A Maldição de Guttman ou a Maldição do Futebol?

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Em véspera dos jogos da Liga dos Campeões é bastante oportuno falar de algo que deixa qualquer adepto do Sport Lisboa e Benfica com alguma ânsia. Foi precisamente há 56 anos que o Benfica levantou a sua última taça europeia. Dentro deste espaço de tempo as Águias já tiveram mais oito oportunidades de levar o ouro para casa. Foram cinco finais da Taça dos Campeões Europeus, uma final da Copa UEFA, e duas da Liga Europa. Foram oito vezes que o Benfica saiu como primeiro dos últimos e deixou os adeptos com a amargura da derrota.

Foi com Béla Guttman ao comando que o Benfica se sagrou campeão europeu duas vezes seguidas, nas épocas de 1960/61 e 1961/62, logo a seguir ao Real Madrid ter ganho as cinco primeiras edições da competição. A primeira final vencida foi frente ao Barcelona, por 3-2, com golos de Mário Coluna e José Águas, e um autogolo de Antoni Ramallets. A segunda foi mesmo frente ao Real Madrid, por 5-3, com golos de José Águas, Cavém, Mário Coluna, e um bis de Eusébio. Desde aí nunca mais o Benfica saiu vitorioso de uma final europeia, também foi nesse ano que Guttman deixou o Sport Lisboa e Benfica.

Béla Guttman nunca tinha treinado nenhum clube por mais de três anos antes de vir para o Benfica, no entanto quis quebrar a rotina e terá tentado ficar por Lisboa mais um ano, mas o prolongamento da sua estadia não seria tão fácil quanto isso. Guttman exigiu um aumento de salário, o qual lhe foi negado. Não terá ficado feliz com esta nega, e acabou mesmo por sair. Antes de bater com a porta, Guttman proferiu (ou terá lançado o feitiço?): “nem nos próximos cem anos o Benfica irá vencer outra competição europeia!”

No ano seguinte o Benfica chega à terceira final consecutiva da Taça dos Campeões Europeus, desta vez frente ao Milan. Wembley foi consequentemente o estádio que viu o Benfica perder pela primeira vez uma final europeia. Dois anos depois, chegávamos a mais uma final, onde nos deparámos com o campeão em título, o Internazionale, que ainda por cima jogava em casa no San Siro. Saímos derrotados por 1-0. Foi depois desta derrota que Guttman volta para treinar o Benfica para tentar quebrar a própria maldição, falhando redondamente ao perder nos quartos de final por um aglomerado de 8-3.

Dois anos depois, Wembley volta a ser o jardim das amarguras do Benfica. Desta vez frente ao Manchester United, por 4-1 no prolongamento. Na temporada de 1983, o Benfica chega à final da Copa UEFA, e perde por 2-1 no conjunto dos dois jogos frente ao Anderlecht. Em 1987 é a vez do Porto vencer a Taça dos Campeões Europeus, e no ano seguinte lá estava o Benfica a perder outra final, frente ao PSV Eindhoven, que vencia a competição pela primeira vez. Dois anos depois sucede-se a última final da Taça dos Campeões Europeus para o Benfica, até agora, e mais uma vez voltamos a perdê-la frente ao Milan. Infelizmente ainda temos memórias bem recentes de insatisfação e tristeza, pois em dois anos seguidos (2013 e 2014) perdemos duas finais da Liga Europa, uma frente ao Chelsea, e outra frente ao Sevilha.

Os últimos que levantaram uma taça europeia pelo Benfica
Fonte: SL Benfica

O que será preciso para o Benfica voltar a sair triunfante de uma final europeia? Cada vez mais as odes estão mais baixas, graças ao desequilíbrio a que estamos a assistir no futebol internacional, com os tubarões europeus a comprarem tudo do bom e do melhor, e as equipas relativamente mais fracas a ficarem para trás dado que não têm o mesmo poder de compra.

Em Portugal ainda vimos José Mourinho vencer a Liga dos Campeões com o Futebol Clube do Porto. Um feito gratificante para o futebol português e que lançou o “Special One” para as bocas do mundo. No entanto, a balança tem cada vez mais se apoiado para um lado, mais especificamente para os clubes com poder económico. A época em que o Porto venceu a competição foi uma mera fuga ao habitual. Nos últimos tempos temos visto sempre os mesmos clubes a vencer a Liga dos Campeões, sendo esses quase sempre os favoritos a chegar mais longe, e que consequentemente acabam mesmo por chegar aos últimos oito ou últimos quatro.

Clubes como o Real Madrid, o Barcelona, o Bayern de Munique e os “Top Six” da Inglaterra. E são nada mais nada menos esses os clubes que vemos transferir as maiores promessas e os melhores jogadores já feitos para os seus planteis, não deixando hipóteses de qualquer outro clube se poder afirmar numa Liga dos Campeões. Também é cada vez mais que os adeptos do futebol internacional começam a gostar de umas boas histórias de “underdogs” futebolísticos, como foi o caso do Leicester City quando estes venceram a Premier League na temporada de 2015/2016. Isto porque as pessoas fartam-se de ver os mesmos a ganhar, ou fartam-se de ver o mesmo futebol apoiado pelo dinheiro e salários milionários, e quando assistem a um clube “pequeno” triunfar sobre os “grandes” acaba por ser como um respirar de ar novo. Todos gostamos de uma boa luta que se assemelhe a David contra Golias, em que os pequenos “Davids” saem triunfantes apesar da diferença de altura, neste caso, de poder económico, ou suposta qualidade de plantel.

Costuma dizer-se que se fizéssemos um 11 com os melhores jogadores que saíram recentemente do Benfica e que atuam nos maiores clubes europeus tínhamos uma equipa cheia de estrelas com potencial para vencer uma Liga dos Campeões facilmente, e o mesmo se adequa para o Futebol Clube do Porto. O problema é que em Portugal precisa-se de faturar para poder progredir, e muitas vezes as ofertas são demasiado tentadoras tanto para os clubes, como para os jogadores.

Será que vamos ver o Benfica vencer uma Liga Europa, ou até mesmo, uma Liga dos Campeões? Estará o clube verdadeiramente amaldiçoado, ou já não temos grandes hipóteses graças ao dinheiro que move montanhas?

Foto de Capa: SL Benfica

Jorge Baptista Laires
Jorge Baptista Laireshttp://www.bolanarede.pt
Adepto do Sport Lisboa e Benfica, do clube da sua terra, e, principalmente, da verdade desportiva. Despreza fanatismos clubísticos, tendo sempre uma opinião formada no que vê do próprio jogo jogado.                                                                                                                                                 O Jorge escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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