Há, no jogo do Real Madrid, um mundo de distâncias entre a primeira e a segunda versão que se apresentaram diante do Benfica. Não de intenções, necessariamente, mas de consequências aplicadas em campo. O trabalho de Álvaro Arbeloa não é de autor, mas empreendeu, em menos de um mês, mudanças significativas na estrutura do Real Madrid.
Entre regressos de lesões e intenções táticas, há diferenças claras na versão merengue que perdeu na Luz por 4-2, num dos mais épicos jogos desta edição da Champions League, e naquela que, com um golo de Vinícius Júnior esfumado pelos piores motivos, ganhou uma vantagem valiosa na eliminatória.
Álvaro Arbeloa recebeu o Real Madrid das mãos de Xabi Alonso, que quis fazer dos merengues algo que o clube muito dificilmente será. A estrutura rígida e posicional do ex-Bayer Leverkusen, com os seus méritos e deméritos, contrariava as bases com que Carlo Ancelotti havia trabalhado anteriormente. Entre o aproveitamento de algumas das mais-valias trazidas por Xabi e a procura de enquadrar da melhor maneira os mais decisivos dos jogadores merengues, Álvaro Arbeloa vai tentando dar a melhor versão ao Real Madrid.


Por esta razão, é pelo ataque que o Real Madrid começou a ser pensado. A grande mudança coletiva dos merengues pode ser descrita em números. O 4-3-3 capaz de se transformar num 3-2-5 em organização ofensiva caiu e o Real Madrid estrutura-se agora num 4-4-2 que junta Vinícius Júnior e Kylian Mbappé, nomes maiores da equipa, numa dupla de ataque com liberdade de movimentos na frente. A tendência para cair à esquerda, pé trocado, é comum aos dois avançados, mas a estrutura mais livre assim o permite. Ofensivamente, o Real Madrid depende muito do que os dois homens da frente consigam produzir.
A liberdade, palavra-chave para a dupla ofensiva, beneficia individualmente Vinícius Júnior e Kylian Mbappé, capazes de circular em torno da bola e de confundir marcações adversárias. Ainda assim, é natural que o Real Madrid vá depender do que os dois avançados consigam produzir, mais do que o que o coletivo consiga gerar.
O posicionamento mais centralizado facilita também a estratégia defensiva do Real Madrid. Não há grande predisposição dos dois elementos para o trabalho de pressão e, muito menos, para o do acompanhamento do lateral. Entre a vontade de os ter frescos na frente – onde são letais em transição e no ataque aos espaços – e a falta de comprometimento individual dos jogadores está a razão para tal, colocar os dois avançados na frente permite suavizar os impactos de defender com oito jogadores. Numa posição central é mais fácil, pela mera presença em campo, incomodar centrais adversários e cobrir linhas de passe para os médios. Simultaneamente, mais atrás, as duas linhas de 4 são capazes de funcionar em parelha.


Entendido o papel dos avançados no Real Madrid, a construção do onze foi pensada para permitir o maior equilíbrio possível. No meio-campo há três tanques de guerra preparados para vencer duelos. Camavinga à esquerda e Valverde à direita são capazes de preencher os lados do campo, suportar o lateral na tarefa defensiva e, com bola, de gerar perigo pela capacidade de condução e chegada. Por dentro, Aurelién Tchouaméni ganhou relevância como o médio tampão, responsável por limpar lances e transições. Surge acompanhado de Arda Guler, o mais refinado tecnicamente e dotado de maior precisão técnica. Ganhou capacidade, com Xabi Alonso, para jogar como primeiro médio, recebendo bolas em zona mais baixa e vendo o jogo de frente. Quer em organização, quer em criação, no vértice mais adiantado de um losango que se vai criando, tem qualidade técnica e visão de jogo no passe para conseguir alimentar a dupla da frente.
A lesão de Jude Bellingham permitiu a Álvaro Arbeloa o conforto para operar estas mudanças sem mexer com os estatutos, uma das maiores dificuldades de qualquer treinador do Real Madrid. O médio está fora do jogo contra o Benfica e, por enquanto, o seu encaixe na equipa (onde deixou de haver um lugar para um médio de chegada ao último terço) deixou de ser uma dúvida para o Real Madrid.
Defensivamente há, essencialmente, duas grandes mudanças que o departamento médico permitiu. No centro da defesa, e à falta de um central regular e confiável, Antonio Rudiger dá muito mais que Raúl Asencio. Por um lado, aumenta o conforto de Dean Huijsen, central a quem José Mourinho reconheceu o potencial e que se destaca mais com bola do que sem esta. Na lógica de complementaridade, o alemão é mais capaz de assegurar o trabalho sujo, de vencer duelos aéreos e de cobrir o espaço nas costas.


