Olheiro BnR | Nestory Irankunda

- Advertisement -

O Sporting confirmou, no último sábado, a contratação de Nestory Irankunda, extremo australiano de 20 anos que representava o Watford, do Championship. O jogador assinou um contrato válido por cinco épocas, até 2031, ficando protegido por uma cláusula de rescisão de 80 milhões de euros. O negócio foi fechado por 15 milhões de euros fixos, aos quais podem juntar-se mais três milhões mediante o cumprimento de objetivos, num investimento que pode chegar aos 18 milhões de euros. Irankunda torna-se, assim, no segundo australiano a representar o Sporting, depois de Vlado Bozinovski, no início da década de 1990.

Primeiramente, é de notar que esta contratação surge depois de um percurso marcado por uma ascensão muito precoce e por várias mudanças de enquadramento. Irankunda nasceu a 9 de fevereiro de 2006, num campo de refugiados em Kigoma, na Tanzânia, onde os pais, Gideon e Dafroza, se tinham instalado depois de fugirem da guerra civil no Burundi. Com apenas três meses de vida, mudou-se com a família para a Austrália, primeiro para Perth e depois para Adelaide, cidade onde cresceu e começou a jogar futebol.

Aos 12 anos, foi recrutado pelo Adelaide Croatia Raiders e, em setembro de 2021, assinou o primeiro contrato profissional com o Adelaide United. A estreia pela equipa principal aconteceu poucos meses depois, em janeiro de 2022, quando tinha apenas 15 anos. Em três épocas na A League, somou 61 jogos, 16 golos e oito assistências, incluindo um hat-trick em março de 2024.

O impacto apresentado tão cedo levou o Bayern Munique a avançar para a sua contratação em 2024, por cerca de 3,5 milhões de euros. O percurso na Alemanha, contudo, ficou aquém do esperado, uma vez que Irankunda nunca chegou a representar a equipa principal dos bávaros. Depois de meia época em Munique, foi cedido ao Grasshoppers, da Suíça, onde disputou 21 jogos, marcou um golo e fez três assistências. Já em 2025, seguiu para o Watford, por valores próximos dos três a quatro milhões de euros, e encontrou no futebol inglês um contexto competitivo mais exigente. Na temporada 2025/26, foi um dos jogadores mais utilizados da equipa, com mais de 40 jogos, quatro golos e quatro assistências, numa época em que o clube terminou o Championship no 16.º lugar.

O momento de maior exposição internacional chegou, porém, no Mundial de 2026, disputado nos Estados Unidos, Canadá e México. De relembrar que Irankunda foi titular em três dos quatro jogos da Austrália e marcou à Turquia na estreia, tornando-se no jogador mais jovem de sempre a marcar pela seleção australiana numa fase final de um Campeonato do Mundo. Foi também essa montra que ajudou a elevar o estatuto de um jogador que chega agora a Alvalade ainda com muito espaço para crescer.

Relativamente ao seu estilo de jogo, é no plano físico que Irankunda apresenta, desde logo, uma das suas características mais diferenciadoras e é precisamente aí que se encontra uma das razões pelas quais o Sporting avançou para a sua contratação.

Isto porque o extremo tem uma aceleração muito forte e capacidade para atingir rapidamente velocidades elevadas, o que lhe permite atacar a profundidade e ganhar metros mesmo quando recebe a bola longe da baliza. É uma característica particularmente interessante para o Sporting, tendo em conta a necessidade de acrescentar maior velocidade e capacidade de explorar o espaço nas costas das defesas adversárias.

De facto, o australiano sente-se mais confortável a partir do corredor direito, embora tenha capacidade para aparecer no corredor central e também pelo lado esquerdo. Essa versatilidade permite-lhe encaixar em diferentes configurações do ataque e dá a Rui Borges a possibilidade de alterar os posicionamentos dos extremos sem retirar ao jogador a sua principal capacidade de desequilíbrio. Irankunda é, acima de tudo, um jogador de aceleração e de progressão, mais orientado para atacar a baliza do que para assumir o papel de principal criador da equipa.

Adicionalmente, no um contra um, a velocidade junta-se a uma boa capacidade de drible e a uma condução de bola agressiva. Quando encontra espaço para arrancar, é difícil de travar, sobretudo porque consegue mudar de ritmo com facilidade e utilizar a potência física para ultrapassar adversários. Muitas das suas melhores ações surgem exatamente desta combinação entre explosão, condução e capacidade para procurar a baliza depois de partir de uma posição exterior.

