi de fio a pavio. Quem mais cedo pagou a fatura foi Reusser, que acabou por perder minutos e ceder o podium à incrivelmente combativa Longo Borghini. Na parte final, Niewiadoma tentou recuperar a amarela, mas acabou contra-atacada por Vollering que fez o suficiente para voltar a vencer sem concorrência por perto.
Para lá de Vollering de amarelo e de Wiebes de verde, subiram também ao podium final Puck Pieterse com a camisola às bolinhas e Antonia Niedermaier de branco. A neerlandesa andou à caça de pontos quase todos os dias nas primeiras subidas e amealhou os suficientes para vencer sem grande discussão, enquanto a alemã foi capaz de conciliar ao auxílio à sua líder, Kasia Niewiadoma, com uma boa exibição individual, terminando em quarto da Geral final e vencendo a juventude à frente da vencedora da Vuelta, Paula Blasi.

