O Sporting deslocou-se a Moreira de Cónegos e derrotou, de forma categórica, a equipa do Moreirense por 3-0. Para o encontro da 23.ª jornada da Primeira Liga, Vasco Botelho da Costa procedeu a duas alterações face ao último jogo em Vila do Conde, que terminou com o triunfo dos cónegos por 3-0. Cedric Teguia entrou para o lugar de Diogo Travassos, que não pôde ser opção por estar emprestado pelo Sporting, e Álvaro Martínez ocupou o lugar de Francisco Domingos no corredor esquerdo.
Já Rui Borges pôde voltar a contar com o regresso de Luis Suárez, que substituiu (no papel) Pedro Gonçalves na posição 9 face ao último jogo, e promoveu ainda a entrada de Geny Catamo para o corredor direito, com Maxi Araújo a baixar para lateral esquerdo, Luís Guilherme a extremo esquerdo e Francisco Trincão a 10.
A equipa de Vasco Botelho da Costa apresentou-se num 4-4-2, com Yan Maranhão e Alanzinho na dupla de ataque, através de um bloco médio/baixo. O Moreirense saía a três, com Gilberto, Maracás e o lateral esquerdo Álvaro mais baixo, sendo Dinis Pinto quem se projetava no corredor. Nesse sentido, o Sporting ajustou a pressão: Luis Guilherme começou por pressionar Gilberto, Luis Suárez Maracás e Francisco Trincão Álvaro, enquanto Geny Catamo baixava mais no terreno, algumas vezes até para formar a linha de cinco do Sporting. Maxi Araújo ficava encarregue de Dinis Pinto.


Ainda assim, foi a equipa de Rui Borges a mais pressionante e intensa nos primeiros 15/20 minutos, período em que dispôs de algumas oportunidades para visar a baliza do Moreirense. Através do corredor esquerdo e do bom entendimento entre Luís Guilherme e Maxi Araújo – a perceber quem deveria dar largura e quem deveria pisar zonas mais interiores – os leões foram tendo capacidade para criar espaços e oportunidades a partir desse lado, colocando tanto Dinis Pinto como Cedric Teguia em muitas dificuldades para controlar esse poderio ofensivo. Francisco Trincão, que foi pisando várias zonas do campo ao longo do jogo e beneficiando ainda mais dessa liberdade quando partia do corredor central, juntava-se frequentemente ao lado esquerdo para gerar combinações e criar superioridades.
Em resposta ao Bola na Rede, Rui Borges fez uma análise clara às dificuldades criadas nesse corredor esquerdo. O técnico do Sporting destacou que o jogo frente aos cónegos em Alvalade explicava as dúvidas de Cedric Teguia nas marcações e em quem deveria saltar na pressão: se em Maxi Araújo, Luis Guilherme ou outro jogador que surgisse naquela zona. Assim, com Dinis Pinto a fechar mais a zona interior e atento a Luís Guilherme, Maxi Araújo foi aparecendo solto na largura, o que obrigava Dinis a um grande desgaste nos movimentos de redução de espaço e, quando a bola entrava no internacional uruguaio, tornava-se mais fácil tabelar e ganhar a linha para possíveis cruzamentos.
Numa paragem a meio da primeira parte, Vasco Botelho da Costa chamou Cedric Teguia e Dinis Pinto para ajustar posicionamentos e momentos de salto à pressão que estavam a descompensar a equipa. Essas falhas permitiam que, sobretudo, Maxi recebesse na largura ou criasse espaços com movimentos constantes de rutura, já que era o médio do Moreirense quem o acompanhava. Nesse contexto, tornava-se particularmente difícil para Stepanovic seguir esses movimentos sem abandonar as suas zonas de atuação.


