Como te amo, como te odeio: um Sporting com duas faces | Sporting 3-2 Vitória SC

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Um jogo de luzes e sombras, onde o Sporting conseguiu exibir a sua melhor versão, mas também mostrou como pode desaparecer do encontro, amedrontando-se perante qualquer oponente. O Vitória SC também viveu duas partes distintas, vítima de querer ter personalidade na casa de um rival na teoria favorito e de contar com um plantel que ainda se está a acostumar a um novo técnico.

Foram os leões que sorriram no final do jogo, com um marcador a ditar o 3-2 e a liderança provisória da Primeira Liga. Contudo, em Alvalade vai-se do 8 ao 80 muito rápido. E vice-versa. Ou se ama, ou se odeia. Não há meio termo. Esta partida prova o ponto de que existem jogadores colocados num lado de uma balança e outros atletas, com outro estatuto no reino do leão, que estão em outra.

Do lado dos meninos bonitos, há um novo príncipe, que já fez esquecer Pedro Gonçalves e silenciou as viúvas de Yeremay Hernández: Flávio Gonçalves. A sua participação nos dois golos reflete a sua qualidade enquanto extremo esquerdo/avançado interior. Fez o gosto ao pé, aparecendo no centro da área. Ajudou a gerar o segundo tento com um passe para o outro lado do campo para Geny Catamo, que depois brilhou com a bola nos seus pés. O espaço dado pelo Vitória SC entre as linhas do meio campo e da defesa na primeira parte ajudou aos jogadores de ¾ a distinguirem-se.

Flávio Gonçalves Sporting
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

Não há dúvidas que é um atleta diferenciado. A solução para a posição estava dentro de casa, relegando para um segundo plano Jesse Derry e lançando o alerta em Nestory Irankunda. Um jogador à moda do Sporting, capaz de fazer vibrar as bancadas de Alvalade e que ganha estatuto a cada momento que passa. Aos 19 anos, tem muito por onde crescer, muito perigo por causar na Primeira Liga e um potencial de dar muitas alegrias aos aficionados, que adoram este tipo de jogador.

Quem também virou cisne frente ao Vitória SC foi Fotis Ioannidis. Na Reboleira, protagonizou uma telenovela de desperdícios. Contra os minhotos, foi diferencial. Exibiu a sua virtude física no lance do primeiro golo, ganhando a dois defesas e colocando a bola em Flávio Gonçalves. Já no segundo tento, rodou bem sobre o oponente e fuzilou. O ponta de lança está em grande forma e a aproveitar o momento menos bom do rival de posição (já se escreverá sobre ele). Há poucas dúvidas sobre a capacidade do grego. Afinal, custou 20 milhões de euros. O grande problema passa pela questão física e a sua íntima relação com o departamento médico. A 100% tem condições de ser titular, embora necessite de uma sombra, além de Rafael Nel, que podia ter somado minutos neste encontro.

Ainda que Sergi Altimira, Georgios Vagiannidis, Geny Catamo ou Rodrigo Zalazar também tenham apresentado bons pormenores, o último nome a realçar é o de Maxi Araújo, que nem fez uma exibição extraordinária, sendo um elemento discreto. No entanto, só a sua presença faz a diferença, transmite mais confiança à equipa e a Rui Borges. O uruguaio é um todo o terreno pela esquerda, capaz de estar envolvido numa jogada na área adversária e no momento seguinte impedir o processo ofensivo do rival. Um dos preferidos de Alvalade. Daí a urgência da contratação de um substituto (Rodrigo Dias tem potencial, mas merece mais minutos de utilização, algo que não terá na Segunda Circular em 2026/27).

Fotis Ioannidis Sporting
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

Olhemos para o lado sombrio, onde ninguém quer cair. Os antagonistas do Sporting, aqueles que na visão da maioria foram os culpados da segunda parte de baixa qualidade dos leões ante o Vitória SC. Rui Silva é cada vez mais curto para a titularidade numa equipa que quer lutar pelo título. O internacional português está frágil, inseguro e os assobios não ajudam. A sua insegurança afeta toda a equipa e faz com que a mesma comece a descer no terreno. Um fenómeno ao qual assistimos na primeira jornada.

O guarda-redes não tem culpa em nenhum dos lances de golo, mas o ‘quase frango’ da segunda parte, desperdiçado por Samu Silva, alarmou todos os que estavam no relvado. O rival percebeu e provocou os defesas do Sporting a passar a bola para trás, o que tornou o ambiente mais tenso. A estrutura dos verde e brancos deveriam ir ao mercado procurar um titular, já que João Virgínia até para suplente parece curto. Mudança a 100% na baliza dos leões em agosto? Mais vale remediar tarde, do que nunca.

A insegurança de Rui Silva também é provocada pela má forma de Gonçalo Inácio. O capitão está desconcentrado e é cada vez mais titular pelo estatuto e não pelas vibrações que traz. Já vimos a melhor versão do defesa central, sendo este um mau momento na carreira, assistindo a mudanças profundas no plantel dos leões, perdendo quase todos os colegas que começaram a aventura no plantel principal com ele. Ibrahima Ba e Zeno Debast estão atentos.

