Do conforto ao aperto, do aperto ao apuramento | Áustria Viena 0-0 Braga

- Advertisement -

O SC Braga empatou 0-0 com o Áustria Viena, na segunda mão do play-off da Conference League, e confirmou o apuramento para a fase de liga, depois do triunfo por 2-0 conseguido na Pedreira. O resultado permitiu aos minhotos seguir em frente sem sofrer golos na Áustria, embora a noite tenha estado longe de ser tranquila, sobretudo durante uma primeira hora em que a equipa de Carlos Vicens mostrou uma versão demasiado passiva para aquilo que se esperava de um conjunto que quer assumir-se como candidato na competição.

Ora, para contextualizar, a vantagem trazida de Braga era confortável e, naturalmente, condicionava o jogo. O Áustria Viena precisava de marcar e tinha de correr riscos, enquanto aos bracarenses bastava gerir aquilo que já tinha construído. O problema foi que, durante largos minutos, a gestão confundiu-se com uma espera excessiva, deixando a formação austríaca tomar conta da bola, instalar-se no meio-campo português e acreditar que a eliminatória ainda podia ser recuperada.

O ambiente da Generali Arena ajudou a criar essa sensação. Deste modo, o Áustria Viena entrou com uma atitude completamente diferente daquela que tinha apresentado na Pedreira, muito mais agressivo, mais ambicioso e disposto a explorar todos os espaços que encontrasse. Pela meia-direita, Manfred Fischer movimentava-se com inteligência, a equipa conseguia ocupar praticamente toda a largura do campo e, sobretudo através do corredor central, chegava com demasiada facilidade a zonas onde podia criar perigo.

Nesse sentido, Johannes Eggestein foi a principal dor de cabeça. O avançado alemão apareceu várias vezes em zonas diferentes do ataque, obrigando os jogadores do Braga a acompanhar movimentos e a tomar decisões sob pressão. Num desses momentos, obrigou Bernardo Fontes a uma intervenção importante, com o guarda-redes brasileiro a defender em dois tempos e a impedir que um ressalto colocasse Julian Hettwer numa situação ainda mais perigosa.

Bernardo Fontes acabou, de resto, por ser uma das figuras silenciosas desta passagem. Quando uma equipa não consegue ter bola e permite ao adversário aproximar-se demasiadas vezes da sua área, o guarda-redes passa a carregar uma responsabilidade acrescida, e o brasileiro respondeu com a segurança necessária. Ainda está a construir o seu espaço na baliza bracarense, mas estas noites ajudam a perceber que pode haver ali mais do que uma simples solução temporária.

Do outro lado, estava um Braga demasiado pouco parecido com aquilo que Carlos Vicens procura construir. A posse de bola, uma das principais ferramentas da ideia do treinador espanhol, desapareceu em vários momentos, com passes falhados, perdas de bola e alguma indecisão na construção a oferecerem ao Áustria Viena uma iniciativa que dificilmente poderia interessar aos minhotos. Para uma equipa habituada a procurar o controlo através da bola, passar tantos minutos a correr atrás dela foi uma anomalia evidente.

João Moutinho, Braga
Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede

Posto isto, foi João Moutinho quem melhor percebeu o que era preciso fazer para evitar que essa anomalia se transformasse num problema maior. O internacional luso voltou a ser o patrão da equipa, tal como já tinha acontecido na primeira mão, oferecendo serenidade quando os colegas pareciam mais desconfortáveis e dando qualidade à circulação sempre que conseguia receber em condições. Com e sem bola, houve muito Moutinho no jogo do Braga, seja pela voz de comando que ajuda a organizar a pressão, seja pela inteligência com que sabe dar outra ordem ao coletivo.

É cada vez mais impressionante que, perto dos 40 anos, continue a ser uma espécie de mecanismo central de uma turma que pretende jogar com ambição europeia. Não precisa de aparecer constantemente no plano individual para influenciar o encontro. Basta-lhe estar no sítio certo, perceber o momento e escolher a decisão que permite aos outros jogadores respirar.