A realidade é que a equipa do Moreirense, depois desses ajustes táticos, melhorou, e os dois jogadores pareceram entender-se melhor no que toca às referências individuais. O Sporting também se foi tornando mais lento na circulação de bola e não conseguiu aproveitar o espaço no flanco contrário – com Geny Catamo pouco interventivo na primeira parte. Rui Borges foi pedindo também a Maxi Araújo para avançar no terreno, mas a circulação tornou-se cada vez menos eficaz na criação de espaços.
A ideia do 4-4-2 de Vasco Botelho da Costa passou também por ter duas referências ofensivas na pressão, tendo em conta que, sendo um campo de dimensões reduzidas e com um Sporting a pressionar homem a homem e de forma muito agressiva, poderia ser importante para o Moreirense saltar a primeira fase de pressão. Assim, com Alanzinho e Yan Maranhão, poderia ser relevante jogar de costas para o jogo, apesar de a melhor referência nesse aspeto (Guilherme Schettine) já ter saído, o que limitou esse tipo de abordagem para o encontro.
Alanzinho tinha ainda o papel de arrastar sobretudo Hidemasa Morita para o corredor direito do Moreirense e tentar criar superioridades no corredor central, com o intuito de que Stepanovic conseguisse receber solto e rapidamente procurar os corredores através de Kiko Bondoso e Dinis Pinto. Ainda assim, com o Sporting a ter mais bola e com as dificuldades do Moreirense em segurá-la numa fase mais adiantada do terreno, as tentativas de escoar jogo foram quase sempre condicionadas pelas marcações apertadas da equipa leonina.


Outra das nuances do Sporting muito visível foi a forma como os jogadores mais ofensivos, bem como Hidemasa Morita e Maxi Araújo, tinham permissão para atacar rapidamente a última linha do Moreirense. Várias vezes foi possível ver esses arrastos de marcação, quer para o Sporting arriscar no passe longo, quer para esticar a linha do Moreirense e abrir espaços na zona central para jogadores como Francisco Trincão e Luis Suárez aparecerem para combinar.
Com o 0-0 ao intervalo, antecipava-se uma entrada forte do Sporting na segunda parte, para evitar golos tardios, à imagem dos últimos jogos. E a resposta dos leões não tardou, novamente com grande agressividade nos corredores. A equipa passou a ser mais rápida na circulação de bola e, nesse sentido, jogadores como Gonçalo Inácio e Ousmane Diomandé – e, em algumas ocasiões, até Hjulmand, que podia baixar para o meio dos centrais para construir – começaram a dar maior velocidade à circulação e à variação de flanco. Esses segundos ganhos, comparativamente à primeira parte, como Rui Borges explicou, proporcionaram ao Sporting mais dinâmica com bola e melhores condições para fazer chegar a bola aos corredores em vantagem. Assim, Francisco Trincão chegou a fazer diagonais curtas e teve maior presença em zona de finalização, acabando por abrir o marcador ao minuto 52’, após assistência de Maxi Araújo na esquerda.


Geny Catamo, que teve uma primeira parte com pouco protagonismo, começou também a ter mais espaço com bola e, num dos seus movimentos característicos de puxar para dentro, protagonizou o golo da noite com um remate colocado, sem hipóteses para André Ferreira. O Moreirense reagiu e começou a aproximar-se mais da baliza, mas a realidade é que foi novamente o Sporting a marcar. Luis Suárez, à semelhança de Geny – que não tinha tido uma primeira parte muito ativa – apontou o terceiro golo do Sporting com uma excelente execução técnica, fechando o resultado e dissipando quaisquer dúvidas no marcador.
No final do encontro, foi possível colocar questões aos dois treinadores e gostaria de destacar a sinceridade, a objetividade e a espontaneidade das respostas ao Bola na Rede. A capacidade com que Rui Borges, sem qualquer tipo de conservadorismo ou receio, explicou como criou vantagens e qual foi parte do plano delineado para os corredores laterais é algo a valorizar. Nota-se não só a evolução enquanto treinador – na capacidade de se adaptar a cada adversário e criar dinâmicas específicas para cada jogo -, mas também no desenvolvimento da sua comunicação, destacando-se a precisão com que desenvolve temas táticos nas respostas ao Bola na Rede. Já Vasco Botelho da Costa é também um treinador que aborda a vertente tática e voltou a fazê-lo, mesmo após uma derrota, explicando determinados aspetos do jogo que, para ele, fizeram com que o Sporting fosse superior no encontro. Respira-se futebol e todos acabam por sair valorizados.


