A história de Pichichi: um goleador que partiu cedo demais, mas que deixou a sua marca (e tem direito a um troféu em seu nome)

- Advertisement -

O grande objetivo de um jogo de futebol é o golo. Por muito que se pratique um futebol vistoso, se tenha uma defesa sólida, sem colocares a bola no fundo das redes não consegues vencer um encontro. Os matadores sempre foram uma parte fundamental do desporto rei, com as equipas a investirem cada vez mais em terem o seu jogador com faro de golo, que pudesse fazer a diferença no último terço. Desde o aumento progressivo da popularidade do futebol ao longo do território europeu, cada vez mais nomes foram surgindo como avançados de topo, capazes de marcar uma era. Um deles foi Pichichi.

Rafael Moreno Aranzadi é um nome desconhecido para praticamente todos os que se encontram a ler este artigo. Contudo, o mesmo já não se poderá afirmar da sua alcunha, mesmo que estejamos a falar de um atleta que atuou nas primeiras décadas do séc. XX. Pichichi ganhou o seu apelido pelas mãos do seu irmão mais velho, Raimundo, que acabou por ficar como a sua imagem de marca. Sobrinho de Miguel de Unamuno, escritor e filósofo marcante da era contemporânea em Espanha, o jovem estava destinado a ser futebolista, ainda que lograsse a inscrição na licenciatura de Direito, que não completou.

Pichichi era pequeno, tinha 1,60m, mas sem receio de disputar qualquer lance. O futebol de rua estava-lhe no sangue, tinha velocidade, drible, remate. Estava uns furos acima dos restantes, o que lhe deu destaque. O avançado vestiu somente uma camisola em toda a sua carreira, a do Athletic, emblema ao qual chegou em 1911, entrando na história dos bascos em 1913, marcando o primeiro tento do San Mamés, num encontro frente ao Irún, que terminou com um 1-1.

O basco foi um homem de marcas, que acabou adorado em Bilbao. Pichichi venceu quatro Taças do Rei, na época, a principal competição do país (1914, 1915, 1916 e 1921), atingindo o seu apogeu em 1920, perto de terminar a carreira, ajudando a Espanha a chegar à medalha de prata nas Olimpíadas da Antuérpia. A crítica internacional estava rendida ao avançado que jogava quase sempre com um lenço branco na cabeça.

Contudo, a carreira de futebolista não ia durar muito mais. Nem a vida. Pichichi saiu em grande do desporto rei, em 1921, quando tinha apenas 29 anos. Os dados relacionados às suas estatísticas causam dúvidas, não há uma fonte totalmente fiável. Ainda assim, o Athletic refere que realizou 89 jogos, com 83 tentos marcados, numa era em que as partidas por temporada eram poucas. Tinha o desejo de tornar árbitro (hoje dia, absolutamente impensável), mas a morte apareceu como o único adversário que não é possível derrotar. Pichichi faleceu em 1922, depois de alegadamente ter comido umas ostras estragadas, que lhe provocaram febre tifoide, com a qual não se conseguiu lutar.

Rafael deixava o mundo antes dos 30 anos, mas o seu nome seria sempre lembrado e alvo de homenagens. A primeira de todas foi um busto, colocado no San Mamés, visitado e honrado por fãs e adversários, que tratavam de seguir os passos de um dos nomes mais importantes para o futebol espanhol.  Contudo, o nome de Pichichi tornou-se eterno na etapa franquista, quando em 1953 o jornal Marca decidiu atribuir a designação do melhor marcador da La Liga ao nome que marcou uma era. O primeiro Pichichi? Telmo Zarra, o seu sucessor no Athletic (não em nível temporal, mas sim em termos de qualidade) e outra figura marcante na história dos bascos e do desporto rei no país vizinho (que também tem direito a um prémio com o seu nome).

Hoje em dia, Lionel Messi é o jogador que mais vezes se tornou Pichichi, mas o prémio acompanha os grandes goleadores da La Liga, desde os longínquos tempos de Telmo Zarra e Ferenc Puskás, até Cristiano Ronaldo ou Robert Lewandowski. Kylian Mbappé o atual detentor do troféu.

Pichichi fez parte de uma geração que viu Bilbao ser uma das grandes portas de Espanha, que sofreu com as consequências da Primeira Guerra Mundial (ainda que o país não tenha participado diretamente no conflito) e que vivia a falência do sistema político espanhol, com uma monarquia cada vez mais fragilizada. Faleceu antes da entrada de cena das ditaduras na Europa e do golpe militar de Primo de Rivera. Apesar de todos os pontos em contra, da crise social e económica (provocada essencialmente pelo aumento brutal de preços e pela exportação massiva de produtos que fariam falta a nível interno), o futebol continuava a ser uma alegria para o povo. E Pichichi fazia as bancadas vibrar, como poucos conseguiram.

Ricardo João Lopes
Ricardo João Lopeshttp://www.bolanarede.pt
O Ricardo João Lopes realizou a sua formação na área da História, mas é um apaixonado pelo desporto (especialmente pelo futebol) desde criança, procurando estar sempre a par da atualidade.

Subscreve!

Artigos Populares

Benfica x Real Madrid: Eis os onzes prováveis para a última jornada da fase regular da Champions League

O Benfica recebe o Real Madrid no Estádio da Luz, no encontro da 8.ª e última jornada da fase regular da Champions League.

Bruno Langa confirma regresso ao futebol português e vai jogar na Primeira Liga

Bruno Langa está de regresso ao futebol português. O lateral-esquerdo moçambicano vai ser emprestado ao Estrela da Amadora.

Benfica afasta-se da corrida por Stije Resink e o médio já não deve sair do Groningen em janeiro

Stije Resink já não deverá reforçar o Benfica. O Groningen permaneceu irredutível face a uma possível saída do médio neerlandês.

Javi García recorda passagem pelo Benfica como jogador e treinador: «Foi uma das decisões mais felizes da minha vida»

Javi García recordou a sua carreira no Real Madrid e no Benfica e falou sobre os momentos que marcaram a sua passagem pelos dois clubes.

PUB

Mais Artigos Populares

FC Porto avança por mais dois reforços neste mercado de janeiro

Os nomes de Terem Moffi e de Seko Fofana podem ser reforços para a equipa de Francesco Farioli. O FC Porto está a trabalhar nas duas contratações.

Sporting x Athletic- a eliminatória do ‘quase’

O Sporting e o Athletic disputaram um lugar na final da Europa League. O espanhóis acabaram por levar a melhor.

José Neto elege as suas referências, elogia José Mourinho e antevê Benfica x Real Madrid: «A nossa equipa está a preparar-se muito bem»

José Neto fez um balanço do seu período no Benfica. O jovem lateral elogiou Nuno Mendes, Álvaro Carreras e José Mourinho e falou da partida frente ao Real Madrid.