Rui Pedro Braz relembrou o desentendimento com João Félix, abordou a experiência no Al Ahli e refletiu sobre o futuro de Cristiano Ronaldo.
Rui Pedro Braz abandonou recentemente o cargo de diretor desportivo do Al Ahli, depois de 11 meses ao serviço do clube saudita. Em entrevista ao jornal A Bola, começou por abordar o desentendimento com João Félix, após a vitória frente ao Al Nassr na temporada passada:
«Completamente. Já falei várias vezes com o João depois disso, ele percebeu perfeitamente que foi um mal-entendido. O Al Nassr estava a fazer uma temporada absolutamente fantástica, sob o comando magistral do mister Jorge Jesus, uma equipa liderada pelo Cristiano. Se não ganhássemos aquele jogo ficávamos imediatamente arredados do título. Nesse dia não tínhamos o Ibañez, expulso no jogo anterior, e não tínhamos Mendy, Mahrez e Kessié, que estavam na CAN. O nosso guarda-redes foi o Sanbi, saudita, e na primeira parte estamos a ganhar 2-0 e ele comete um erro grave que relança o jogo. Vamos para o intervalo empatados e aí os jogadores uniram-se em torno do Sanbi. Acabámos por ganhar e o Sanbi fez algumas intervenções muito felizes. Naquele momento pensei apenas em festejar com aquele jovem que tinha acabado de passar por um momento tão difícil. Nem me apercebi que estava a passar pelo João, e quando ele me chamou a atenção fiquei um pouco incrédulo. Depois é que percebi. Pedi desculpa ao João, mas, como é evidente, estava toda a gente de cabeça quente. Depois disso já falámos e tudo ficou sanado».
Questionado sobre os vários duelos contra Cristiano Ronaldo no futebol saudita, Rui Pedro Braz afirmou:
«Mantém intactas muitas das características que fizeram dele o maior jogador português de sempre, um dos maiores da história do futebol mundial. Continua a ser a referência maior do futebol saudita. Foi campeão na temporada passada com toda a justiça, continua a marcar golos para todos os gostos, e é um exemplo para todos».
O antigo dirigente do Benfica mostrou-se confiante que Cristiano Ronaldo chegará aos 1000 golos na carreira:
«Muito rápido. Acho que é uma inevitabilidade, e a vantagem que o Al Nassr possa ter em relação a todos os outros, é ter o Cristiano Ronaldo. Não estou lá dentro, mas tenho a certeza de que ele obriga toda a gente a trabalhar no limite. Eleva os índices de exigência, disciplina, rigor e compromisso. Até no cumprimento de horários, e isso ali faz muita diferença. Na Arábia Saudita há muita gente que não entende que, a este nível, todos os detalhes ajudam a ganhar jogos e até campeonatos. O Cristiano incutiu ali um espírito extraordinário. Esse extra de chegar a horas, ou até antes do horário, de fazer a regeneração como deve ser, dormir bem, comer bem, treinar bem… Ainda há um longo caminho a percorrer no futebol saudita nesse aspeto. No Al Ahli era uma luta constante, mas havia sempre quem achasse que eu era demasiado exigente. Temos de aceitar que há formas diferentes de encarar o futebol profissional, e está tudo certo. Não há fórmulas mágicas nem um só caminho para o sucesso».
Rui Pedro Braz refletiu sobre a experiência no futebol saudita:
«É sempre interessante conhecer novas culturas, como é evidente, é uma Liga muito excitante do ponto de vista dos grandes nomes que defrontas. Sadio Mané, Cristiano Ronaldo, João Félix, Rúben Neves, Koulibaly, Watkins, Summerville, Benzema. E mesmo nas outras equipas fora do PIF: Retegui, Ferreira-Carrasco, Quiñones, Wijnaldum… Ao nível da organização estão a ser dados passos muito sólidos no sentido de melhorar a competição. O diretor de operações e competições teve essa função no Brasil, provavelmente a liga mais difícil de organizar em todo o mundo. Está a fazer um trabalho extraordinário. Mas também aprendes a dar valor a outras coisas que tens no teu país. Se calhar tenho hoje muito mais respeito pela comunicação social em Portugal, porque, independentemente de existirem comentadores, jornalistas ou analistas que não gostam de ti, que não gostam do teu trabalho e que têm uma opinião menos favorável a teu respeito, é tudo dentro de certos limites profissionais. Ali, salvo raras excepções, isso não existe, é tudo demasiado irracional e emocional, tendencioso e sem filtro. Resumindo, foi um ano entusiasmante, mas é uma experiência que está arrumada».
Sobre o nível competitivo da Liga Saudita, referiu:
«Há ainda uma diferença assinalável. Não vale a pena tentarmos escamotear a realidade. É uma liga que já está ao nível de muitas ligas europeias, mas comparativamente com as Big Five, por exemplo, ainda fica um bocadinho aquém. A Liga Saudita foi a sexta liga com mais jogadores no Campeonato do Mundo, o que é muito significativo. Mas basta ter em conta que, nos últimos três anos, as equipas do Médio Oriente perderam sempre contra as equipas africanas na Taça Intercontinental. O Al Ain perdeu contra o Al Ahly do Egipto, e o Al Ahli perdeu contra o Pyramids no ano passado, e agora com o Mamelodi Sundowns. Ainda há um caminho a percorrer, mas também um interesse muito grande em fazer evoluir o futebol saudita até ao Mundial 2034. Está a ser feito um trabalho muito honesto, sério e empenhado, mas ou existe maior capacidade para receber os profissionais estrangeiros e beber aquilo que eles têm para ensinar e acrescentar, ou então vai ser uma evolução mais lenta do que aquilo que seria de esperar».
Por fim, Rui Pedro Braz afastou a possibilidade de voltar a trabalhar na Liga Saudita:
«Não, creio que não faz qualquer sentido. Curiosamente fui abordado por um Presidente de outro clube da SPL, mal se começou a falar da minha saída, mas declinei respeitosamente, apesar de o convite ter partido de uma das melhores pessoas que conheci no futebol saudita. Depois de um ano tão intenso, acho que é um capítulo fechado para mim. Recomendo a qualquer profissional que queira viver essa experiência, até porque financeiramente é muito aliciante, mas não é uma experiência que queira repetir».