BnR na Conferência de Imprensa
Bola na Rede: Numa fase inicial, com o Dinis Pinto mais projetado do que o Álvaro Martínez, o Sporting foi conseguindo criar espaços no corredor esquerdo. No entanto, a meio da primeira parte, o Vasco chamou o Cedric Teguia e o Dinis Pinto para lhes dar indicações. Gostava de lhe perguntar se essas orientações tiveram a ver com os saltos à pressão, tendo em conta que a equipa conseguiu equilibrar mais o jogo a partir desse momento?
Vasco Botelho da Costa: Sim, teve claramente a ver com isso. Nós queríamos que fosse a linha a bascular para controlar o jogador de dentro em rutura e nós, ali no corredor direito, não estávamos a perceber que havia diferenças no nosso posicionamento no momento em que já estávamos com pressão ativa e no momento em que não estávamos com pressão ativa. Estávamos sempre a exigir ao Dinis para saltar fora e, quando nós não estávamos com pressão ativa, acabava por se abrir uma autoestrada muito grande, porque o Gilberto não estava a bascular e o Sporting foi daí que conseguiu ferir. Difícil, neste ambiente e com o jogo a decorrer, conseguir corrigir. Daí as chamadas de atenção tanto ao Dinis como ao Cedric, mas lá está, não dá para dissociar do grande mérito que o Sporting tem, porque tem os jogadores bem posicionados, a bola circula rápido, passe, receção, passe, receção e rutura, e obrigou-nos a entrar no nosso.
Bola na Rede: O Sporting entrou muito forte, sobretudo através das incursões pelo corredor esquerdo, com o Luís, o Maxi e até o próprio Trincão a aparecerem nessas zonas. O Moreirense, a meio da primeira parte, conseguiu equilibrar o jogo, mas na segunda parte o Sporting voltou a entrar com intensidade, muito ativo nos corredores. Gostava de lhe perguntar como foi gerindo o momento ofensivo nesse corredor esquerdo, tendo em conta que o Dinis era o lateral mais projetado do Moreirense?
Rui Borges: É simples para mim explicar, porque era algo que já estávamos à espera, tendo em conta o primeiro jogo em Alvalade. Nós melhorámos um pouco na segunda parte porque fomos mais dinâmicos com bola, não parámos tantas vezes a bola, e vou explicar o porquê. Se nós ganhamos superioridade de um lado, temos que insistir nela. Até eles se adaptarem, nós temos que ir lá outra vez. E o que estava a acontecer à nossa esquerda e à direita do Moreirense? O Teguia estava com dúvidas nas marcações, já tinha acontecido o mesmo em Alvalade. O Dinis, num primeiro momento, fechava o espaço interior e dava muito espaço na largura para a tomada de decisão, fosse do Maxi, fosse do Luís Guilherme. Quem não estivesse na largura tinha de rasgar, porque quem acompanhava esse rasgo, maioritariamente, era o médio e não tinha capacidade para acompanhar os nossos dois homens da esquerda. Era muito por aí essa dinâmica e nós estávamos a consegui-la na primeira parte. Era chegar com mais gente à área. Acabámos por fazer o golo do Trincão dessa forma, com o Trincão a aparecer na zona do penálti. O Geny e um dos médios que estivesse perto tinham de aparecer lá, porque estávamos a ter essa superioridade à esquerda, dava-nos espaço para cruzamentos e tínhamos de chegar com mais gente. Se era essa a nossa superioridade e que estávamos a ganhar, tínhamos de explorar. E ao intervalo foi só tentar perceber que era para insistir nisso, mas a bola tinha de andar mais rápido. Quando atraíamos à direita, quando rodávamos, tínhamos de ir à largura. Na primeira parte, o que às vezes estava a acontecer é que a bola estava na direita, o Inácio e o Diomandé prendiam e só depois é que iam buscar. E esses segundos deixam a equipa adversária ajustar. Já não saltava, em alguns momentos, o Dinis e já estava mais tranquilo o Moreirense. Por isso, quando atraíamos à direita e rodávamos rapidamente à esquerda, o Dinis tinha uma distância grande para percorrer e para encurtar e nós ganhávamos espaços para acelerar. Era um pouco por aí, foram leituras que fomos tendo. Foi algo que aconteceu em Alvalade, porque jogou o Teguia também e deu essa dúvida à nossa esquerda.