Por conseguinte, os minhotos foram crescendo ainda na primeira parte e encontrou finalmente alguns espaços para atacar, sobretudo pelo lado esquerdo. Gabriel Silva foi o mais perigoso dos lusos e obrigou Samuel Radlinger a uma excelente defesa num remate em arco, enquanto Pau Víctor também teve uma oportunidade interessante depois de combinar com Diego Rodrigues, embora tenha demorado demasiado a definir. Era uma amostra daquilo que poderia ter acontecido com maior frequência se o Braga tivesse procurado a bola com mais convicção.

O intervalo, no entanto, não levou consigo os problemas. O Áustria Viena voltou a entrar melhor na segunda parte e esteve muito perto de marcar, com Eggestein a desperdiçar uma oportunidade soberana. O conjunto de Stephan Helm continuava a acreditar, a bancada continuava a empurrar e o Braga permanecia demasiado dependente da vantagem conquistada uma semana antes.

Foi sensivelmente nesse momento que Carlos Vicens teve de intervir, sendo que a entrada de Diogo Travassos e Mario Dorgeles (saíram Diego Rodrigues e Fran Navarro) aos 55 minutos mudou o jogo. Travassos deu outra capacidade ao corredor esquerdo, Dorgeles trouxe velocidade e presença pela direita e Gabriel Silva passou a aparecer mais por dentro, permitindo aos lusos terem uma configuração ofensiva diferente.

A equipa ganhou, portanto, um maior equilíbrio, começou a afastar o Áustria Viena da sua área e passou a controlar melhor um jogo que, até então, estava demasiado próximo do cenário que os austríacos pretendiam.

Aqui esteve, provavelmente, o momento em que mais se sentiu o dedo do treinador. Vicens percebeu que a equipa precisava de outra energia e não esperou que a situação se agravasse para agir. As alterações ajudaram a congelar o ritmo dos austríacos e, curiosamente, foi nessa fase de maior controlo que o Braga criou a melhor oportunidade da segunda parte.

Carlos Vicens, Braga
Fonte: João Pedro Nunes / Bola na Rede

Travassos recuperou a bola ainda no meio-campo defensivo e arrancou pela esquerda, percorrendo uma enorme distância até entrar na área e rematar de pé direito. Radlinger voltou a responder com qualidade, numa intervenção corajosa perante o camisola 7, impedindo um golo que teria colocado ainda mais brilho numa entrada muito positiva do jogador português.

Consequentemente, Radlinger também merece crédito. O guarda-redes austríaco não teve o trabalho que conheceu na primeira mão, mas apareceu quando foi chamado e manteve a sua formação viva até ao final. A defesa perante Travassos foi o melhor exemplo disso e acabou por ser uma das imagens mais interessantes de uma segunda parte em que o sentido do jogo começou a inverter-se.

Enquanto o Braga crescia, o Áustria Viena começava a perder força. A intensidade dos primeiros minutos tinha um preço e as saídas de Eggestein e Kelvin Boateng retiraram capacidade ao ataque. A equipa de Helm deixou de conseguir aproximar-se da baliza de Bernardo Fontes com a mesma facilidade, e os últimos 25 minutos acabaram por pertencer mais aos portugueses, que ainda tiveram oportunidades para marcar, através de Gustaf Lagerbielke e Gabri Martínez.

Lagerbielke, aliás, foi outro dos elementos importantes numa noite em que o Braga nem sempre esteve confortável. O central sueco foi imperial entre os três defesas, sobretudo no jogo aéreo, e conseguiu manter alguma estabilidade nos momentos em que o coletivo parecia mais vulnerável.

Stephan Helm, por seu lado, não encontrou resposta para as mudanças de Vicens. O Áustria Viena teve mérito na postura, sobretudo porque entrou em campo com verdadeira vontade de virar uma eliminatória que parecia praticamente perdida, mas ficou demasiado dependente das bolas longas e de ataques pouco trabalhados no último terço, até porque, quando os minhotos fecharam os espaços e conseguiu controlar melhor a partida, faltaram soluções para voltar a criar o mesmo perigo.

