José Boto falou em exclusivo com o Bola na Rede, onde abordou alguns temas do futebol brasileiro e português. As declarações foram prestadas durante o Portugal Football Summit.
José Boto deu uma entrevista em exclusivo ao Bola na Rede, abordando uma série de temas desde a chegada de Jorge Jesus à seleção nacional até à temporada do Flamengo, emblema onde desempenha as funções de diretor desportivo. As declarações foram prestadas durante o Portugal Football Summit.
Bola na Rede: O Flamengo assumiu recentemente a liderança do Brasileirão. Pedia-lhe que nos fizesse uma avaliação da temporada e quais são os objetivos até ao final da época.
José Boto: A avaliação só vamos fazer no fim e os objetivos são ganhar todas as competições em que entramos. Não há outra hipótese pela história do clube, pelo nome do clube, por aquilo que os adeptos nos pedem e também pelo investimento que fazemos. Sabemos que é difícil repetir o ano que fizemos no ano passado se o fizermos este ano, é algo inédito no futebol sul-americano. O PSG fez agora duas Champions e dois campeonatos seguidos e nós gostaríamos de o fazer. Era bom também para o futebol português, não só por ser mais um treinador português a conseguir esse feito, mas por um diretor o conseguir na América do Sul e outro na Europa, o que diria muito da qualidade do dirigismo português.
Bola na Rede: É uma das referências no que diz respeito à direção desportiva. Questiono se a chegada de profissionais de elite faz com que o Brasileirão possa ser cada vez mais comparado a uma Big 5.
José Boto: Lembro-me de que o Jorge Jesus, quando treinava o Flamengo, dizia que a liga brasileira estava ao nível da Premier League e eu achava aquilo um pouco exagerado e disparatado. Estando lá há quase dois anos, posso dizer que, ao nível da paixão e da competição porque é super competitivo, embora no fim a luta se resuma a dois clubes, é extremamente competitivo. Não há aquela ideia de já ter ganho 80% ou 85% dos jogos por as equipas serem fracas. As equipas tiram vantagem de diferentes condições climáticas e de diferentes tipos de relvado (sintéticos ou relva por vezes muito má), o que torna a competição super difícil. Acho que é um produto que, se for bem vendido, estaria ao nível das Big Five europeias.
Bola na Rede: E gosta?
José Boto: Gostar, gosto. É uma experiência de vida enorme. Se me pergunta se gosto de viver no Rio de Janeiro, ao contrário do que quase toda a gente pensa, de todos os sítios onde estive é talvez onde tenho uma vida privada e social pior. Isto tem a ver com a dimensão do Flamengo e com a exposição mediática da figura do diretor de futebol, o que obriga a ter uma vida mais recatada, além dos problemas de segurança que existem no Rio de Janeiro.
Bola na Rede: Com a aposta em Leonardo Jardim na sucessão do Filipe Luís, quais são as grandes virtudes dele como treinador?
José Boto: Vou repetir-me porque acho que já disse isto várias vezes: é um treinador a quem chamo camaleónico. É alguém que se adapta muito facilmente ao que tem e às circunstâncias. Isso é muito importante num clube como o Flamengo, que não se pode dar ao luxo de fazer as vontades aos treinadores ou esperar por um modelo a ser implementado. Como a nossa exigência é ganhar, é preciso entrar e adaptar-se rapidamente ao contexto e ao plantel. Essa é uma das grandes valências dele, além de um grande conhecimento de futebol: adapta-se facilmente ao que tem e tira o maior partido do plantel e de todo o envolvimento do clube.
Bola na Rede: Há pouco falou de Jorge Jesus, com quem se cruzou no Benfica. Como vê esta aventura dele?
José Boto: Vejo duas coisas boas: é bom para o futebol português, porque ele é realmente um dos melhores treinadores portugueses. Existem outros muito bons, mas talvez ainda não tenham idade para uma seleção e estão muito ligados a clubes. É também um prémio para a carreira do Jorge Jesus, alguém que vem de baixo e um exemplo para todos. Sendo uma pessoa carismática, acho que foi um casamento perfeito na altura exata, tirando partido de talvez a melhor geração de talentos da história do futebol português.
Bola na Rede: O Jorge Jesus regressou a Portugal recentemente. Para quando o seu regresso a Portugal?
José Boto: Não faço ideia. O futebol ensina-nos a não fazer grandes planos. Neste momento estou completamente focado nos objetivos da época do Flamengo; depois logo paramos para pensar nos passos seguintes da carreira.
Bola na Rede: Para fecharmos, quer deixar uma mensagem para os adeptos?
José Boto: Que confiem no trabalho que estamos a fazer, que nos apoiem e façam como no último jogo da Libertadores: quando ficámos reduzidos a 10 jogadores, eles entraram em campo e foram o 11.º elemento. Quando o Maracanã puxa todo para o mesmo lado, é muito difícil para qualquer adversário jogar ali.
Entrevista transcrita por Manuel Nascimento.

