Carta Aberta a Alberto Contador

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Cabeçalho modalidadesAlberto,

Este que agora te escreve não é um dos teus apoiantes de longa data. Pelo contrário, passei anos a vibrar com vários dos teus adversários. É verdade que, ainda que fosse um jovem que acompanhava o ciclismo esporadicamente, me apaixonei, como tantos outros, pela história de vida do vencedor do Tour 2007. Mas, com o passar dos anos, a promessa de Andy Schleck, o retorno de Lance Armstrong ou a minha adorada Team Sky eram quem povoava o meu imaginário e tu não passavas do Grande Vilão, aquele que tinha sempre mais um truque na manga.

E não penses que só no Tour assim se passava, também no resto do calendário tu eras o animador, decidias a corrida e criavas histórias, fazendo o mundo do ciclismo girar à tua volta. Ainda hoje me lembro bem do dia em que o Luis Leon Sanchez te “roubou” o Paris-Nice 2009 e das tuas tantas tentativas no Criterium du Dauphiné (no tempo em que ainda era Liberé). Era tanta importância e qualidade, que, quer nas vitórias, quer nas derrotas, eras tu o personagem principal.

No meio do teu período dourado, saiu o choque dos “bifes”. Alberto Contador, ‘El Pistolero’, um verdadeiro super-herói do ciclismo, ficava de fora das estradas por uma suspensão por doping. Uma mancha na tua carreira, exacerbada por ser tão mal explicada, ainda hoje há quem debata se foste culpado ou injustiçado. Verdade seja dita, pouco importa, num desporto com tão negro historial, não se renegam os ídolos por uma falha dessas.

Depois veio a relação com Tinkoff, que tanto te desgastou publicamente. Começavas a perder a tua aura de dominador e, atacado pelo teu próprio patrão, o teu enorme manancial de desculpas pelos resultados não fazia jus ao que conhecíamos de ti.

Todos sentiremos falta da pistola mais famosa da história do ciclismo Fonte: Alberto Contador
Todos sentiremos falta da pistola mais famosa da história do ciclismo
Fonte: Alberto Contador

Mas este ano trouxe-te a redenção, já não eras o Contador de outros tempos, que subia montanha a cima e deixava os adversários irremediavelmente para trás, mas deste-nos a perceber o porquê de seres uma lenda do ciclismo. Mesmo quando todos sabíamos que não ia dar, tentavas. Mesmo quando todos jogavam à defesa, atacavas.

E então, vergado pelo passar dos anos e pela diminuição da tua força, anunciaste que estava na altura de acabar a tua carreira. Eu estive lá, como todo um país que saiu à estrada para se despedir de ti, e tu não deixaste ninguém arrependido, foste igual a ti mesmo e, dia após dia, tentaste a tua sorte. Foi preciso chegar ao penúltimo dia e à mais mítica das 21 etapas para dispares a pistola uma última vez. Nós, adeptos, ficamos todos tão felizes de te ver alcançar um prémio merecido e tão tristes por sabermos que era o fim de uma era que tanto nos deu.

Que tolos fomos. Tomámos-te por certo. Pensamos que eras para sempre, que tinhas passado do teu auge, mas que continuarias lá a ensinar que se hoje somos derrotados, só nos resta tentar ainda mais amanhã. A tua coragem em cima da nossa amiga de duas rodas ficará para sempre na memória de quem teve o prazer de acompanhar a tua carreira.

Gracias, Alberto!

Foto de Capa: Alberto Contador

Artigo revisto por: Francisca Carvalho

José Baptista
José Baptista
O José tem um amor eclético pelo desporto, em que o Ciclismo e o Futebol Americano são os amores maiores. É licenciado em Direito (U. Minho) e em Psicologia (U. Porto).

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