Rui Borges ordem
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

Porém, o grande vilão está na frente. Luis Suárez, atualmente o grande inimigo de Alvalade. Ainda antes do encontro, enquanto era anunciada a ficha de jogo, o seu nome foi assobiado em uníssono, algo que voltou a ocorrer quando entrou em campo. O colombiano dentro das quatro linhas está uma autêntica sombra daquilo que foi em 2025/26, afetado pelo sentimento que o Universo Sporting lhe transmite. O contexto no qual foi aposta contra o Vitória SC tampouco foi o melhor, uma vez que os minhotos estavam por cima do encontro.

Será complicado para o Sporting a venda do ponta de lança e a contratação de um substituto ainda nesta janela de transferências. Porém, o divórcio está em cima da mesa. Luis Suárez terá de voltar a conquistar os aficionados, de forma urgente. Fotis Ioannidis é concorrência à altura e Rafael Nel beneficia de ser um dos meninos bonitos da formação.

Rui Borges colocou os verde e brancos a fazerem uma exibição brilhante na primeira parte, beneficiando dos espaços deixados pelo Vitória SC. A segunda parte foi distinta. O técnico, apesar da experiência, ainda não sabe lidar da melhor forma com uma vantagem nas suas mãos. Para alguns adeptos é insuficiente, para outros, ainda tem margem de melhora 2026/27 também promete ser uma prova de fogo para o transmontano.

Tiago Margarido Vitória SC
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

O Vitória SC também mostrou dois rostos, com Tiago Margarido a implementar as suas ideias no Castelo. Os vimaranenses gostam de pressionar alto, mas o posicionamento das linhas terá de ser trabalhado. A segunda parte foi bem mais segura, com a dupla de Nogueiras a brilhar e Samu Silva a exibir a sua liderança. Faltam reforços aos minhotos. Miguel Maga e Thiago Baileiro são curtos. Alioune Ndoye precisa de um concorrente. Atenção ao menino Santiago Verdi que pode ser craque geracional.

Caso a equipa consiga replicar a segunda parte durante toda a Primeira Liga, o campeonato promete. No entanto, se a imagem mais deixada fora a da primeira, há muito trabalho a fazer. À segunda jornada é complicado retirar conclusões, esperemos pelo final do mercado.

Sporting atletas
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

Bola na Rede na Conferência de Imprensa

Bola na Rede: O Sporting durante a primeira parte aproveitou da melhor forma os espaços que foram dados pelo Vitória SC, nomeadamente entre os defesas e os médios. No entanto, na segunda parte não logrou ter tanto êxito neste ponto, com os minhotos a crescerem. Isto foi somente uma questão física como disse anteriormente, ou também existe mérito do adversário?

Rui Borges: Do outro lado existem outros jogadores que tiveram mérito. Mudaram ali, refrescaram à direita, começaram a construir às vezes a três e deram mais mobilidade aos médios. Fomos perdendo aqui ou ali as referências e essas dúvidas levaram-nos a não ser tão intensos nesses encurtamentos que eu falo, por causa das dúvidas de marcações. Deixámos de ser tão pressionantes num bloco mais alto, acredito eu que por falta de energia. Não é por vontade da equipa técnica com toda a certeza. É natural que percamos essa energia porque a primeira parte foi bastante exigente. Andámos sempre a pressionar alto, sempre num bloco alto e isso acaba por ser exigente. Do outro lado existe algum mérito. Tentaram mudar uma ou outra nuance. Ainda agora falei no 3-2, por exemplo. Foi uma perda de bola nossa, é certo. Acabam por fazer um outro golo num cruzamento. Estávamos super avisados disso. Tínhamos de encurtar espaços para que não existissem cruzamentos. Foi a equipa que mais cruzamentos fez na primeira jornada. A sua referência na área acabou por fazer um golo, estávamos em alerta. Todos esses pequenos pormenores é o que temos de melhorar. Levam um bocadinho para a falta de energia. Como consequência, leva para a desconfiança. A desconfiança leva a que a gente perca um bocadinho dessa suposta energia também. Temos de crescer, isto são dores que temos. Mas temos de crescer rapidamente.

Bola na Rede: O Vitória SC decidiu pressionar muito alto desde o começo do jogo, mesmo com o Beno Mukendi e o Gonçalo Nogueira a subirem, o que fez com que sobrasse espaço entre a linha da defesa e a dos médios. Como é que na segunda parte procurou solucionar esse problema?

Tiago Margarido: Esse problema foi resolvido com a questão da agressividade e da intensidade. Se nós pedirmos aos médios para comerem espaço à frente e se quisermos ser pressionantes eles vão ter de andar muito. Na segunda parte eles andaram muito. Na primeira parte isso não aconteceu e foram expostos a algumas fragilidades. Com disse, a grande diferença de uma parte para a outra foi a atitude.

Ricardo João Lopes
Ricardo João Lopeshttp://www.bolanarede.pt
O Ricardo João Lopes realizou a sua formação na área da História, mas é um apaixonado pelo desporto (especialmente pelo futebol) desde criança, procurando estar sempre a par da atualidade.

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