Gabriel Silva, Braga
Fonte: Paulo Ladeira/Bola na Rede

E é aqui que o rescaldo deixa uma conclusão que vai além do simples apuramento. O Braga foi melhor do que o Áustria Viena no conjunto das duas mãos e merece estar na fase de liga da Liga Conferência, mas esta segunda mão mostrou que ainda há muito a melhorar se a equipa quiser realmente vestir a pele de candidata que o seu percurso europeu recente permite ambicionar.

A incapacidade para manter a bola foi demasiado evidente e, sobretudo, pouco habitual num conjunto orientado por Vicens. Muitas perdas, passes falhados e indecisões na construção deram ao Áustria Viena uma quantidade de oportunidades e de iniciativa que poderia ter custado caro. A vantagem de 0-2 permitiu, claro está, sobreviver a esses momentos, Bernardo Fontes apareceu quando foi necessário e o treinador corrigiu o problema a tempo, mas convém não transformar este tipo de gestão numa rotina.

Ainda assim, há motivos para retirar algo de positivo desta noite. Os portugueses mostraram capacidade para resistir, demonstrou que tem jogadores capazes de alterar o rumo de um jogo e confirmou que existe vida para além do onze mais utilizado. A estreia do avançado Jovan Milosevic, já na reta final, foi um bom exemplo disso e permitiu ao reforço sérvio começar a sentir o contexto competitivo da nova equipa.

No fundo, a eliminatória foi decidida na Pedreira, mas a passagem também teve de ser protegida em Viena. O Braga trouxe consigo uma almofada suficientemente confortável para permitir alguma margem de erro e soube utilizá-la, mesmo quando a formação austríaca fez tudo para transformar aquela vantagem numa memória distante.

Agora, a fasquia sobe. A fase de liga vai exigir mais qualidade, maior consistência e, sobretudo, uma versão do SC Braga mais próxima daquela que Carlos Vicens quer ver em campo. Em Viena, houve momentos em que a equipa pareceu esquecer-se de que controlar um jogo através da posse também é uma forma de se defender.

Para já, chegou. Mas, se a ambição é realmente ir além de uma simples presença na Liga Conferência, será preciso que a almofada deixe de ser tão necessária. Veremos agora o que o sorteio desta sexta-feira reserva à turma bracarense.

Raul Saraiva
Raul Saraiva
O Raúl tem 19 anos e está a tirar a Licenciatura em Ciências da Comunicação. Pretende seguir Jornalismo, de preferência desportivo. Acredita que se aprende diariamente e que, por isso, o desporto pode ser melhor.

Subscreve!

Artigos Populares

Conhece os 9 treinadores portugueses na Europa League e Conference League

Há, entre a Europa LEague e a Conference League, nove treinadores portugueses. Maior concentração na 2.ª competição da UEFA.

Sorteio da Champions League: sonhos, desafios e grandes duelos

O formato mais recente da Champions League, ao contrário do anterior, está nitidamente desenhado para muitos grandes jogos

André Villas-Boas segura 2 jogadores no FC Porto e antecipa últimos dias de mercado: «No ano passado também fizemos operações nos últimos dias»

André Villas-Boas reagiu ao sorteio da Champions League dos dragões. Presidente do FC Porto falou de mercado.

André Villas-Boas revela alvo de mercado do FC Porto com elogios ao mercado polaco: «Têm uma boa geração de ouro»

André Villas-Boas reagiu ao sorteio da Champions League dos dragões. Presidente do FC Porto confidenciou conversas por Bartosz Mazurek.

PUB

Mais Artigos Populares

André Villas-Boas revela prazo para o regresso de Oskar Pietuszewski e elogia polacos do FC Porto: «É uma honra para nós, mais e mais...

André Villas-Boas reagiu ao sorteio da Champions League dos dragões. Presidente do FC Porto falou dos polacos.

Rui Costa comenta contratação de João Palhinha: «Enaltecer a sua vontade desde o primeiro dia»

Rui Costa falou depois do apuramento do Benfica para a Europa League. Presidente encarnado comentou atualidade do clube.

André Villas-Boas quer preparar 2 homenagens a antigos jogadores do FC Porto na Champions League: «Muitas emoções à mistura»

André Villas-Boas reagiu ao sorteio da Champions League dos dragões. Presidente do FC Porto falou dos adversários.