O remate é outra das suas armas mais relevantes. Irankunda prefere o pé direito e tem capacidade para finalizar de média e longa distância, não hesitando em rematar mesmo quando ainda está afastado da área. É um recurso que pode acrescentar uma dimensão diferente ao ataque leonino, sobretudo contra adversários que consigam fechar os espaços junto à baliza. Nas bolas paradas, existe igualmente potencial para contribuir, com destaque para os livres diretos, área em que apresenta uma batida potente.

Há ainda uma característica que pode ser particularmente importante no modelo de Rui Borges. Há de se reparar que Irankunda movimenta-se bem sem bola e procura frequentemente as costas da defesa, sendo que, em vez de permanecer fixo junto à linha, pode aproximar-se da largura para atrair o defensor e, a partir daí, atacar o espaço interior com a sua aceleração. Quando consegue receber em condições para arrancar, transforma rapidamente uma situação aparentemente controlada numa jogada de perigo.

Naturalmente, a contratação de um jogador com estas características também implica aceitar algumas limitações, sobretudo porque Irankunda ainda está numa fase relativamente precoce do seu desenvolvimento enquanto futebolista.

Deste modo, a irregularidade é uma das principais questões, já que Irankunda alterna momentos em que consegue assumir o jogo e criar desequilíbrios constantes com períodos em que tem dificuldade em encontrar soluções e acaba por passar demasiado tempo afastado da influência ofensiva.

Por conseguinte, a tomada de decisão surge associada a esse problema, visto que a confiança na velocidade e no drible é uma das suas grandes virtudes, mas pode igualmente limitar algumas jogadas quando insiste na condução ou no duelo individual numa situação em que existiria uma solução mais simples através do passe. No último terço, terá de melhorar a leitura do momento em que deve acelerar, combinar, cruzar ou procurar diretamente a finalização.

Nestory Irankunda Watford
Fonte: Watford FC

Assim sendo, o contexto também terá, claro, bastante influência. Contra equipas que ofereçam espaço, Irankunda tem condições para explorar as suas melhores características e tornar-se um problema sério para qualquer defesa. Por outro lado, perante blocos baixos e jogos disputados em espaços mais reduzidos, terá de mostrar uma maior variedade nas soluções, combinando mais com os colegas e utilizando com maior frequência movimentos interiores, tabelas e passes para conseguir variar o seu padrão de jogo.

Do ponto de vista técnico, há igualmente uma boa margem de evolução. Realmente, algumas receções e passes curtos são executados com menor qualidade do que seria desejável e os cruzamentos e passes longos saem, por vezes, com força excessiva. Além disso, a utilização do pé esquerdo também pode ser mais bem explorada, sobretudo porque possui capacidade para rematar com esse pé e poderia tornar-se menos previsível se recorresse a ele com maior frequência.

A componente defensiva é outra área que exigirá trabalho. Irankunda ainda revela alguma inconsistência na pressão, na recuperação da posição e na agressividade sem bola. Em determinados momentos, também abandona demasiado cedo o lance ou não consegue fechar a linha de passe no momento certo. Para uma equipa que pretende controlar os jogos através de uma pressão organizada, será importante que esta componente evolua.

Desta forma, a disciplina também merece uma especial atenção. Nas últimas três épocas, acumulou 37 cartões amarelos, com 11 em 2023/24, 12 em 2024/25 e 14 em 2025/26, além de um cartão vermelho na última temporada, sendo que, parte deste registo está relacionada com a juventude e com a forma intensa como disputa determinados lances, mas será uma área que terá de ser acompanhada de perto em Alvalade.

Posto isto, a forma como Irankunda poderá ser utilizado por Rui Borges também depende das soluções que o Sporting já tem no setor ofensivo e da própria configuração do plantel leonino.Luís Guilherme e Geny Catamo podem atuar no corredor direito, enquanto Rodrigo Zalazar também tem características que lhe permitem ocupar essa zona em determinadas circunstâncias. Por isso, a contratação do australiano não deve ser interpretada como uma solução exclusivamente pensada para uma posição fixa.

Neste sentido, essa capacidade para atuar nos três corredores ofensivos é justamente uma das suas vantagens. No fundo, Irankunda pode começar à direita e aparecer por dentro, jogar à esquerda ou ser utilizado como uma solução para explorar a profundidade quando o Sporting precisar de acelerar o jogo, logo essa versatilidade permite ao treinador utilizar o jogador de acordo com o adversário e com o momento da partida.

Esta contratação também ganha outro significado quando colocada ao lado de Yeremay Hernández, aquele que pareceu ter sido o grande alvo leonino para o ataque durante boa parte do mercado. Efetivamente, o espanhol apresenta um perfil mais consolidado e um estatuto diferente, enquanto Irankunda chega ainda numa fase de afirmação. Tendo isso em vista, o australiano pode ser visto como uma espécie de plano B, embora com características próprias e com potencial para se transformar numa solução importante a médio prazo.

