O regresso aos Barreiros ditou mais um triunfo categórico para o Benfica de Marco Silva. A vitória por 0-3 na Madeira não foi apenas uma demonstração de superioridade no marcador, mas sim um teste à capacidade de adaptação da equipa perante adversidades físicas e um relvado em péssimas condições. Entre a estreia a titular de João Palhinha, o bis de um Leandro Barreiro de passada larga e mais um recital de Gianluca Prestianni, as águias cimentaram processos e somaram a quinta vitória consecutiva na temporada.
A grande novidade no onze encarnado trouxe o equilíbrio que há muito se pedia ao meio-campo. Com João Palhinha a assumir a posição seis por troca com Enzo Barrenechea, o Benfica ganhou um autêntico tampão nas transições defensivas. O internacional português varreu o miolo com 14 ações defensivas, dominou os duelos físicos e permitiu que a equipa jogasse subida sem o pânico do contra-ataque adversário. Quando o Marítimo tentava explorar o espaço nas costas da defesa, encontrava invariavelmente a cobertura rapidíssima de Tomás Araújo, imperial no controlo da profundidade ao longo de toda a tarde.


Apesar do golo madrugador de Barreiro, muito atento a aproveitar uma recarga incompleta após o remate inicial de Prestianni, a fluidez do Benfica sofreu um rude golpe aos 14 minutos. A lesão aparatosa de Alexander Bah forçou a entrada de Jakub Kaminski para lateral direito, uma adaptação que retirou naturalidade ao flanco. O polaco mostrou-se desconfortável e muito errático no posicionamento, a equipa passou a pender excessivamente para a esquerda e o jogo mastigou-se no meio-campo, muito por culpa de um relvado indigno que condicionava qualquer tentativa de posse apoiada.
A momento chave da partida, que sentenciou as esperanças insulares, deu-se no segundo tempo. O Marítimo entrou atrevido, subiu linhas e chegou a ameaçar o empate, mas Marco Silva leu bem o jogo e mexeu na estrutura. A entrada de Circati para a lateral direita libertou Kaminski para terrenos mais adiantados, enquanto Schjelderup encostou à esquerda e Prestianni assumiu a zona central. A resposta foi imediata e culminou no golo da tranquilidade aos 71 minutos, num canto batido de forma curta à esquerda, Prestianni bombeou a bola com régua e esquadro para o segundo poste, Pavlidis amorteceu de cabeça para a pequena área e Leandro Barreiro, com um sentido posicional notável, surgiu a encostar para o 0-2.
Uma jogada estudada que premeia a inteligência do luxemburguês, um médio que sabe perfeitamente compensar as suas limitações técnicas pisando os espaços exatos na hora de finalizar.
Com o adversário no tapete e a ligação entre Schjelderup e Prestianni a espalhar magia, o argentino decidiu fechar o jogo com uma autêntica obra de arte. Aos 82 minutos, arrancou com a bola dominada perto da linha de meio-campo, resistiu à pressão, fletiu para dentro em drible e disparou colocado para o 0-3. Foi o corolário lógico de uma exibição formidável do pequeno génio, que esteve na génese dos três golos e se assume, de forma cada vez mais indiscutível, como o principal motor criativo deste Benfica.
Ultrapassar a deslocação à Madeira com a baliza a zeros e três golos marcados, num dia em que Rafa esteve apagado e Sudakov não deslumbrou, prova que o plantel encarnado tem hoje soluções para diferentes cenários. O Benfica respira confiança e mostra que, quer através da organização inicial quer através das reações táticas a partir do banco, a engrenagem está finalmente a rodar a alta rotação.