Nas laterais, Álvaro Carreras ainda procura recuperar o protagonismo que as mudanças à sua frente o fizeram perder. É agora mais exigido na função de chegada, até para permitir a Camavinga juntar-se por dentro onde está mais confortável para jogar. O principal diferencial criativo na equipa passa pela inclusão de Trent Alexander-Arnold na equipa. A nível criativo no passe continua a ser o lateral mais destacável da Europa. Com o meio-campo mais preparado para a guerra, o inglês é o principal criador de jogo da equipa, talvez a par de Arda Guler que, pelo pé esquerdo, também vai procurando a meia-direita para se enquadrar.
Não havendo um jogador de área para receber cruzamentos, Arnold vai conseguindo encontrar Mbappé constantemente a profurar as costas da defesa no segundo poste ou cruzamentos mais criativos. Num Real Madrid letal com espaço nas costas, a capacidade de passe a distância e de colocar bolas dentro do bloco adversário são também recursos criativos valiosos para uma equipa que, sem se expor a grande risco, consegue criar facilmente vantagens e lances de perigo.
Por fim, num Real Madrid que, por mais que se sinta confortável a oferecer a iniciativa e a defender mais atrás, é pensado a partir dos homens mais avançados, há um elemento fulcral capaz de dar pontos. O que Thibaut Courtois vai fazendo nos merengues tem passado algo fora do radar para a influência que o belga tem. Numa equipa onde o desequilíbrio não é uma raridade assim tão grande, ter um guarda-redes com a capacidade de preencher a baliza e somar defesas como o gigante belga é um recurso valiosíssimo. São inúmeros os jogos menos conseguidos por parte dos merengues que não ficaram associados a desaires pelos momentos-chave do guarda-refes.


Para lá do onze, agora perfeitamente definido, e num Real Madrid sem Bellingham, Ceballos ou Militão e, diante do Benfica, sem Rodrygo, há nomes de banco mais importantes que os outros. A capacidade de mexer no jogo está reduzida a menos opções. Gonzalo García é um nome importante para a complementaridade ofensiva do Real Madrid e particularmente relevante com Kylian Mbappé em dúvida e, provavelmente, fora da partida. É mais posicional e capaz de trabalhar para beneficiar os colegas e de responder a um jogo mais direto. Num meio-campo afetado por lesões, Cestero, um menino que Arbeloa trouxe da formação e que bem conhece, vai ganhando protagonismo e tentando ocupar o tal espaço reservado a um organizador de jogo puro que os merengues não têm. Há ainda nomes capazes de fazer mossa na frente, do mais criativo e pródigo em espaços curtos Brahim Díaz, cujo estatuto em Madrid continua a não fazer jus à qualidade nos pés, ao ainda algo desenquadrado Franco Mastontuono, um talento inequívoco que acabou por perder espaço sendo mais vítima do que réu. Lá atrás, Fran García é um nome capaz de dar vivacidade e energia ao lado esquerdo da defesa, Dani Carvajal é um nome relevante no balneário merengue e capaz de acrescentar em contextos onde a combatividade seja necessária, e Raúl Asencio e Alaba, que perdeu muito espaço na equipa com as lesões vão dando rotação aos centrais.
Foi com esta base que o Real Madrid elevou o nível exibicional e conseguiu, depois da derrota na Luz e de uma vitória sofrida contra o Rayo Vallecano no Bernabéu, uma sequência de resultados positiva e de jogos mais bem conseguidos. Ainda assim, é um Real Madrid que se apresenta como um produto inacabado e cuja derrota contra o Osasuna abriu feridas mal saradas. A Champions League tem um grau de exigência e de responsabilidade que, a par da aura que o nome Real Madrid transporta, vai relativizando as lacunas e sobrevalorando as mais-valias. É essa a versão espanhola que os blancos pretendem e que o Benfica quer evitar a todo o custo.



