O Passado Também Chuta: A Taça do Mundo

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Enquanto oiço sem ver uma televisão enragé a falar das vicissitudes do Sporting adentro-me na história do Campeonato do Mundo. Jules Rimet depois de ser nomeado presidente da FIFA teve a feliz ideia. Corria o ano de 1930 e alguém se lembrou do Uruguai para sede deste primeiro acontecimento. Jules Rimet manteve-se na presidência da FIFA desde 1921 a 1954. O rescaldo da 1.ª Guerra Mundial ainda pairava na mente das pessoas e o desporto ainda tinha uma raiz filosófica fraternal entre as pessoas. Jules Rimet lança a ideia do Campeonato Mundial com essa ambição e desejo: a fraternidade entre os povos.

A 2.ª Guerra Mundial truncou o acontecimento durante os anos de 1944 e 1946. Veio 1950 e voltou o futebol mundial como jogo fraterno entre os povos. Jules Rimet manteve o seu empenho.  Hoje, tudo é espetáculo e tudo é turismo pret-à-porter. Os jogadores eram vistos na rua. Entravam nos bares onde estava o amante do futebol que antes do jogo estragara os sapatos a jogar na rua com uma bola de trapos. Existia amor, desejo, prazer enquanto que vivemos tempos de vontades vorazes e de dedicações obsessivas que afirmam egoísmos que negam a condição de jogo coletivo.

Este acontecimento tal como os Jogos Olímpicos foram uma espécie de embriões da Aldeia Global que vivemos. Golos ou jogadas magistrais correram o mundo e a admiração dos espetadores, para além da sua condição nativa, gravou na sua memória e coração através dos anos. As fintas descomunais de Garrincha no Mundial da Suécia que passavam nos cinemas durantes os intervalos deixavam os olhos esbugalhados a velhos e novos. A jogada diabólica do Maradona contra Inglaterra mostrou como se pode ser único com uma bola no pé esquerdo.

Jules Rimet foi um criador no seu tempo
Fonte: FIFA

A cobertura do Vicente ao Pelé no Mundial de Inglaterra mostrou como se seca um monstro do futebol. A jogada realizada pelo duo Simões-Eusébio no início da 2ª parte do Portugal-Coreia que marcou a recuperação da seleção portuguesa, significam a união de dois génios a lançar-se para uma meta coletiva. Estes símbolos e mitos de alguma forma mantêm a ideia de demonstração fraterna que esteve na origem protagonizada por Jules Rimet.

Jules Rimet foi um criador e no seu tempo foi reconhecido como tal. A Taça do Mundo passou a ter o seu nome em 1946. Mas, não se pode escrever, minimamente, deste mega-acontecimento sem deixar menção de dois mitos que representam o orgasmo durante o jogo: o golo. Fontaine no Mundial da Suécia tornou-se o goleador histórico e de referência ao marcar treze golos enquanto que o génio brasileiro Ronaldo é, no conjunto dos Mundiais em que participou, o máximo goleador com dezasseis golos.

Deixo para o último paragrafo a ingratidão e a injustiça que a FIFA protagonizou em 1970. A Taça Jules Rimet perdeu o seu nome e deixou de ser memória, possivelmente, em vias das técnicas emergentes de marketing. Como sou um apanhado pelas raízes e as emoções que transmitem este campeonato será sempre a Taça Jules Rimet. Apagar o passado pela importância ou valor do negócio significa apagar o presente.

Foto de Capa: FIFA

José Luís Montero
José Luís Montero
Poeta de profissão, José simpatiza com o Oriental e com o Sangalhos.                                                                                                                                                 O José não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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