A diferença parece estar sobretudo na forma como os dois jogadores podem interpretar o jogo, na medida em que Irankunda é mais acelerador, mais orientado para a profundidade e para o duelo individual em espaços largos, pelo que a sua capacidade de progressão pode ser especialmente valiosa em partidas nas quais o Sporting encontra dificuldades para desmontar uma estrutura defensiva organizada.

Consequentemente, é aí que pode aparecer o seu maior impacto, isto é, num jogo fechado que exija uma ação individual para ser desbloqueado. Uma arrancada, um duelo ganho, um remate de fora da área ou um livre direto podem mudar completamente o encontro, mesmo quando a equipa não está a conseguir criar através da circulação de bola.

No contexto global da operação, a contratação de Irankunda representa uma aposta que procura responder a uma necessidade do presente sem perder de vista o potencial de valorização para os próximos anos.

Repare-se que o Sporting investe 15 milhões de euros fixos e pode chegar aos 18 milhões caso sejam cumpridos os objetivos previstos no acordo. Para um jogador de 20 anos, com passagem pelo Bayern Munique, experiência no Championship e presença num Campeonato do Mundo, o clube leonino identifica claramente um potencial de valorização significativo.

Em síntese, Irankunda chega a Alvalade com uma característica que pode fazer a diferença desde o primeiro momento: a capacidade de acelerar um ataque. Claro que ainda precisa de ganhar consistência, melhorar a decisão e diversificar as soluções técnicas, além de evoluir na reação à perda e na disciplina. Contudo, aos 20 anos, existe mais do que tempo suficiente para trabalhar essas componentes.

Rui Borges recebe, por isso, uma espécie de flecha para o ataque. Um extremo explosivo, potente e capaz de atuar em diferentes zonas, com margem para crescer e com ferramentas particularmente úteis contra adversários que consigam fechar os espaços interiores.

A grande questão será perceber até onde tanto o técnico luso como o extremo australiano conseguem levar essas características.

Basicamente, se transformar a velocidade e o drible em decisões mais eficazes, se conseguir acrescentar maior variedade ao seu jogo e se melhorar o comportamento sem bola, Irankunda poderá deixar de ser apenas uma aposta de futuro para se tornar uma solução de presente. Em Alvalade, terá agora o cenário necessário para dar o passo que ficou por concretizar em Munique e que começou a desenhar no segundo escalão do futebol inglês.

Finalmente, o Sporting espera que seja o próximo grande capítulo de uma carreira que começou num campo de refugiados em Kigoma e que, duas décadas depois, encontra em Lisboa uma nova oportunidade para acelerar.

Raul Saraiva
Raul Saraiva
O Raúl tem 19 anos e está a tirar a Licenciatura em Ciências da Comunicação. Pretende seguir Jornalismo, de preferência desportivo. Acredita que se aprende diariamente e que, por isso, o desporto pode ser melhor.

Subscreve!

Artigos Populares

Diego Simeone confirma continuidade de Julián Álvarez: «É como em tribunal: já não há margem para dúvidas»

Diego Simeone confirmou a permanência de Julián Álvarez no Atlético Madrid, recorrendo a uma decisão da direção para encerrar o caso.

Sunderland aperta o cerco: Eis o salário oferecido pelos ingleses a Geny Catamo

O Sunderland está disposto a pagar três milhões de euros limpos anuais a Geny Catamo. Espera-se agora pelas negociações entre clubes.

Já está em Milão o próximo reforço para o AC Milan de Ruben Amorim

Diego Moreira já está em Milão para reforçar o AC Milan. Extremo de 22 anos tem exames médicos marcados para esta terça-feira.

AC Milan de Ruben Amorim define preço para vender Christopher Nkunku

O AC Milan de Ruben Amorim pede 35 milhões de euros por Christopher Nkunku. Há interessados na Bundesliga, Premier League e Arábia Saudita.

PUB

Mais Artigos Populares

Benfica faz proposta por João Palhinha: eis os valores

O Benfica apresentou uma proposta ao Bayern Munique por João Palhinha. 15 milhões de euros + 5 milhões de euros de bónus por objetivos.

Histórico: Benfica não marcava assim há 65 anos em noite de recorde para Vangelis Pavlidis

O Benfica assinou um arranque goleador sem precedentes há 65 anos, marcado pelo hat-trick de Vangelis Pavlidis.

Amar Dedic despede-se do Benfica: «Foi uma das maiores honras da minha vida»

Amar Dedic despediu-se do Benfica, através das suas redes sociais, com uma mensagem antes de rumar ao Newcastle.